Em certa manhã de domingo, eu estava à beira de um campo de futebol, em Bangu, aqui no Rio de Janeiro, com alguns colegas. De repente, um companheiro chega “cantando pneus”, e alguém surpreso lhe pergunta:
- Ué! Já trocou de carro outra vez?
- Forçado pelas circunstâncias. Furtaram o outro. Com o dinheiro do seguro, comprei este preto – a cor que eu queria.
Daí, até formar dois times para iniciar a pelada, começou o papo sobre roubos e furtos de veículo.

No decorrer da conversa, fiquei admirado com a quantidade de pessoas, ali, que já haviam sido furtadas ou roubadas. Algumas mais de uma vez. Teve gente mostrando cicatrizes resultantes de assaltos. Eu me incluí no grupo dos furtados; mas por uma vez, somente – graças a Deus!
A chegada ríspida daquele novo carro e os testemunhos sobre a falta de segurança no estado levaram-me à Bahia, ao povoado onde nasci, algumas décadas atrás. Lugar sem governo, verdade, mas também sem furto e sem assalto!

Lá chegando, parei na bodega de seu Manoel, onde ele se encontrava na porta, sentado numa cadeira, quando seu Eron, fazendeiro cultivador de coco e criador de ovelhas, chegou riscando no terreiro, montado em um manga-larga machador, preto, brilhoso, bastante bonito e muito arisco! Poldro, ainda.

Apeou, amarrou-o no mourão, fincado para esse fim, à sombra do tamarindeiro. Após tomar uma “talagada”, pediu que meu pai fosse dar umas voltas no seu novo cavalo, ainda xucro – o que seu Manoel o fez com prazer. Depois, sentados, ali debaixo do pé de tamarindo:
- E aí, compadre, o que achou de Júpiter?
- Excelente, compadre! Além de marchar macio, é muito ágil e obediente às rédeas!
- Onde comprou?
- Em Sergipe, Indiaroba
- E Netuno?
- Aposentei. Ele agora vive lá no pasto, à toa. Os meninos é que, às vezes, dão umas voltas com ele, para que não se sinta à toa, desprezado e sem importância.
- Por que não compra uma égua manga-larga e faz suas próprias crias, compadre?
- Já providenciei! Junto com Júpiter, comprei, também, Plutão, potro ruço, e duas potrancas, uma cor castanha e outra alazã: Vênus e Marte. Todos os quatro com dois anos, somente!
- Meus parabéns, então, compadre! Mesmo sem saber quanto lhe custou, posso garantir que fez bom negócio!
- Obrigado, compadre! Também acho que sim. Agora estou bem servido de montaria! Com estes garanhões e...

Não terminou a frase. Nesse dado momento, Júpiter despejou um monte de “quibe” esverdeado no terreiro da bodega de meu pai. Uma senhora borrada! Então, rindo, meu pai se vira para seu Eron e diz:
- É, compadre, o senhor trocou de cavalo, mas a bosta não é diferente! Só a quantidade deste é maior do que a do outro!

Concluiu, se levantando para apanhar uma enxada, a fim de aterrar as fezes de Júpiter.
Da mesma maneira como agiu seu Eron, acolá, vem procedendo a nação: troca de nome, mas não troca de homem, e os dejetos continuam aumentando! E assim como fez seu Manoel, os eleitores observam, riem e, ainda, põem terra por cima.

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Escrito por Luiz Carlos Lessa