Ao longo da nossa existência, nos deparamos frequentemente com situações adversas, muitas vezes pouco suportáveis, mas que nos levam a um aprendizado maior, seja no campo pessoal, seja no profissional.

Uma dessas passagens me leva a contar esta história, que se deu em 1971, já em Florianópolis. Eu era recém-chegado de São Paulo, estava “uma mão na frente e outra atrás”, como se costuma dizer, e sentia necessidade premente de trabalhar. Começar tudo de novo era um dos meus grandes objetivos! Os traumas do fim de um casamento, a saudade do filho de três anos que havia ficado longe, alguns bloqueios motivados por ter de procurar o que fazer em uma cidade cujas opções eram poucas e a situação incômoda de, aos 28 anos, viver na dependência econômica dos pais, tudo isso dificultava um pouco a minha forma de proceder.

Já com algum tempo de experiência na área de materiais (compras, almoxarifado, produção industrial) e no magistério, sentia também a limitação do que fazer. De vez em quando, vendia para o comércio local peças hidráulicas (vedantes, esguichos, uniões para mangueira) e algumas peças plásticas que parentes e amigos me mandavam de São Paulo, obtendo algum lucro.

Uma vez, por sugestão de uma loja de ferragens que há muito tempo não recebia a visita de representantes de polias de alumínio para correias em “V”, resolvi fabricar alguns modelos desse item. Como a grande dificuldade era capital e matéria-prima, comecei a comprar alumínio velho (panelas, bacias) de particulares em um ferro-velho próximo de casa. Enquanto isso, desenhei um modelo e, com pedaços de madeira, fiz alguns moldes para fundição. Como a minha mãe era professora na Escola Técnica Federal de Santa Catarina e lá havia um setor de fundição, consegui, com um professor, fundir as polias, utilizando meus moldes e o alumínio velho. Posteriormente, consegui que uma oficina de torno próxima de casa fizesse os cortes e a furação nas polias, cobrando um valor bastante razoável pelo serviço. Em seguida, já em casa, com uma lima não muito adequada, dei o acabamento às peças.

Apesar da improvisação, ficaram muito boas. Vendê-las nas duas casas de ferragens que as comercializavam não foi difícil, conseguindo assim algum lucro. Cheguei até a pensar em fabricar uma linha de polias, montando uma pequena indústria de fundo de quintal. Se, por um lado, minha mãe apoiava, por outro, aos olhos do meu pai, adepto do conservadorismo e contra esse tipo de iniciativa, tachando atitudes como essa de “coisa de aventureiros” ou “picaretagem”, a ideia não evoluiu.

Foi então que a Delegacia Estadual do Ministério da Agricultura publicou nos jornais locais um Edital de Concurso, visando contratar, através do regime da CLT, pessoas para trabalhar na Campanha Contra a Febre Aftosa, em convênio com a Secretaria da Agricultura. Quando minha mãe mostrou o jornal, despertou em mim uma nova esperança – estava aí a oportunidade de recomeçar. Para esse tipo de atividade (funcionário público federal, mesmo não sendo estatutário), tinha também o respaldo do meu pai (oficial do Exército), que se prontificou a pagar a inscrição, se fosse cobrada, financiar as fotos 3x4 que porventura seriam exigidas etc.
Dirigi-me ao local das inscrições para pedir informações, embora meio inibido, mas, como diriam os famosos poetas e escritores da literatura infanto-juvenil, “com o coração saltitando de alegria e esperança”. Lá chegando, vi o edital afixado na porta e uma fila de pessoas para se inscrever. Cargos, salários e número de vagas eram os seguintes:
Cargos – salários – no de vagas
Assistente administrativo – “A” Cr$ 1.000.000,00 – 5
Auxiliar administrativo – “B” Cr$ 750.000,00 – 4
Auxiliar administrativo – “C” Cr$ 600.000,00 – 3
Auxiliar de portaria – Cr$ 450.000,00 – 1
Servente-mensageiro – Cr$ 400.000,00 – 2
Motorista – Cr$ 400.000,00 – 1

Os salários oferecidos, na época em cruzeiros, bem antes dos planos econômicos e alterações da moeda, eram atrativos para o restrito mercado de trabalho local. Um milhão de cruzeiros era bastante dinheiro, e mesmo o menor valor ofertado era de aproximadamente quatro salários mínimos. Acontece que, para os cargos de assistente (A), auxiliar (B ou C) e auxiliar de portaria, exigia-se datilografia, além das provas escritas. Para motorista, havia necessidade da “categoria” ser profissional. Acostumado com o que ouvia na infância e na adolescência sobre os famosos concursos para o Banco do Brasil, onde se exigiam 120 toques por minuto, fiquei preocupado com a prova de datilografia, embora “quebrasse um galho na máquina de escrever”, quase não errando, mas tendo pouca agilidade e alguns vícios no escrever, pois nunca havia feito nenhum curso de datilografia.

Perguntei ao senhor que estava fazendo as inscrições se aquela prova seria difícil e recebi como resposta: “Vai ser sim, de datilógrafo ruim aqui já está cheio.” Aquilo foi para mim um impacto. Embora a prova escrita, que seria composta de Português, Matemática, Geografia e História, não me intimidasse, pois eu estava atualizado – uma vez que pouco antes lecionava em cursinhos supletivos e pré-vestibulares –, a datilografia me fez balançar. Acabei, pela necessidade do emprego e para obter uma maior garantia de passar, optando pelo único cargo que não teria essa prova além do de motorista, ou seja, servente-mensageiro.

No dia das provas, dirigi-me ao local, uma escola antiga no centro da cidade denominada “Academia de Comércio”, mais conhecida com “Escola do Jacaré” (Jacaré era o apelido do diretor). Durante a prova, o examinador, uma pessoa jovem, mas com certa postura, se posicionou várias vezes do meu lado, observando o meu trabalho, principalmente a redação, cujo tema era “minha cidade natal”, chegando a comentar que minha letra era boa e bastante legível. Uma das questões de matemática havia sido elaborada de forma errada. Assim, chamei o examinador, para questionar sobre o erro. A questão acabou sendo anulada. Saí da sala consciente de que havia passado.

Uns 15 dias depois, minha mãe chegou do centro da cidade com um jornal na mão, dizendo que eu havia sido aprovado. Fiquei satisfeitíssimo! Saímos pulando e abrimos um garrafão de vinho para comemorar! Juntamente com a relação dos aprovados estavam as instruções relativas à documentação, data de entrega e demais informações necessárias à admissão, bem como a data em que os aprovados deveriam se apresentar para o trabalho (1o de dezembro de 1971), uma das datas importantes da minha vida!

Em meio às comemorações, eu e minha mãe decidimos omitir o cargo para o qual eu havia me candidatado e sido aprovado, pois provavelmente meu pai, na sua maneira de enfocar determinadas situações, não aceitaria a ideia de que o filho fosse um simples servente. O importante é que, para mim, esta seria a grande oportunidade, o grande reinício, independentemente de cargo, função, salário e atividade a ser exercida! No dia 1o de dezembro, me apresentei com os demais futuros colegas na sede do Ministério da Agricultura, onde todos fomos recebidos em uma sala provisória, uma vez que estava sendo alugado um imóvel na mesma rua para sediar a campanha e abrigar o chamado Gecofa, sigla que nos disseram significar Grupo Executivo do Combate à Febre Aftosa.

Eu tive duas grandes surpresas nesse dia. A primeira foi, ao encontrar alguns dos colegas no portão, deparar com uma moça com semblante que me pareceu muito familiar, embora não a conhecesse, mas cujo detalhe do calçado me chamou muito a atenção. Era uma sandália de couro camurçado, com faixas de três cores (azul-marinho, mostarda e vermelho) no peito do pé, sobre as quais havia uma aplicação em forma de pequeno coração. A segunda foi perceber que o examinador do dia da prova nada mais era do que o médico veterinário que chefiaria o grupo, coordenando os trabalhos da nova unidade administrativa, o que me fez sentir mais à vontade, como se ele fosse um velho conhecido.

Comecei, portanto, na nova atividade, procurando aprender tudo o que fosse possível e fazer as coisas da forma mais correta, atendendo bem a todos. Inicialmente, entregava correspondências, fazia serviços de banco, comprava lanches etc. A alegria de ter um trabalho me fazia superar a dificuldade natural de regredir profissionalmente (de professor de cursinho a servente).

Quando mudamos para a casa nova, que era um antigo palacete, com escadas de mármore, grandes colunas no pórtico, lareira, sacadas etc., iniciei, juntamente com outro colega servente, a nossa atividade. Limpeza e cafezinho eram atribuições inerentes à função. Por longos meses, até que fosse contratada uma empresa especializada em limpeza e conservação, lavei muito banheiro e juntei muito lixo, passei pano nas escadas, encerei assoalho etc., sem falar no tradicional cafezinho.

Por vezes, me lembrava de um cidadão apelidado de Paisano, que em 1962, na Walita (em São Paulo), empresa em que eu era “comprador” – na época um bom cargo –, servia o cafezinho duas vezes por dia no local de trabalho, ou em alguma reunião, quando solicitado de forma extraordinária. Vestia sempre um paletó branco e usava gravata preta, como se fosse um garçom de restaurante, e curtia o que fazia. Era um profissional na arte de servir cafezinho. Às vezes, eu chegava a pensar que meu fim seria esse lá no ministério, embora o desejo de crescer, de mudar, fosse mais forte.

A mulher do Paisano, que era copeira, fazia o café, e ele apenas servia. Comigo era um pouco diferente, pois eu fazia e também servia a “rubiácea”, conforme se expressava um funcionário de outra área que às vezes vinha ao nosso setor e aproveitava para tomar café. No início, tive alguma dificuldade em fazer cafezinho para um número maior de pessoas, em função da quantidade de pó, de açúcar e dos próprios recipientes utilizados. Foi aí que ocorreu o fato gerador desta história!

Um colega reclamava do café, dizendo estar azedo. Eu não entendia, pois azedo, para mim, era ácido. Pensava que ele deveria colocar mais açúcar, pois na verdade o café deveria estar amargo. E, ainda não acostumado a certos regionalismos, falava comigo mesmo: “Isto é gíria de catarinense.” No entanto, a qualidade do café não estava agradando à maioria. Alguns deixavam um resto na xícara, e eu me lembrava de uma propaganda que via na TV, quando ainda morava em São Paulo: era de alguém que não tomava todo o cafezinho e ainda apagava o cigarro na sobra. Em seguida, aparecia na tela a frase: “Fim de um café medíocre” e, finalmente, a marca do café que exportávamos.

Comecei a achar que o meu café também era medíocre e que eu era tão incompetente que nem para servente eu servia. Demorou algum tempo para descobrir o problema. Ao colocar o pó de café no coador, alguém me disse: “É muito pó!” Eu colocava cinco colheres bem cheias para uma chaleira de água fervendo. Para mim, que estava acostumado com cafés mais fortes, aquilo era normal. Para a minha clientela, não! Após vários experimentos (método da tentativa), concluí que a quantidade ideal de pó era duas colheres. Não ouvi mais reclamações, ninguém mais disse que estava azedo, e aquele colega que inicialmente reclamou passou a tomar o café em copos, não mais nas xícaras para cafezinho de que dispúnhamos.

Considero que esse fato foi um problema de qualidade, a demora em solucionar o problema deixou os “colegas/clientes” insatisfeitos por algum tempo. Isso não teria acontecido se, na época, eu conhecesse o Diagrama de Causa e Efeito (também conhecido como Diagrama de Ishikawa, ou, ainda, como Diagrama Espinha de Peixe) e o pusesse em prática. Com essa metodologia, eu teria chegado rapidamente à conclusão de que a causa do problema estava na mão de obra, mais precisamente nos fatores experiência, referência (forte, fraco, médio) e habilidade, e também no método, no item quantidade do pó de café.

Como todo “causo” que se preze deve ter começo, meio e fim, este também terá suas conclusões. Após um ano e meio como servente, além de fazer cafezinho, de cuidar da limpeza, do xerox, da mimeografia e de outras atividades, e de ter criado um pequeno almoxarifado para atendimento às áreas de atuação da campanha (inclusive com fichas de controle de estoque), fui promovido a auxiliar administrativo “C”.

Resolvi, então, voltar aos bancos universitários, prestando exame vestibular para a Escola Superior de Administração e Gerência da Universidade para o Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina (Esag/Udesc) e cursar administração de empresas, tendo sido aprovado em sétimo lugar – o curso na Esag era nos moldes da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo.

Ao cursar a faculdade, conheci outras pessoas e fui convidado para trabalhar na área de material da então Companhia Telefônica do Estado de Santa Catarina (Cotesc), que, após a criação da Telebrás, passou a se chamar Telecomunicações de Santa Catarina S/A (Telesc), na qual permaneci por 25 anos, me aposentando em novembro de 1999, recebendo também os benefícios da Sistel, da qual faço parte desde a sua criação.
Após ter participado de um curso de especialização em Administração de Material promovido pela Telebrás, em convênio com a USP, passei a ministrar cursos nessa área nos Centros de Treinamento da Telebrás em Recife e em Brasília. Paralelamente, passei a ser docente na Univali, ministrando a disciplina de Administração de Material I e II, que depois passou a se chamar Administração de Recursos Materiais e Patrimoniais, no curso de Administração daquela instituição.

Além da evolução nos estudos e no campo profissional, houve também outro tipo de evolução, a familiar, pois constitui nova família. Para esclarecimento dos leitores, a segunda esposa, com quem tenho dois filhos, que se dão muito bem com meu filho do primeiro casamento, é a moça da sandália colorida. Naquela ocasião ela já me parecia muito familiar, mas após conhecê-la melhor, convivendo no serviço e na faculdade – pois ela também fez o curso de administração comigo –, tive a certeza de que tinha encontrado “a outra metade da laranja”.
Atualmente, após quase 40 anos de casamento muito bem-sucedido, ela continua me ajudando, me apoiando e, principalmente, me incentivando, para que eu passe estas experiências para o papel.

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Obs.: a ideia inicial era transcrever, com algumas alterações e atualizações, o “causo” Café azedo, um problema de qualidade, constante do meu livro Administração de material através de causos, editado em 1996, com edição esgotada. Na ocasião, o assunto se voltou para a utilização de uma ferramenta de qualidade denominada Diagrama de Causa e Efeito ou Diagrama de Ishikawa, aplicada para a solução de problemas a fim de descobrir suas causas. Nesta nova versão, me prendi à parte pessoal do referido capítulo, apenas citando a ferramenta, sem, no entanto, fazer a sua demonstração.

O título, hoje, poderia ser outro, por exemplo: “Começar de novo”, “Dar a volta por cima”, “Nada como um dia após o outro” ou, ainda, “A minha estrada de Damasco”, devido ao meu reencontro comigo mesmo e a um recomeço importante para a minha vida.

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Escrito por Gerson dos Santos