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Quando ainda menino, achava muito difícil o trabalho de um escritor. Inventar fantasias e narrar fatos vividos pareciam possíveis somente para poucos, então nem imaginava que um dia viria a ser conhecido como um ‘contador de histórias’. Meu avô, um aventureiro convicto, sempre fez questão de dividir com todos seus causos e logo tomei gosto por ler e ouvir as experiências dos outros. Dai para começar a contar eu mesmo as histórias foi uma virada de página.

No começo, contava enredos fantásticos que surgiam das minhas brincadeiras infantis. Nas minhas palavras meus carrinhos rodavam o mundo, blocos de madeira cresciam em arranha-céus coloridos, besouros e gravetos eram feras na selva. Fiz muitos amigos e parentes rir e aplaudir. Mas foi na minha adolescência que aprendi que as melhores histórias sãos as que a gente vive.

Como numa perseguição policial, meu pai mandava um táxi surgido sabe lá de onde colocar o ‘pé na tábua’.

As viagens são um tesouro para um contador. Na ida, na estada ou na volta, um enredo de comédia ou drama pode se desenrolar. Há muito tempo, voltando de ônibus da capital com meus pais, fui ator do meu próprio filme. Numa parada de quinze minutos que pareceu durar quinze segundos, nós três ainda com a boca cheia de sanduíche encontramos um estacionamento vazio e aquele caixote cheio de janelas indo embora pela estrada, levando todos os outros passageiros e nossa bagagem. Como numa perseguição policial, meu pai mandava um táxi surgido sabe lá de onde colocar o ‘pé na tábua’. Corremos muito, mas ainda fomos atrasados por um trem com vagões incontáveis que pareciam nunca parar de passar. Se não fosse por uma ponte em manutenção que impediu o ônibus de passar nós perderíamos nossas malas ou pagaríamos uma nota ao taxista. E claro, minha mãe ia perder a chance de dar aquele sermão no motorista e eu de contar uma história com final feliz.

Atrás da caixa registradora, ela prestava mais atenção às moedas que aos rostos desconhecidos que passavam pela padaria. Mas bastou nossos olhares se cruzarem para ela errar o troco, acredita?

O desespero daquele momento se tornou um causo divertido nas rodas de amigos. Dessa época em diante eu tentei viajar sempre que possível, conhecer mais pessoas, viver outras aventuras! Evolui bastante, digamos assim, e mais uma vez, me vi surpreso comigo mesmo. Os anos passando e eu cada vez filosofava mais sobre a vida. Passei a me atentar mais aos detalhes, sabe? Lembro de como conheci um dos meus grandes amores... Atrás da caixa registradora, ela prestava mais atenção às moedas que nos rostos desconhecidos que passavam pela padaria. Mas bastou nossos olhares se cruzarem para ela errar o troco, acredita? Devolvi o dinheiro e criamos ali um laço de confiança que dava início a o que viria a ser uma bela paixão de juventude (posso até contar melhor depois). Sempre que levo essa para a roda dos amigos, o pessoal abre aquele sorriso... Quem diria que o troco do pão renderia um boa história?

Hoje, depois de viver tanta coisa, cheguei a uma conclusão. Seja descrevendo minhas brincadeiras malucas de criança, contando cada detalhe daquele passeio que mais pareceu roteiro de cinema ou mesmo relembrando as minúcias de um encontro na padaria, todo mundo tem uma boa história para contar. E você, qual é a sua?

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Ilustrador: Júlio Klenker