Certo dia, no caminho para matar o que estava nos matando (a fome), deparamos com um coelho. Pedi silêncio ao meu amigo, para não ajustar o bichinho. Eu iria tentar capturar o simpático animal. Tirei os sapatos e, com a camisa esticada entre os braços abertos, pulei na pequena moita e consegui apanhar o orelhudo. Contente como se tivesse ganhado medalha nas Olimpíadas, mostrei o felpudo troféu ao dono do restaurante, que agradeceu e o tirou das minhas mãos dizendo que era um dos seus coelhos. De fato, quando fomos verificar, atrás do muro do restaurante havia um cercado com vários coelhos.

Não sabíamos que ele criava coelhos e combinamos que, no dia seguinte, ele iria fazer coelho assado, mas que não podia utilizar o branco com manchas de cor marrom que eu tinha capturado – naquela ocasião eu comia carne, mas hoje sou vegetariano.

Na noite seguinte, chegamos para jantar. A mesa estava toda arrumada e enfeitada, o coelho assado no centro, acompanhado com farofa grossa de milho, batata souté , arroz integral e feijão tropeiro típico da região sorocabana. Ele também serviu vinho tinto “Chiante” italiano, da região da Toscana, aquele cuja garrafa é toda empalhada.

Mas, antes de começar a degustar, fui até o cercado dos coelhos para me certificar de que o felpudo branco com pintas de cor marrom estava lá. E só após acariciá-lo me dirigi ao lauto banquete.

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Esta história ocorreu nos anos 90 do século passado, quando eu exercia a atividade de técnico de telecomunicações na extinta Telesp de tantas glórias e tradições. Eu trabalhava na seção Técnica de Implantação Leste (TIL), que abrangia todo o litoral do estado de São Paulo, do vale do Paraíba, passando pelo vale do Ribeira e a região de Sorocaba, até a divisa com o estado do Paraná.

O fato ocorre em Campina do Monte Alegre/SP, na região de Sorocaba. Na década de 90, a pequena cidade tinha menos de quatro mil habitantes. Eu e um colega da Telesp, Sr. Koch, ambos paulistanos, fomos implantar o sistema de Discagem Direta a Distância (DDD), para substituir o obsoleto telefone à manivela com auxílio de telefonista.

Todos os dias, saíamos da central telefônica e caminhávamos por ruas de chão batido até um restaurante situado a poucas quadras à margem de um piscoso e aprazível lago. Na época, os telejornais veiculavam notícias sobre um monstro no lago Ness, na Escócia, carinhosamente chamado de Nessie.

Em tom de gozação (gíria típica paulistana), falava para o dono do restaurante que, se ele quisesse aumentar o movimento de turistas no estabelecimento, teria que construir um monstro de plástico e, de vez em quando, fazê-lo submergir aos modos do Nessie escocês.

No início da década de 90, a moeda no Brasil era o cruzeiro real, mas na pequena cidade do interior usávamos o “campino”, moeda de circulação somente local, para pagar o almoço. Um dia, o Estadão fez uma reportagem dizendo que o presidente Itamar Franco, aquele do topete e que assistiu ao desfile carnavalesco acompanhado de beldade que não vestia lingerie, proibiu a circulação da moeda local.

Lembranças “telespianas” vivas, guardadas no cérebro e no cantinho alegre do meu coração.

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Escrito por Donato Rodrigues