Ignorando minhas vontades, tiraram-me do turno da manhã, já no segundo semestre do meu primeiro ano escolar. Além de preencher com aulas o melhor período para brincar, perdi, também, os melhores amigos e parceiros; eles não foram transferidos para a tarde.

Minha mãe tentava me consolar, dizendo-me que às vezes um mal floresce para um bem maior frutificar. Isso, porém, não me convencia.

E assim, solitário, certa manhã, à sombra de um pé de araçá-mirim, eu rabiscava o chão, quando alguém veio por trás devagarzinho:
- O que faz aí cabisbaixo? Você devia estar brincando!
- Que susto, vô! Não tenho com quem brincar: tá todo mundo na escola.
Respondi, apagando da areia o esboço.
- Eu também nunca tive amigos na minha infância, por isso procurei logo aprender a brincar sozinho!
- Mas brincar sozinho é chato; e eu nem tenho brinquedo!
- Isso, também, foi outra coisa que fui forçado a aprender. Faça seus brinquedos!
- Mas eu não sei fazer nada, vô!
- Você já tentou?
- Não!
- Então, esta é a hora de aprender! Comece fazendo isso que você desenhou aí.
- Mas eu não desenhei nada!
- Eu vi! Não minta pra mim!
Fui obrigado a confirmar que havia desenhado alguma coisa, porque vovô odiava mentiras! Adorava criança, mas não tolerava as sonsas, as abusadas nem as respondonas.
- Se você sabe desenhar, pode construir! As mãos fazem o que o cérebro ordena.
- Mas...
- Inteligência é um dom, cabe a cada um desenvolvê-lo.

Eu nem sabia o significado da palavra “dom”, mas a explicação veio de imediato.

- Esse dote natural Deus dá a todos os seres vivos.
- Aos animais também?
- Até às plantas! Senão, como eles aprenderiam a se defender de inimigos, reproduzir e frutificar?
- É mesmo! É por isso que as raposas, os guaxinins pulam e correm, quando o senhor atira, mesmo sendo pra cima.
- Pois é. Eles não sabem disso, mas seus instintos pedem para que corram. Deus dá o dom; cabe a cada um aprimorar, praticando.
- Mas eu nem sei como começar, vovô!
- Soldado não pode esperar a guerra iniciar-se para aprender a atirar.
- Mas eu não sou soldado, vô! Eu só tenho sete anos!
- Mas a sua guerra já começou. Vamos, soldado! De prontidão!
Pronunciando tais palavras de ordem, ele saiu, retornando logo depois, com faca, serrote, martelo, tábuas e pregos. Arriando-os aos meus pés, exclamou:
- Tem, aí, todo o arsenal necessário! Vamos, lute!
- Mas vovô...
- Vou ensinar você, nesta batalha, a como atirar nos seus inimigos!
- Que batalha, vovô? E quem são meus inimigos?
- Batalha é a dificuldade de cada dia! Tédio e solidão são os seus grandes inimigos! Encontre-se, e todos cairão por terra!

Depois de proferir tais palavras, sabendo que eu pouco ou nada tinha entendido, ele me puxou para bem pertinho e, abraçando-me, disse:
- Solidão não vem até a gente; é a gente que vai até ela! A solitude só machuca o homem até ele se encontrar!
Mesmo sabendo que eu ignorava o conteúdo de suas explicações, ele prosseguiu.
- A solidão pode acompanhar você, mesmo você estando com um exército! E você pode se sentir numa procissão, num salão de festa, ainda que sozinho; basta você se achar.
- Mas vô...
- Vamos, comece a atirar, antes que acertem você!
- Mas eu...
- Você é um soldado que protege o quartel da inocência e, como tal, não pode nem deve perder nem um combate!
- Por quê?
- Para não suprimir os melhores dias da sua vida!
- Eu não tô entendendo nada do que o senhor tá falando, vovô!
- Cada dia é uma batalha, e a criança não pode perder nem uma luta sequer. Só os velhos podem.
- Por que só os velhos?
- Porque a eles faltam-lhes vitalidade e algo com que sonhar.
- Mas vovô...
- Como é? Quer ou não vencer o combate, acabar com essa peleja e ganhar a guerra de agora?
- Que combate? Que peleja? Que guerra, vovô?!
- A construção de seu carro, seu tédio e esse seu vazio!

Até então, eu nada sabia! Mas, graças ao meu avô, desde aquela manhã, aprendi muitas coisas incríveis! Coisas capazes de fazer brotarem doces frutos, ainda que nascidas de entre pedras e cascalhos.

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Escrito por Luiz Carlos Lessa Alves