O Teixeira era um cara até legal. Cabeça redonda, careca, franco e grosso como ele só. Devido a estes requisitos peculiares da sua personalidade, não gozava da simpatia de diversos colegas. Era chefe, dentre outros funcionários, da Isa, magricela, miudinha e com a barriga roliça no aguardo do seu primeiro filho, fruto compartilhado com o Toninho, seu marido. Por sua vez o Toninho era um tipo pardacento, miúdo e feioso como a Isa, sua mulher, porém compensava-lhe a sua simpatia. O namoro deles e o próprio casamento foram uma estória, quase tragédia. Pois a mãe, viúva, lusitana, não aceitava nunca a ideia do casório porque as duas, mãe e filha moravam sós, numa velha casa de vila perto do cemitério do Catumbi e necessitava do dinheiro da filha para dividir as despesas com o aluguel da casa.

Bem, vamos ao assunto principal:
Trabalhávamos num salão, sem divisórias, onde funcionavam várias seções, com muitos funcionários, em um prédio que a antiga CTB alugara alguns andares, na avenida Nilo Peçanha, bem no centro da cidade. Todos tratavam dos seus afazeres embora alguns cochilassem numa típica tarde carioca de muito calor, beirando ali pelos 37°C. Após atender a um telefonema o Teixeira, de pé, da sua mesa luzindo a sua rotunda calvície, berrou, como era de seu costume: “Isa, o Toninho morreu!” Todos nós nos voltamos assustados, quando ouviu-se um “Ah!...” e a Isa desmaiou. Foi aquele deus-nos-acuda. Do silêncio, até então reinante, onde apenas se ouvia o ruído do girar dos ventiladores e o tec-tec das máquinas de escrever. Tudo se tornou o maior reboliço. O que haveríamos de fazer? Atender a Isa já bem barrigudinha ou nos certificar do passamento do simpático Toninho? O Teixeira, vermelho que nem pimentão, parecia aturdido com a zorra que ele causara. Por fim, uns foram socorrer a Isa levando-a para o serviço médico e outros procuraram por todos os meios comunicar-se com a polícia e com a Light, onde o Toninho trabalhava como motorista, para confirmar ou não o fato. Depois de muita busca, fomos informados que realmente morrera um Toninho, também motorista da Light, porém não o da Isa.

O Teixeira, de careca rotunda, franco e grosso, protagonista da terrível gafe, veio a morrer poucos anos depois, ainda bem moço. A Isa vive muito bem com a sua filha e mãe. Já não tão magricela, todos a veem passar tranquilamente pelas ruas do Catumbi, muito feliz, ao lado do seu “finado” Toninho, agora, parece até que menos feio, talvez pela reencarnação.

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Escrito por Luiz Carlos Oliveira Cerqueira