Eu a conheci, primeiro, pelas palavras que a descreviam. Todos seus dons, todo o seu jeito de ser, todo o seu jeito de gostar. Não foi o descrever de toda uma vida, mas palavras suficientes para, de imediato, despertar em mim o carinho e o bem querer por alguém que dedicara sua vida a cuidar bem de sua gente, seus filhos, os naturais e os acolhidos pelo coração.

Depois, eu a conheci pessoalmente. Abrigada, por necessidade de cuidados constantes com sua saúde, em um lar evangélico. Desde o primeiro momento, despertou em mim enorme sentimento de carinho, de afeto, de ternura. Mesmo jamais tendo me conhecido, mesmo jamais fazendo ideia de quem eu fosse, me recebeu com um sorriso alegre - pois que existem sorrisos tristes -, um sorriso que era o mesmo que abrir seus braços e seu coração para me receber. Assim eu senti, assim foi.

Passei a visitá-la duas ou três vezes por semana. Sempre procurava levar um vasinho com violetas, para enfeitar o seu quarto. E sempre me recebia com aquele sorriso lindo. Eu beijava sua testa, respeitosamente, e ela tomava de minha mão e a beijava. Justamente o inverso do que deveria ser. Eu é que deveria tomar-lhe as mãos e beijá-las, por muitas razões. Entre elas, a de permitir que, ao visitá-la, tivesse oportunidade de resgatar velhas e sofridas dívidas, que ninguém me cobra, mas sei que existem.
Eu me sentia feliz ao lado dela. Contava-lhe histórias que conhecia, inventava outras, engraçadas, que a faziam rir. Dizia-lhe do que fizera e do que iria fazer. E ela buscava, na memória já gasta, lembranças dos seus tempos de menina, de moça e de mãe. Contava-me passagens da vida, como se as estivesse vendo naquele momento. Como os bailes de carnaval na Rua Larga, onde só podia ir acompanhada dos irmãos, ou a casa onde nascera, a qual não mais existia, ela afirmava. Sempre que perguntava pelas visitas que recebera, sabia ela que a filha estivera lá, também seus netos. Mas muitas vezes confundia os nomes, e eu a ajudava a lembrá-los. E era gostoso ver, mais uma vez, o sorriso de satisfação que ela mostrava ao lembrar-se de todos. Uma coisa me espantava, lembrava direitinho o nome de sua mãe.

Pensava muito em sua casa, preocupava-se com ela, se estava sendo cuidada. Queria voltar, me dizia, pois precisava cuidar de muitas coisas. Fazer a janta, lavar a louça, tirar o pó. Eu dizia-lhe que ainda não era hora, que devia esperar um pouco mais, e que eu cuidaria da casa para ela. Então, pedia que eu lhe prometesse isso. E eu prometi, sim, o que de fato procuro fazer.

As companheiras que com ela estavam no lar, se alegravam também com minha presença, como se a visita fosse delas, o que não deixava de ser verdade. Pois a cada uma, eu oferecia uma palavra e um gesto de carinho.

Digo que ela marcou minha vida não apenas por sua história de vida, mas porque me fez feliz, demonstrando isso sempre que me via. Fez com que me sentisse útil e importante para alguém, e que posso, ainda, fazer o mesmo por muitas outras pessoas. Não precisam ser velhos, nem conhecidos, não precisam ter consanguinidade. Serão sempre novos amigos, novos elos nessa corrente que chamamos existência, formando uma família que se multiplicará pelo tempo em que puder doar um pouco de mim, até o momento em que eu mesmo necessite desta doação.

E não me esqueço do que ela respondeu, quando lhe perguntei se gostava de mim.
-EU TE AMO! Foi esta a resposta dela.

A mim, só resta agradecer a Deus a benção de tê-la conhecido.

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Escrito por Renato Santos