Na fazenda do meu avô, a noite chegava sempre faceira. Ela surgia de sob a mata, enquanto por cima a tarde se afastava preguiçosamente aos gorjeios.

Certa vez, num desses lusco-fuscos, vovô tinha acabado de aparelhar uma cangalha, guardava ferramentas, quando minha avó chegou avexada:
- Domingos! Rápido! Tem uma baita raposa arrudiando o galinheiro! Vai lá e acaba com a festa dela!

Ele pegou espingarda, saiu sem pressa; eu fui atrás! Lá, encontramos a atrevida sôfrega, ainda rodeando o abrigo galináceo, para desespero dos residentes, que faziam um cocoricar danado! Vovô engatilhou a arma e, sem mirar, sapecou chumbo! Nem me deu tempo para tapar meus ouvidos. Enquanto examinava o galinheiro, recarregando a 22:
- Depois que perdi meus cães, prometi nunca mais criar cachorro.
- Mas, vovô, por quê?
- Coisa de velho. Mas vejo que é necessário reconsiderar.
Via-se nele, muito pesar, ainda, pelo acontecido aos coitados.
- Vô, é necessário... O quê?
- Voltar a ter cachorro na fazenda.
- É mesmo! É muito bom ter cachorro em casa! Sinto muita saudade de Zeus e Apolo!
- Depois deles, raposa, guaxinim, saruê... Todos perderam o respeito!
- Respeito! Que respeito, vô?
- Eles obram e fazem xixi em meu quintal, delimitando, assim, seus territórios.
- Os lugares onde eles fazem cocô e mijam são deles?
- Eles acham que sim!
- Como sabe?
- Outro dia eu tava aterrando algumas fezes, quando me aparece um guaxinim.
- E o que o senhor fez?
- Ele é quem fez: gritou comigo!
- Gritou com o senhor! Como?
- “Ei, moço! Que tá fazendo? Isso aí é o meu aceiro! Minha baliza!”
- Ah, vovô!
- Verdade! Vou arranjar um casal de cachorro, aí eles vão ver!
- Ver o quê?
- Onde é o limite deles! Tenho gasto muito chumbo e pólvora à toa.
- Pintos e ovos, também! Vovó disse que, às vezes, até galinha some!
- Ovo pouco me custa. Lamento só pelos bichinhos, coitados, mastigados vivo!
- E os ovos, vô, eles podem pegar?
- Ovo não sente dor, e os animais também precisam comer alguma coisa.
- O senhor tem é pena dos bichos, né, vô?
- Isso é tão pouco, por tanto bem que eles nos proporcionam!
- Então é por isso que o senhor só atira pra cima, inda dá comida!
- Somente Deus tem o direito de tirar vida; nós devemos é zelar por ela.
- Mas foi uma cobra que matou Zeus e Apolo! Cobra pode?
- Eles atacaram a coitada, em defesa do território; ela revidou, por instinto de defesa.
- Mas foi a cobra que entrou na casa deles!
- Até nós esquecemos as regras, quando procuramos por comida ou abrigo.
- Que regras?
- Territoriais. Até porque tudo isto era deles. Aqui, os invasores somos nós.

Zeus e Apolo eram irmãos valentes. Foram picados ao atacar uma surucucu, que entrara em casa, provavelmente, procurando alimento ou proteção. Mataram-na, mas nada se pôde fazer por suas vidas. Vovô ficou completamente arrasado. Já havia passado 11 meses e, até aquela data, ele não tinha pensado em ter outros cães.

- Vovô, pra que o senhor tem espingarda, se não caça nem mata nada?
- Espingarda é, para o roceiro, como a sagacidade para a raposa, dentes para o cão e veneno para a cobra.
- Não entendi!
- É uma proteção natural; nunca se sabe o que pode surgir dessas brenhas.
- Mas cachorro também pode matar os bichinhos!
- Não necessariamente! Basta o cheiro do cão, e eles se afastam dos arredores.
- Vovó! Chegamos!
- Acertou?
- Qual nada Carmelita! A safada é muito sagaz!
- Como sempre! Se quando era moço você não acertava, agora então! Mas vale o susto.
- E que susto, vó! Tadinha! A bichinha deu um pulo...!
- Hoje ela não vem mais. Agora, deixe-me ir pra minha cozinha prepara o jantar, é o melhor que faço.
- Vô, por que não disse a verdade, que não matou porque não quis?
- Ela já sabe!
- Sabe! Como?
- Há anos faço a mesma coisa: eu finjo que vou matar, ela finge que acredita.
- Desse jeito, até os bichos já sabem que o senhor atira só de mentirinha, vô!
- Talvez seja por isso que os safados fazem do meu terreiro privada!
- É vô! Eles correm fingindo que têm medo do senhor!
- Será mesmo? Eu não tinha pensado nisso!
- É isso, vô!
- Mas não os culpo.
- Por quê?
- Esta é uma outra história.
- Então conta, vô!
- Eu conto, mas só depois da ceia!
- Vooó! Vovô disse que tá com fome! A janta já tá pronta?
- O que deu em você, homem de Deus? Nunca janta antes do canto das corujas!
- Já não sabe! Este moleque quando vem aqui me abre um apetite!...
- Também! Faz tudo que ele faz e o que ele pede, como se ainda fosse moço! Vou pôr a ceia.

A casa do vovô
Como há tantas noites, ontem cheguei em casa e encontrei-a trancada. Abri a porta com chave, entrei. Tudo escuro, nenhum ruído. Acendi as lâmpadas, sentei na cadeira, tirei o tênis. Havaianas, como eu havia deixado ao sair, as calcei. Fiquei por alguns instantes ali, restaurando antigas pegadas. Seguindo estes velhos rastros, cheguei a um lugar muito aquém dessas minhas últimas noites tediosas. Lá, reencontrei meus avós, meus pais, tios e muitos primos!

Não querendo tais recordações, pulei do assento, indo direto ao chuveiro. Banheiro seco. Apenas uma toalha para banho e outra para o rosto, enxutas, aguardavam-me. O chuveiro abriu-me o apetite.

Na cozinha, encontrei panelas frias, pratos limpos. Recorri à geladeira. Esta, com olhar gelado e vazio, dizia-me estar como eu a deixara.

Era muito tarde para sair. Além do mais, internamente a necessidade era ínfima, comparando aos riscos vigentes lá fora. Não tinha pretensão alguma em me tornar manchete da manhã: “Homem ganhou bala, ao sair para jantar!”

Infelizmente, este é o retrato atual do Rio de Janeiro. E isso me fez correr até meu avô, observando sua casa em balbúrdia:
“Isto aqui está parecendo casa de pu... ta governada por sacana: é um entra e sai danado; todo mundo manda!”

Ele dizia rindo, entrando, também, na zoeira. Ficava feliz vendo tudo revirado: varando na sala; quarto na cozinha; terreiro no quintal... Acolá, entretanto, bagunça era diversão; por cá, a coisa é séria, sem brincadeira!

Mas eu continuava com fome! E não havendo melhor opção, coloquei seis ovos para cozer, enquanto assistia a um velho filme desbotado.

Não era bem o que eu queria: sentar sozinho num sofá, àquela hora, para assistir a uma película antiga, comendo salada de tomate e ovo duro – assim dizia minha mãe, quando se referia ao ovo cozido – em rodelas ao azeite, acompanhado de suco de caju. Não obstante, muito bom, creia! Fui repousar logo depois.

No quarto indolente, cama estreita, arrumada, jurava-me de travesseiros juntos – embora só houvesse um! – que ninguém havia nela deitado durante minha ausência.
Pobre leito! Jurando lealdade a um servo criado feito eu! Não conhecia, deveras, minhas raízes! Nem sei como ele se portaria, caso soubesse que eu daria tudo para encontrá-lo com fronha amarrotada, cobertores amassados...

Eu queria mesmo era poder entrar em casa sem utilizar minhas chaves. Encontrá-la toda iluminada, com rádio, computador e televisão ligados. Procurar meus chinelos e não os ver onde eu havia deixado. Banheiro encharcado, contendo varias toalhas umedecidas, penduradas ao desmazelo. Panelas quentes, pratos sujos. Geladeira alegre esbanjadora, abrindo-se e se fechando a todo momento. Cama larga com lençóis ao desalinho, e alguém ansiosa pela minha chegada.

Eu sempre quis ter uma casa: não importa se grande ou pequena, pobre ou rica; contudo, que fosse alegre, brincalhona, bagunceira, curiosa... Que risse e até chorasse, às vezes, mostrando-me outros sentimentos; velhas emoções. Um lar com quem eu pudesse me dividir; brincar, correr e brigar, até! Não uma residência comedida, calada, sem risos, sem traquinagens, feito esta, que mais parece um refúgio, uma pousada.

Agora sei por que vovô muitas vezes até ria no meio do furdúncio, quando algumas paredes rangiam.

“Quem chora não fica forte!”, alertava-nos, afagando as partes prejudicadas com aquele seu jeitinho exclusivo, milagroso e dedicado. “A queda endurece músculo e osso; corte e arranhão retiram o sangue ruim do corpo!”, concluía de maneira tal que, muitas vezes, toda a casa fingia-se machucada, só para obter seus dengos. Ele era, sem dúvida, colossal!

Certo dia, porém, a caixinha que ele trazia escondido no peito por nove décadas, não cabendo mais tanta beleza e bondade, se rompeu, e o esteio daquela casa ruiu. Foi uma tristeza medonha! Via-se que ele não queria, mesmo com aquela idade... Ninguém queria! Entretanto, infelizmente, ele foi obrigado a partir. Aquele templo desmoronou. Seus destroços foram açoitados dali e espalhados por cantos longínquos deste Brasil.

Anos além, pedaços dele fincados noutros solos fizeram novos lares. Se algum igual ao do vovô, não sei! Melhor, certamente, não há!

Cresci sonhando em construir uma casa igualzinha àquela do vovô: sorridente, enérgica, traquina, buliçosa... Não assim, prudente, fechada, escura, solitária e nebulosa, como esta onde estou! Mas, infelizmente, foi só nisto que esta porção daquele monumento se tornou!

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Escrito por Luiz Carlos Lessa Alves