tomate-web

Eram precisamente oito horas de uma chuvosa manhã, quando começaram as despedidas em Volta Redonda. Naquele momento, eu e um amigo, começaríamos um dos mais emocionantes passeios de bicicleta de nossas vidas.
Todos esperam que a gente saísse pela frente da casa, mas driblamos as expectativas e “fugimos” pelos fundos. Pegamos nossas bicicletas e começamos a pedalar com as lágrimas escorrendo.

Depois de passar por Amparo e antes de chegar a São José do Turvo, a primeira manifestação de fome começou a ficar feia. De repente aparece a cerca de um casebre de pau-a-pique, e ao fundo do quintal uma horta quase toda seca. Na cerca, um único e solitário tomate verde. Após a discussão de praxe: “Mamãe dizia sempre para não tirar coisas dos outros… gente pobre e humilde precisa.” Mas nós também estávamos precisando. Decidimos, então, dividir o tomate. Quando íamos apanhar o dito cujo, eis que aparece uma velhinha, na janela do casebre, que parecia muito mal. Ela ficou quieta e triste olhando nossa colheita. Com o coração partido nós levamos o tomate para a velhinha. De perto pudemos perceber que ela não chorava pela perda do tomate, mas sim pela perda do olho. Seu olho lacrimejava por que estava furado e sem curativo.

Ela contou que há tempos foi abandonada pelo filho e teve que trabalhar duro para sobreviver. Numa das colheitas, um galho de café furou-lhe a vista. A velhinha disse que estava tão desanimada da sua vida que estava decidida a se apagar.

Como bons doutores demos uma injeção de ânimo na anciã e logo, logo deslanchamos numa animada conversa, carregada de brincadeiras e otimismo. No final a velhinha disse: “Vocês tem razão, vou recomeçar a minha vida.”

Almoçamos os três juntos, um belo tomate verde frito, regado a água e nada mais. A nossa barriga ainda carecia de alimentos, mas a nossa alma estava recarregada para continuar a viagem.
-
Escrito por Schetino Mota
Ilustração: Laerte Silvino