No dia 13 de março de 2003, eu estava curtindo uma leitura na rede da varanda da minha casa, quando recebi um telefonema do Antunes (colega da Ex-TELERJ e também aposentado), me convidando para um serviço de auditoria, a ser realizada pela HLB-Audilink, empresa de consultoria radicada em Porto Alegre, credenciada junto a Agencia Nacional de Telecomunicações – ANATEL, para realizar uma fiscalização no estado do Amazonas. Feito o convite aceitei.

Na manhã seguinte uma funcionária da Audilink me ligou informando, o dia, a hora do embarque e o hotel reservado para nós em Manaus. Com a viagem confirmada, procurei um posto de saúde e tomei vacina contra febre amarela, um pouco atrasado, pois o efeito da mesma é para dez dias após a aplicação.

Dia 17 às 16h, embarquei num táxi e rumei para o Aeroporto Antônio Carlos Jobim (Galeão). Embarcamos pelo terminal dois e o voo saiu às 17h15m, a empresa foi a TAM e o avião um Airbus 320.

Antunes sentou em uma poltrona a minha frente, o nosso voo fez uma conexão em SP e depois uma escala em Brasília, durante o voo foi exibido o filme "O amor é cego”, pena que eu tinha visto uma semana atrás no Shopping New York City na Barra da Tijuca. Então resolvi prosseguir na leitura do livro "Cavalo de Tróia” que tinha iniciado dois dias antes da viagem. Já era dia 18, e aproximadamente às 00h45m o nosso avião pousou no Aeroporto Eduardo Gomes em Manaus, a viagem foi tranquila. Na hora de pegar as bagagens a surpresa: a minha mala tinha sido violada e danificada. Procurei imediatamente o funcionário da TAM responsável pelas bagagens. Depois de atendido e verificado que aparentemente nada havia sumido, resolvemos pegar um táxi e rumar para o hotel Mônaco, onde um apartamento nos estava reservado. Durante o percurso reparei que Manaus estava bem modificada, já era uma cidade bem maior do que anos atrás, notei que suas ruas eram largas, e apesar da hora, a temperatura ainda era quente. Por fim chegamos ao hotel, um edifício alto e de esquina, com vista para o centro de Manaus e o Rio Negro, com quinze andares e decorado com pinturas e quadros nas paredes, onde se destacavam grandes araras, embarcações, índios, a floresta e animais, tudo retratando a Amazônia.

Logo na recepção fomos atendidos por moças que tinham em suas cabeças cocares azuis, estavam bonitas. Eu e o Antunes nos hospedamos no apartamento 509. O hotel exalava tropicalismo com suas cores e motivos. Nosso apartamento estava equipado com ar condicionado, telefone, TV em cores e frigobar. Da janela envidraçada podíamos ver o Rio Negro e a cúpula do Teatro Amazonas. O ponto fraco na hospedagem era a fraca iluminação e a pequena dimensão do banheiro.

Como toda primeira noite longe de casa o sono não foi tranquilo e acordei várias vezes.

Ao amanhecer depois de tomar um delicioso banho e barbear-me, dirigi-me ao último andar, onde ficava o restaurante.

Ao sair do elevador deparei-me com uma piscina ao lado do restaurante. A vista dali de cima estava deslumbrante, a cidade estava acordando, os carros e ônibus já começavam a engrossar o trânsito. O Rio Negro com suas águas escuras apresentava um tom metálico com os primeiros raios do sol formando um quadro muito bonito.

A mesa do café da manhã foi farta, sucos de maracujá e cupuaçu, café, leite, macaxeira, banana frita, banana cozida, biscoitos variados, queijos, bolos, pamonha, beiju de tapioca, salgadinhos, cremes, pães, frutas e etc. Naquele momento comecei a notar a presença de turistas estrangeiros, o que seria uma constante em todos os lugares das cidades em que fui à Amazônia.

Após o café passamos rapidamente no apartamento pegamos nossas pastas, descemos e pegamos um taxi com destino a ANATEL. O nosso hotel ficava no centro e a ANATEL no bairro da Cachoeirinha. Chegando ao nosso destino, notei que o prédio da ANATEL era de dez andares e três blocos com antenas no seu telhado e com arquitetura idêntica aos prédios da antiga TELEBRAS de Brasília e Recife: em concreto e tijolos vermelhos. Na sua garagem, doze carros estacionados, sendo: uma Van, uma camionete S-10 e dez carros de passeio Escort Palio weekend.

Procuramos o gerente daquela unidade, nos apresentamos e em seguida fomos conduzidos à sala onde se encontrava todo o pessoal responsável pelo serviço a ser executado na área da TELEMAZON. Antunes me apresentou aos colegas da Audilink que também participariam do trabalho. Paulo Alfeu, branco, 1.75 m, aparentando uns 44 anos, mineiro radicado no Acre; Maria das Graças, morena clara, 1,60m, 46 anos mais ou menos, também do Acre e Benedito, moreno, o baixinho do grupo e das Minas Gerais, muito conversador e simpático.

Passamos o dia todo revendo a metodologia e nivelando conhecimentos. Almoçamos no restaurante self-service do Macro.

Paulo Alfeu e Benedito estão hospedados no mesmo hotel, a Maria das Graças estava na casa de sua filha que estuda e mora em Manaus. Nota-se no seu olhar e na sua conversa a alegria de estar junto a sua filha.

Dia 19, a rotina é quase a mesma, a novidade é a formação das equipes: uma para Manaus e cinco para o interior. Antunes como coordenador fica em Manaus, eu fico preocupado com o término dos serviços, pois tenho que estar presente no Rio de Janeiro no dia quatro de abril, para depor na Justiça Federal numa ação que tenho contra a Caixa Econômica Federal.

Por fim, fico num grupo que está programado para encerrar os trabalhos dia trinta de março, o nosso itinerário abrange as cidades de Tefé, Guadajás, Coari, Avarães, Carauari e os povoados de Bom Fim, Santo Isidoro, Vila Nogueira, Canária, Laranjal, Lauro Sodré e Murituba, nossa viagem será somente fluvial e aérea.

Conversando com o pessoal da ANATEL moradores de Manaus, fico sabendo de alguns cuidados que terei como o uso de protetor solar, repelente para insetos, camisa de manga comprida e rede para dormir nas embarcações. Almoçamos num restaurante de rodízio de peixes e nos deliciamos com uma caldeirada de Tambaqui, postas de Surubim, Sardinha de água doce, Dourado e por fim o delicioso Pirarucu. O almoço desse dia foi um dos melhores da nossa viagem.

Na saída da ANATEL eu e o Antunes pegamos um taxi e fomos ao centro, comprei uma nova mala, um chapéu para sol e filme para a máquina fotográfica. Procurei por uma camisa de malha e manga comprida, mas não encontrei. À noite tomei uma sopa de legumes com carne no restaurante do hotel.

Dia 20, quarta-feira, voltamos à sala de trabalhos para os ajustes finais. A ANATEL tem como coordenadores locais Delmiro e Luís, o coordenador geral é o Ricardo Felinto. A minha equipe é formada pelo Alex goiano, mineiro da cidade de Alfenas, radicado em Goiânia e Mardoch de Manaus. Já está definido que a AUDILINK ficará só com as despesas de hotel e refeição dos seus integrantes, o transporte será patrocinado pela ANATEL. Nesse dia almoçamos numa churrascaria e provei a carne de sol na tábua acompanhada de um guaraná da Amazônia chamado “Tuchaua”. À noite jantamos num restaurante que o Paulo Alfeu nos indicou, bem familiar e comida muito gostosa.

Durante o dia em Cachoeirinha, procurei pela pilha da minha máquina fotográfica, mas não encontrei, estive em um supermercado e comparei os preços, um pouco maior que o Rio de Janeiro, o ponto fraco são as frutas e verduras.

À noite acabei perdendo o jornal nacional, que começou às 7h45m devido à diferença do fuso horário.

Desde que cheguei a Manaus ainda não comi sequer uma banana prata, tampouco queijo minas e maçã.

Após o café pegamos um taxi rumo ao prédio da ANATEL, como sempre Benedito senta-se no banco do meio e Antunes no banco da frente.

Na parte da manhã acertamos os últimos detalhes, o voo está marcado para as 14h com destino a cidade de Tefé, um Escort nos leva ao aeroporto, ainda estou tentando comprar pilhas e não consigo, o aeroporto está lotado, dá para perceber que oitenta por cento dos passageiros não falam a nossa língua, o nosso voo tem como destino final à cidade de Tabatinga, cidade limítrofe com a cidade de Letícia na Colômbia, conhecida pelo contrabando de pó, talvez seja por isso o interesse dos estrangeiros.

O avião é um Boeing 737 da Varig. Logo após a decolagem, começo a vislumbrar a quantidade de água ao redor de Manaus, as águas do Rio Negro são um show à parte, a vegetação é deslumbrante e só agora eu podia imaginar o que iria ver dali em diante. Depois nosso avião pousou na cidade de Tefé, antes do pouso pude observar que a cidade ficava num imenso lago de águas escuras ao lado do Rio Solimões, o pessoal chama de lago, mas na verdade é como se fosse uma baía do rio, não sei se existe nome próprio para isso, as suas águas são serenas parecendo uma piscina.

O aeroporto é pequeno, simples e bem cuidado, aproveito e tiro uma foto, noto que um grupo de militares do 16º Batalhão de Infantaria de Selva dá boas vindas a um militar e sua família que ali estava chegando, neste momento, lembrei-me de meu filho Luciano que estava em Boa Vista no estado de Roraima numa operação da Brigada Paraquedista.

Embarcamos num taxi e no trajeto começo a lembrar de todos que deixei no Rio de Janeiro, Ilza a minha esposa, minha mãe, minha netinha Laís e meu filho Leandro. Observo as casas, a maioria é de madeira e são dos moradores da periferia, na estrada vejo também uma usina termoelétrica e também o quartel do 16º Batalhão de Infantaria de Selva.

O número de motos-taxis é impressionante, o Mardoch conhece a cidade e nos leva para um hotel em frente ao lago, o ambiente parece pesado, pescadores, trabalhadores do porto, mulheres e homens jogando sinuca, baralho etc..., parece até uma cena de um filme que eu já tinha visto. Os olhares se concentram em nós, pois chegamos de táxi e o motorista deixou as nossas malas à vista. Entramos no hotel e um rapaz começa a nos mostrar os apartamentos, são equipados, mas em péssimo estado de conservação. Desistimos e fomos procurar outro hotel, encontramos um todo avarandado, o dono nos atende numa espécie de balcão de bar e diz que aquele é o único com energia elétrica durante toda à noite, pois a cidade está racionando energia, não pensamos duas vezes. O hotel estava lotado e só havia vagas na parte velha, os apartamentos têm muitas camas e são apertados, o banheiro é horrível e escuro, o aparelho de ar condicionado ficava quase rente ao chão e na primeira noite eu inverti a cama para o ar não ficar em cima do meu rosto, acordei várias vezes com as pernas geladas.

De manhã tomamos café no restaurante do hotel, fiquei brincando na portaria com um pássaro de gaiola chamado “japim”, ele é parecido com o melro, porém é preto, tem as asas amarelas e os olhos azuis, em seguida fomos para a central da TELEMAR nos encontrar com os técnicos que nos irão acompanhar: Ciro José, Viana e Itaceni.

Resolvemos começar pela localidade de Bonfim que fica às margens do Rio Solimões e afastado de Tefé. Mardoch alugou uma lancha voadeira de 40 HP de nome "Natureza" que ostenta em seu mastro as bandeiras do estado do Amazonas e do Brasil, é de alumínio e tem uma pequena cobertura de tecido. Sento-me do lado do comandante Cristóvão que é o piloto, um amazonense típico, caboclo de estatura baixa e pele bem queimada, com aproximadamente 55 anos e experiente na profissão de barqueiro. Depois de certificar que existe colete salva-vidas para todos, respiro mais aliviado, pois o rio está na época da cheia e não é bom facilitar.

A viagem é de aproximadamente 2 horas, no caminho, grandes toras de madeiras, árvores e arbustos passam ao lado da embarcação obrigando o Comandante Cristóvão a fazer grandes manobras, as margens do rio se desmoronam em grandes pedaços de terra levando árvores inteiras.

Bonfim é uma localidade pequena, os seus habitantes são caboclos e índios, o seu acesso é feito somente pela margem do rio por um caminho bem íngreme, lá existe somente um TUP-SAT (Telefone Público via Satélite) e que na hora da nossa chegada não estava funcionando. Os técnicos da TELEMAR resolveram o problema rapidamente, o TUP-SAT é alimentado de energia através de placa solar e tem uma ventoinha para refrigeração que estava parada. A ventoinha não estava funcionando porque um pequeno sapo estava agarrado na mesma, retirado o sapo, tudo voltou ao normal.

Com a nossa chegada os habitantes nos rodearam ávidos por notícias, as crianças nos pediam para tirar fotos, as mulheres na maioria tinham os dentes cariados e os homens estavam de papo para o ar deitados em suas redes, com ar de preguiça, talvez pela temperatura alta e úmida daquela região. Após alguns minutos, notamos que um pequeno mosquito bem pretinho chamado "Pium" começou a nos picar, eu tinha colocado repelente e mesmo assim levei algumas picadas, o mais prejudicado foi o Alex que levou dezenas de ferradas em todo o corpo, o Viana levou duas picadas no pescoço que incharam bastante.

O Comandante Cristóvão aproveitou a oportunidade e comprou um peixe de nome “Pirapitinga" do chefe da comunidade, um peixe muito bonito de aproximadamente uns seis kg. Em seguida embarcamos na voadeira e rumamos para Santo lsidoro. O povoado é um pouco maior que Bonfim e também só possui um TUP-SAT que está instalado em frente a uma casa de madeira. Observo que as casas só possuem em seu interior redes para dormir, são desprovidas de qualquer móvel ou ornamentação. Logo se forma um grupo de curiosos e ficam espantados quando operamos o GPS (Global Position System) e, falando no Globo Star (telefone que funciona via satélite), um dos seus habitantes veste uma camisa do Vasco, converso com alguns deles e a maioria torce pelo Vasco seguido do Flamengo, nenhum deles torce pelo meu querido Fluminense.

Voltamos a Tefé, almoçamos e nos dirigimos ao porto para embarcar para a localidade de Nogueira, o tempo rapidamente começou a mudar, a chuva caiu rapidamente e as ondas (banzeiro) apareceram no lago de Tefé. O Comandante Cristóvão, com toda sua experiência, nos comunicou que o deslocamento até Nogueira estava impraticável e remarcamos para o dia seguinte. Resolvemos então comprar Capas de chuva, a minha é amarela e a do Alex é verde, verdadeiros patriotas trabalhando pelo bem da nação. Em seguida de baixo de muita chuva começamos a testar os TP’S de Tefé.

Na manhã seguinte, logo após o café, fomos a Secretaria de Saúde, por sorte o assessor do prefeito o Sr. Raimundo Nonato estava no local e nos deu as informações que necessitávamos, em seguida embarcamos na voadeira para o Município de Alvarães. A viagem foi a mais cheia de riscos, a embarcação estava pesada, além do pessoal, havia caixas de reposição de peças da TELEMAR. Rumávamos contra a correnteza do rio em zig-zag através da vegetação que boiava.

Nas margens, árvores caíam no rio e grandes troncos passavam ao nosso redor, a voadeira de vez em quando pegava um "banzeiro” e dava grandes saltos, a minha mão segurava com toda força a estrutura da embarcação e todos se mantinham em silêncio, pequenas embarcações com nativos da região passavam a todo instante por nós, em seu interior, bananas, madeira e mantimentos, nas árvores, bandos de socó (pássaro branco) e enormes Castanheiras, Seringueiras e Samambaias enfeitavam a paisagem.

Após os momentos mais difíceis voltamos a conversar bem alto porque o barulho do motor atrapalhava a conversação. Na chegada a Alvarães, vimos logo na entrada um posto de combustível flutuante, assim como as casas eles utilizam uma árvore chamada "assacu” que é como um isopor e flutua bem.

No pequeno porto a garotada se exibia em saltos na água do lago, o calor neste momento era sufocante, sentia a camisa toda molhada e o suor escorrendo por todo o meu corpo.

Chegando fomos direto a Prefeitura, o prédio é feio e precisa urgentemente de uma pintura. O assessor do prefeito nos atende, é um jovem com características indígenas de aproximadamente 23 anos. A sua sala é bem montada, com computador e ar condicionado. Ele nos dá às informações necessárias, fazemos os testes e por volta 12h30, vamos almoçar. O local é um mercado e o prato feito é à base do peixe tambaqui. Após o almoço e sem descanso, embarcamos na voadeira e fomos para os povoados de Vila Nogueira e Laranjal. Sempre que chegamos há uma verdadeira recepção, com os moradores se aglomerando a nossa volta, e sempre tem alguém com a camisa do Vasco ou do Flamengo.

Á tarde Mardoch liga para a ANATEL para saber sobre a nossa próxima etapa, que será de avião fretado, a princípio seria um Minuano monomotor de seis lugares, mas devido às condições de segurança é feita uma troca para um avião bimotor de sete lugares. O piloto já está em Tefé, à noitinha vou com o Mardoch para conhecê-lo, é um amazonense chamado Safem, ele se diz um caboclo, mas a pinta é de gaúcho. Tem 45 anos e 1,80m de altura, o avião é um Sêneca 11 de fabricação da EMBRAER de seis lugares contando com o piloto, ele tenta nos enrolar dizendo que é de sete passageiros, pois num espaço entre dois lugares ele colocou uma almofada.

No hotel conseguimos uma troca de apartamento para a parte mais nova. Alex consegue até chuveiro elétrico, pois como todo bom mineiro ele é friento. Não consigo entender, pois o calor ainda é grande, aproveitamos e vamos levá-lo a um hospital, pois ele não está se sentindo muito bem devido às picadas dos insetos. É medicado e parece que também foi picado pelo "Mucuim" (mosquito que pica as partes com cabelo, principalmente embaixo dos braços e parte genital).

Durante a noite tento matar dois enormes grilos que não sei por onde entraram no quarto. Não consegui e lá pelas 4 horas da manhã fui acordado pelo seu canto estridente. O corredor do hotel estava coberto por grilos menores.

Afinal o dia amanheceu e fomos para o aeroporto. O piloto todo receoso, pois naquela área é comum o roubo de aviões pelos colombianos. Enfim o avião levanta voo para Carauari. Fui de copiloto e levei um papo com o Comte., ele é muito experiente, disse que voou muito na época da extração de ouro na Serra Pelada onde contraiu inúmeras malárias, participou também de um documentário da National Geographic sobre pilotos da selva. A viagem é tranquila, embaixo de nós o tapete verde de floresta nos persegue 60 minutos de voo, 12.000 pés e velocidade de 300 km/h e de repente aparece o rio Juruá a nossa frente. Seu traçado sinuoso é um espetáculo à parte, em suas águas toneladas de toras de madeiras, que segundo o Salem são extraídas ilegalmente e descem rio abaixo. Naquele momento a quantidade de água que vejo é surpreendente e indescritível. Vivemos sem dúvida no planeta água.

Antes do pouso fazemos um sobrevoo sobre a cidade. O aeroporto é pequeno, somente um salão e está em obras. O nosso avião é o único no pátio de estacionamento. Desembarcamos e fomos direto para a central telefônica e começamos os testes. Por volta de meio dia começa a chover forte, quando saio da central, vejo o Comte. Salem sentado em um banco na varanda de uma casa restaurante. Jogava conversa fora com um casal, aproximei-me e fiquei sabendo que o casal estava há pouco tempo na cidade. Ele era um Tenente do Exército transferido de três Corações-MG, a sua esposa reclamava muito devido ao calor daquela região. Ao nosso redor um Mutum (ave parecida com uma galinha) passeava com a maior desenvoltura chegando a subir no meu ombro, ela atendia também pelo chamado do dono.

Salem me confidenciou que o Tenente e sua esposa, por serem de cor escura, eram a novidade da cidade, no interior do Amazonas quase não tem negros.

Durante todo o nosso trajeto pela cidade um garoto nos acompanhou. Ele tem o cabelo todo pintado de louro diz que é do carnaval, tem nove anos e pensa que o repelente é para pintar o cabelo. Diz que está na escola, mas lê com dificuldade. A maleta do Mardoch passa para as suas mãos durante a nossa estada naquela cidade e na despedida ele é agraciado com alguns trocados. No aeroporto além do menino, duas mocinhas ávidas para arranjar algum namorado também estão presentes. São bonitinhas e riem à toa.

O avião levanta voo, passo para parte de trás do avião, pois pretendo tirar algumas fotos, então Mardoch vai de copiloto.

Nessa viagem aconteceu um imprevisto: o Comandante Salem voava baixo para que eu pudesse tirar algumas fotos e no momento em que ele faz uma curva, a porta do avião se abriu exatamente no local em que eu estava encostado tirando as fotos. De repente a floresta apareceu bem próxima a nossos olhos, um frio percorreu a minha espinha. O Ciro José arregalou os olhos de pavor. Ainda bem que estava com o cinto de segurança atado. Puxei a porta e consegui trancá-la, foi só um susto.

Como nossa autonomia de voo não dava para ir direto a Coari, fizemos um pouso em Tefé para abastecer.

Levantamos voo e o espetáculo da natureza começou novamente a aparecer aos meus olhos. É difícil descrever o que é a Amazônia, tamanha é a sua floresta e sua biodiversidade. Nesse trajeto desviamos de algumas nuvens Cúmulos Nimbus.

Durante o sobrevoo em Coari notei que o aeroporto é longe da cidade. Alguns quilômetros antes, vimos o terminal marítimo de Urucu pertencente a PETROBRAS.

A catedral da cidade se destaca no cenário, o aeroporto é pequeno mais bem cuidado. Na rua em frente os habitantes desfilam em suas motos. Tomamos um táxi e no caminho já começo a notar que a cidade tem um aspecto bem melhor que as outras até agora visitadas. O hotel escolhido é o Urucu, fica próximo ao porto, em frente a uma praça e é confortável.

São 18h estamos cansados e famintos, jantamos num restaurante ao lado do hotel, era domingo e resolvemos ver TV.

Às 4h da manhã acordei suando, o ar condicionado estava parado devido à falta de energia elétrica. Fiquei acordado até a hora do café. De manhã constatei que o Mardoch estava passando mal com problemas de fígado, dor na barriga e diarreia. Fui à farmácia e comprei alguns medicamentos para ele.

Eu e o Alex resolvemos fazer o serviço sozinhos, pois o Mardoch ficou de cama no hotel se recuperando. Conseguimos terminar o serviço em Coari às 12h e nos reunimos para reprogramar à próxima etapa.

Como na cidade de Codajás não tem aeroporto, tivemos de ir de voadeira (três horas de viagem) e depois mais 1h40m até a cidade de Anori que possui uma pequena pista de pouso. O piloto diz que existe certa dificuldade para pouso e decolagem nesta pista. Por questão de segurança (excesso de peso) viajarão somente seis pessoas, mais os equipamentos na voadeira e dividimos a equipe do seguinte modo: o pessoal da TELEMAR, eu e o Alex iríamos de voadeira, Bardoch iria de avião até Anori onde se encontraria com a gente e dali para Manaus faríamos duas viagens. Tudo resolvido, marcamos a saída para ás 14h30m.

Às 14h Bardoch estava se sentindo melhor e resolveu que embarcaria para Carajás. Tentamos convencê-lo a ir de avião, mas acho que ele estava receoso do pouso em Anori. Como ninguém se prontificou a ir de avião, eu me coloquei a disposição.

O porto de Coari é bem movimentado, inúmeras embarcações ficam ali ancoradas. A todos os momentos trabalhadores do terminal petrolífero de Urucu, com o seu macacão bege embarcavam e desembarcavam. Chegamos a pensar em viajar num daqueles enormes barcos para Manaus, mas o tempo de viagem era longo e nos atrasariam muito.

Às 14h30m a voadeira alugada zarpou do porto de Coari. Nesse momento senti certo vazio, pois o grupo estava dividido e eu não poderia conhecer a cidade de Codajás.

À tardinha sentei-me em uma cadeira em frente ao hotel e estava conversando com o recepcionista do hotel que carinhosamente o Comandante Salem tinha apelidado de "bitoca” tamanha era aparência dele com o humorista da TV Globo. De repente, o Salem pilotando uma moto Honda - 125 alugada, parou a minha frente e me convidou para dar umas voltas. Sentado na garupa, Salem me mostrou a cidade que ele já conhecia de outras passagens por ali. Fomos até um trecho e a rua estava interditada pelas águas da cheia do rio. Eles utilizavam a madeira da árvore chamada "assacu" como ponte para atravessar para o outro lado. Quando estávamos olhando a travessia do pessoal, parou uma caminhonete ao nosso lado da Fundação Nacional de Saúde. Agentes sanitários portando lançadores de inseticida desembarcaram rapidamente do veículo, nos informaram que estava havendo uma infestação de malária naquela área e aquele horário era o preferido pelos mosquitos.

A malária é uma moléstia causada por protozoários do gênero Plasmodium e transmitida pelo mosquito do gênero Anopheles, muito comum nas regiões tropicais, é também conhecida por Paludismo. Os sintomas são febre alta e calafrio, às vezes leva a complicações fatais se não for tratada.

Saímos daquele local e rapidamente paramos numa lanchonete. O dono era um pernambucano muito falante, sua filha, uma linda morena não tirava os olhos de cima da gente. O outro lado da rua era bem movimentado. Perguntamos por que tanta gente e o pernambucano disse que ali perto tinha uma zona de prostituição. Estava explicado. Assim que saímos uma moto com três beldades sorriram para nós, logo a frente veio o recado através de um boiola da região nos convidando para um forró que se realizaria naquela noite. O melhor programa mesmo foi jantar e ver TV.

Na manhã seguinte da varanda do hotel vejo uma cena estranha para os meus olhos: um porco, dois cachorros, algumas galinhas e uma dezena de urubus disputam uma lata de lixo.

Uma coisa que reparei em quase todas as cidades, foi à quantidade quase domesticada dos urubus, eles circulam normalmente, como se fossem galinhas. É normal também haver cachorros em quase em todas as casas, nas refeições não falta o suco de cajá.

Outro fato interessante é a ausência dos Prefeitos que sempre estão fora da cidade ou moram em Manaus.

Ficamos aguardando notícias do pessoal, pois teríamos que ir para Anori. Por volta das 11h ligaram nos dizendo que voltariam para Coari, pois obtiveram informações que o aeroporto de Anori estava interditado por causas das chuvas. À tarde eles chegaram e deu tudo certo.

O dia seguinte já é 27 de Março e voltaremos para Manaus.

A viagem de volta para Manaus é uma maravilha, o céu é de Brigadeiro, na posição de co-piloto começo a vislumbrar a beleza que é a chegada a Manaus de avião. Antes a vista do Lago de Manacuru, depois o Rio Negro e ao fundo o arquipélago de Anavilhanas, o maior de água doce do mundo. O piloto desce um pouco e nos mostra o Ariaú Amazon Towers, um hotel suspenso no meio da floresta e na margem do Rio Negro.

Por fim pousamos em Manaus. O terminal é exclusivo para aviões de carga e de pequeno porte, aguardamos no salão de espera pelas malas, o posto da Polícia Federal está abandonado. Pegamos nossas malas e nos dirigimos para a saída do aeroporto, aproveito tomo um refrigerante de guaraná e dou uma olhada nas lojas de souvenir, os preços são caros e acabo não comprando nada.

Despeço-me do pessoal da TELEMAR e rumamos cada um para o seu destino. Eu vou para o hotel e o apartamento que eu estava com Antunes está ocupado por ele e pelo Benedito, me alojo em outro por sinal mais confortável, logo depois o telefone toca, é o Paulo Alfeu que está chegando. Noto que está bem queimado do sol, ainda bem que usei protetor solar o tempo todo. Logo depois de sua chegada ele começa a contar a sua aventura na Amazônia, e tem o mesmo ponto de vista que eu.

Valeu pelas novidades e a experiência adquirida.

Após o almoço fomos para a ANATEL, lá chegando encontramos quase todos os grupos e todos trocam informações sobre as aventuras vividas, em seguida, já começamos a elaborar os relatórios.

Dia 28 quinta-feira, Paulo, Benedito e Maria José retomam os seus lares, eu e Antunes ficamos para concluir o relatório, saímos da ANATEL as 20h e o relatório não ficou pronto, faltam alguns dados que estão em poder da ANATEL.

Dia 29, sexta-feira santa. Adiantamos alguma coisa do relatório e à tarde saímos andando pelas ruas desertas de Manaus. Resolvemos conhecer o prédio do teatro Amazonas, ele é magnífico, a sua arquitetura com formas arredondadas e sua pintura de cor rosa e branca dão um ar todo especial ao teatro, aproveitamos e sacamos dinheiro no caixa 24h e compramos algumas lembranças nas poucas barracas que estão funcionando numa praça perto do porto.

Dia 30, sábado, nosso voo de regresso está marcado para ás 14 horas. Combino com Antunes para quando sairmos da ANATEL, darmos uma volta pela Zona Franca. Onze horas, afinal terminamos o relatório. Pegamos um taxi e fomos direto para o centro de compras. A minha intenção era comprar um mini gravador, mas encontrei um som da Panasonic home theater e pronto, negócio fechado.

As ruas da zona franca são infestadas de camelôs e o assédio dos mesmos para tentar nos vender perfumes, cigarros, calculadoras, etc.

Às 13h chegamos ao aeroporto, após pegarmos nossas passagens na agencia de viagens, dirigimo-nos para o embarque e encontro dificuldade para registrar o valor do meu aparelho de som, pois o funcionário da Receita Federal não está no local da fiscalização. Fico vigiando as malas e o Antunes sai à procura do mesmo. Dez minutos depois ele aparece com o documento carimbado. Embarcamos num avião AMD-ll fabricado pela Loockheed (USA), o avião é enorme, de duzentos e poucos lugares, nada menos que nove poltronas em linha. A viagem é tranquila, voamos a 40.000 pés e 980 km/h, fizemos escala em Brasília e aproximadamente às 20h30m o avião pousou no Rio de Janeiro.

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Escrito por Edson Torres