Enfim o dia tão esperado. Era véspera, mas sempre foi nesse dia que a gente ficava todo eufórico. A igreja estava festiva, toda enfeitada e iluminada e com um lindo presépio montado por alguns fiéis, que chamava a atenção por sua originalidade. Na aula de catecismo, o Zequinha nos entregou o cartãozinho de freqüência habitual com um carimbinho que mostrava os três Reis Magos e uma fulgurante estrela no céu do deserto. É difícil de explicar, mas eu estava tomado por uma sensação de indescritível felicidade, e com certeza, só podia ser o espírito do Natal. Minha alegria era incontida e quem me conhecesse e olhasse, podia notar que eu não era o mesmo do dia anterior, ainda que eu tenha sido sempre um garoto alegre e brincalhão. Uma brisa fresca impregnava o ar com o gostoso aroma da flor de maracujá trazido da cerca dos fundos do quintal do Adolfo, que era toda tomada por trepadeiras do fruto. E tudo era mágico. Até o canto dos pássaros era mais alegre e eles alçavam vôo com sutilidade e delicadeza e pareciam fazer acrobacias no espaço azul do céu. Quem sabe o procedimento deles era normal e eram os meus olhos e o meu estado de espírito que tornavam a natureza tão especial nesse dia. Não que ela fosse menos bela nos dias normais, mas, acho que até a natureza fazia festa para a chegada do dia do aniversário do seu criador e por essa razão se vestia com maior esplendor. Eu também estava assim. Meu comportamento havia sofrido uma metamorfose que eu só podia definir como: alegria. Na igreja o assunto era o “Aniversário do Nascimento de Jesus Cristo” e apesar disso eu procurava no céu, ainda azul, algum vestígio de Papai Noel. Pelas folhinhas de calendário que o papai ganhava nos Postos de Gasolina e afixava nas paredes da sala e cozinha, eu sabia que o Papai Noel era gordinho com longa barba branca, se vestia de vermelho, conduzia pelo espaço uma “carrocinha” puxada por quatro ou cinco “veadinhos” e carregava nas costas o saco cheio de brinquedos que ia distribuir às crianças na noite de Natal. Mas, para fazer jus aos brinquedos, tínhamos que encher os nossos sapatos de capim e deixar debaixo das nossas camas onde o bom velhinho vinha pegar a alimentação dos seus veadinhos e deixava o presente, que não raras vezes, era bem diferente do que esperávamos. E o dia foi ficando opaco e o ar estava mais perfumado que antes. Parece que todas as flores do jardim haviam se unido as flores do maracujá para esparramar seus olores pelo céu e preparar um ambiente festivo e cheiroso para reverenciar a chegada do aniversário do Salvador. As folhas dos pés de eucaliptos e das bananeiras do fundo do quintal se agitavam suavemente e emprestavam mais magia à chegada da tão esperada noite de Natal. Nossos passarinhos também se agitavam e pipilavam em suas gaiolas numa demonstração de alegria (e olha que estavam presos).

E a noite foi chegando de mansinho cobrindo o dia com seu manto negro, que só não era tão atro assim porque a Lua e o firmamento cravejado de estrelas a tornavam o ambiente preferido dos trovadores, cujas violas plangentes misturadas às vozes às vezes lânguidas se espalhavam pelo silêncio que nos envolvia. As lâmpadas amarelas dos postes de madeira começaram a se acender e a rua se mostrou mais radiante. Do fundo do meu quintal eu podia ver o “adro” da igreja totalmente iluminado. O cruzeiro estava todo enfeitado com lâmpadas multicores e alguns fiéis chegavam mais cedo e ficavam, uns batendo papo sentados na escadaria, outros no interior da igreja rezando enquanto esperavam a missa do galo que tradicionalmente começava à meia noite. Tudo me encantava. Era uma daquelas noites feitas pra nunca mais serem esquecidas. Eu havia pedido um brinquedo especial pro Papai Noel e nem tinha certeza que ele ia me trazer, mas só de ficar na expectativa já me deixava em êxtase. Naquele tempo a gente dormia mais cedo porque não tinha em casa nenhuma distração noturna, e apenas as brincadeiras da rua, debaixo do poste da esquina, abaixo da nossa casa, eram a nossa fuga, mas a mamãe não permitia que fôssemos muito longe e logo tínhamos que voltar pra casa. Na verdade, nessa noite elas não me interessavam. Eu só queria apanhar o capim, encher o sapato, colocar debaixo da cama e me deitar em seguida. Ficávamos, eu e o Messias conversando entusiasmados, falando sobre o presente que íamos receber e a mamãe de quando em vez chegava e dizia: - Psiu!!! - Se vocês não dormirem logo, o Papai Noel não entra no quarto e vai embora sem deixar presente algum. Durmam logo!!!

De repente o sono nos pegou e pronto, acabou o papo. Acordei meio rápido no meio da noite mas não avisei o Messias. Olhei depressa em baixo da cama, apalpei tateando o chão e...nada!!! O sapato ainda estava cheio de capim e eu podia ouvir os hinos e o vozerio que vinham da igreja, dada as proximidades com a nossa casa. A missa ainda não havia acabado e o pessoal rezava e cantava e o som parecia que vinha do céu. Eu precisava dormir e não tinha sono e mamãe havia dito que se eu não dormisse, adeus Papai Noel. Virei pro lado de dentro da cama e o Messias dormia a sono solto. A mamãe apagava todas as lâmpadas quando íamos dormir e a escuridão era total, de modo que ninguém podia ver um palmo adiante do nariz e as poucas luzes que entravam em casa pelas frestas da parede e do telhado, vinham do poste que ficava bem próximo a nossa casa. Um desejo insano de ver logo o presente não me permitia dormir e eu me virava de um lado pro outro na esperança de pegar no sono pra não assustar o Papai Noel. De repente, galos cantando, o dia estava amanhecendo. Levantei da cama de um pulo e olhei pra debaixo da cama. O sapato estava vazio e havia duas caixas grandes uma do lado de cada sapato. Havia muito capim espalhado pelo quarto. Messias!!! berrei. - O Papai Noel veio. Trouxe-me um revolver. E pra você também, acorda! Toda a casa acordou. As meninas apareceram correndo, cada uma com uma boneca na mão. O Messias acordou esfregando os olhos e depois soltou o grito: Papai Noel veio! – Seu bobo! falei com orgulho. - Eu até passei as mãos na barba dele!!!

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História escrita por Adelaide Aparecida Guardachoni de Queiroz