Eu trabalhava na Companhia telefônica de Minas Gerais, lá pelos idos de 1969, quando, juntamente com o Flávio Márcio Cardoso, colega de Faculdade (INATEL) e da Telebrasília, fomos incumbidos de uma missão.

A Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE fora estendida ao norte de Minas Gerais, dadas as características paupérrimas da região, à época. E fomos incumbidos de fazermos o levantamento do acervo da telefonia em Janaúba. Uma viagem tão difícil que a gozação do pessoal do escritório era que “mandariam socorro para nos resgatar”.

Mas, como ir até lá? Uma epopéia. Pegamos um trem em Belo Horizonte e fomos até Montes Claros. Como não conseguimos cabine, ficamos em cadeiras reclináveis, com um vizinho lamentável do lado. O cara tirou as botas e estendeu as pernas deixando transparecer as meias furadas. Dá para imaginar o sufoco que foi aguentar aquele odor horrível, para não dizer chulé. O Flávio, indignado, chegou a chamar o responsável pelo vagão pedindo que desse um jeito, mas, ele disse que nada podia fazer. O jeito, então, foi tentar dormir e fingir que não era com a gente.

De Montes Claros, mais quatro horas de ônibus em estrada de terra até Janaúba. Algo como a pensar: o que estou fazendo aqui?

Enfim, depois de quase dois dias de viagem chegamos ao destino. Hospedamo-nos no único “hotel” da cidade. Aí veio o inusitado: quando perguntamos onde era o banheiro, o senhor que atendia na “recepção” disse-nos que pegássemos as toalhas e o sabonete no quarto e o acompanhasse. Pasmem! De toalhas nas costas cruzamos a grande praça central, com aquele homem à frente, e, depois de passarmos por algumas ruas entramos em sua casa.

Cruzamos a sala e a cozinha sob o olhar curioso de uma senhora e duas crianças e chegamos ao que seria um barracão de madeira nos fundos da casa. Lá dentro, uma bacia sobre um piso de cimento ensebado e um suposto chuveiro acima. E assim, tomamos um banho, depois de uma viagem calorenta e poeirenta. Até que não foi tão mal assim.

Após, encontramos um “restaurante” com boa comida. Mas, fomos avisados para nos recolhermos, pois as luzes da cidade, mantidas por um gerador, seriam apagadas às nove da noite, pois o tal gerador era desligado naquele horário. Pronto, acabou-se a noite e fomos dormir.

Quando levantamos no dia seguinte, percebemos que estávamos literalmente trancados naquele “hotel”, pois, além de sermos os únicos hóspedes, aquele senhor fora para sua casa e trancara o hotel por fora. Quando ele chegou e abriu a porta, lá fomos nós tomar café em sua casa.

Eu ainda fiz mais uma viagem para Janaúba, acompanhado por um técnico da telefonia. Mas, escaldado, tratei de me programar melhor e evitar as intempéries da primeira viagem.

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Escrito por Ricardo Antonio Ferrer