É janeiro. Foram-se festas, sonhos, ilusões... Mas, as férias ainda não acabaram. O verão continua!

E isto é o que mais importa para os garotos de um povoado longínquo. Pedaço ínfimo e largado, deste Brasil grande e desconhecido.

- Por que essa cara, filho?
- Nada não!
- Eu te conheço! Aposto que o jogo acabou porque Jaime saiu e levou a bola, não foi?
- Foi.
- Por que você e os outros meninos não continuam com a sua, e esquecem a de Jaime?
- Ninguém quer mais jogar com bola de meia nesse terreiro de areia fofa, mãe! Agora, só querem com bola de couro; porque é grande...
- Filho, vive-se como se pode; brinca-se com o que se tem!
- Mas eu não tenho brinquedo!
- Então faça alguma coisa! Crie! Invente! Não fique aí emburrado, dependendo dos outros!
- Fazer o quê? Não sei fazer nada!
- Jaime também não!
- Mas ele tem tudo! O pai dá.
- Meu filho, ter tudo fácil, não faz bem ao físico, tampouco à cabeça!
- Por quê?
- Assim como a visão deixa outros sentidos lentos e ociosos; mãos cheias deixam o cérebro vazio e preguiçoso.
- Queria fazer bola de couro, carro, pião... Ah, uma monte de coisa! Mas não sei como!
- Vai aprender. Eu vou lhe ensinar.
- Quando?
- Depois. Agora olhe pr’esta colcha, que estou costurando, e me diga o que vê!
- Pra quê, mãe?
- Diga! Vamos!
- Ah, um monte de pedaços de pano emendados, feito bola de couro! Mas não é uma bola!
- Eu sei! São pedaços unidos formando um só objeto. Como nossas vidas!
- Que vida, mãe, é feita de pedaços de pano?
- De pano, não! Apenas pedaços! Retalhos da própria vida!
- Retalhos de vida! E vida tem retalhos?
- Momentos vividos, filho, são retalhos. Estes pedaços de estampas, coloridos representam ocasiões felizes! Os cinzentos e pretos, dias... assim como o de hoje.
- Mãe, a senhora tá com os olhos vermelhos!...
- Provém da poeira do areal lá fora... Vá buscar casca de coco para encher a bola de retalhos que vamos fazer. Bem grande! Do tamanho de uma de couro!
- Mesmo, mãe?!
- Sim. E a partir de amanhã, vou lhe ensinar muitas coisas. E nunca mais quero você amuado pelos cantos, ouviu?
- Eu não precisava fazer nada, se meu pai tivesse aqui. Ele me dava tudo!
- Já lhe disse: quem tudo tem, e nada faz, tanto o corpo quanto a mente se retraem!
- Não quero saber disso. Eu queria era meu pai comigo!
- Eu também. Mas não tá, eu cuido de você. E deixe ele onde está em paz.
- Nunca ganhei brinquedo nem no natal, só porque não tenho pai.
- Você também não sabe pensar noutra coisa, senão, brinquedo e brinquedo!
- Penso!
- Em mais o quê? Diga!
- Crescer. Ganhar dinheiro. Ter filho. E dar a ele muito presente no Natal!
- Carlos, meu filho, nossas vidas são como as plantas: nascem, crescem, morrem, e nem todas florescem! Que Deus te abençoe! Que te faça florir e frutificar!

A vida continuou. Seguiu impávida, cavalgando sobre o dorso escorregadio do tempo...
Aquelas crianças cresceram. Deixaram para trás infância, adolescência e com elas também ficou a liberdade. Tornaram-se homens responsáveis. Cada qual arrumou sua trilha, buscando uma clareira na mata rústica social.
Alguns trocaram o vilarejo por cidades grandes. A exemplo de Carlos.
É dezembro. Chegaram as festas, sonhos, ilusões... Iniciam-se as férias. O verão chegou. Natal bate à porta...

- Pai! Mãe! Vem ver quanto presente papai Noel trouxe pra mim!
Puxando um e outro pelas mãos, o menino os levou até seu quarto.
- Vejam! Uma bicicleta! Um autorama! Uma bola de couro!... Vem, pai! Vem jogar comigo! Mãe, venha ver!

Apressado, saiu chutando a bola, acompanhado pela mãe. Feliz, nem se deu conta de que Carlos ficara para trás...

- Vem, pai! Paaai! Cadê você? Venha!...

Não o vendo, Heitor retornou a seu quarto, onde o pai se encontrava sentado na sua cama, abstraído, afagando uma colcha de estampas coloridas...

- Pai! você está chorando?
- Não, meu filho: foram remotos grãos de areia que me saltitaram aos olhos.

-
História escrita por Luiz Carlos Lessa Alves