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Meu saudoso avô materno, feitor aposentado de escola, da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil – (EFCB), que, ao falecer, em 1961, já contava mais de 35 anos aposentado, certa vez, no seu simplório, mas bucólico, sítio, em Sapucaia de Minas, contou-me, entre outros interessantes casos, compilados, na sua mineirice, este, deveras, inusitado…

Era uma noite de chuva torrencial. Viajava ele, a serviço da EFCB, na boleia da ditosa maria-fumaça, acompanhando os respectivos maquinista e foguista num trem-cargueiro, com destino a Manhuaçu, Minas Gerais.

Em certo percurso da viagem noturna, assolada pela ingente tormenta, os três tripulantes, com inquietação, perceberam que começava a falhar a possante lâmpada do farol da locomotiva, uma vez que, com frequência, ela se apagava, tornando a via férrea adiante, ainda mais soturna.

E assim, trilharam um bom caminho de ferro na esperança de "aportarem", extraordinariamente, na próxima estação, embora, ainda, tão distante.

Em dado momento, fez-se a escuridão total e absoluta, o que os levou a parar o trem; cabendo ao meu avô a tarefa de, sob a tormenta, esquadrinhar a lateral da máquina e, munido da mala de ferramentas, tentar fixar a lâmpada no bocal uma vez que tudo, supostamente, indicava que a mesma estava frouxa, mal enroscada.

Qual não foi o espanto do meu atônito e ensopado avô, ao perceber, galgando o nível do farol, que o motivo do previsto defeito era uma enorme mariposa, pousada, certamente, por deslumbramento do lume, no vidro para-brisa do equipamento.

Um leve cutucar, no enorme inseto, "fez-se a luz", dando ao meu, então jovem avô, um novo e muito mais que espanto, um imenso pavor: a poderosa luz do farol aponta-lhe, a alguns metros, um fatídico abismo, pois, a ponte ferroviária, à frente, que sobraçava as margens fluviais, havia sido destroçada pela violenta e noturna intempérie.

E meu saudoso avô, tornando à cabine, relatando o inusitado fato aos seus companheiros, compreendeu com todos que estavam diante de um milagre dos Céus. Não daquele tempestuoso, mas sim divino.

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Escrito por Ivo da Rocha Vieira