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Cap. 1 - Questionei-me se conseguiríamos chegar

Quando trabalhava na Telecomunicações de Minas Gerais – Telemig, viajei na companhia de um colega para a cidade de Virginópolis, próxima a Guanhães, no norte de Minas. O objetivo era instalar e testar um equipamento numa estação de rádio que ficava no alto de uma serra, distante vários quilômetros da cidade.

Com muito custo conseguimos chegar bem à cidade. Procuramos por um hotel e não havia nenhum. Rodamos mais um pouco e encontramos uma pequena pensão. Na falta de outro tipo de acomodação decidimos ficar por ali mesmo.

Nos três dias seguintes toda nossa atenção estava voltada ao trabalho. Fomos várias vezes àquela estação de transmissão de rádio no alto da serra, subindo e descendo por uma estradinha perigosa. Quando tudo terminou, planejamos sair no dia seguinte bem cedo.

No entanto, observei que o medidor de combustível estava marcando abaixo de 1/4 de tanque. Saí à procura de um posto de abastecimento. Rodei pela cidade e não achei nenhum. Parei e perguntei a um morador, que me informou só existir uma bomba de gasolina na cidade. Começou aí um drama para nós, pois o carro era a álcool...

Voltei para a pensão um pouco preocupado. Disse a meu amigo que iríamos tentar chegar a Guanhães com o combustível que restava no tanque. Naquela noite choveu muito, acordei várias vezes com os trovões. Questionei-me se conseguiríamos chegar. Sabia que estávamos correndo risco de ficarmos parados no meio do caminho. E, além do mais, o tempo não estava ajudando.

Cap. 2 - Este carro só anda para frente

O dia amanheceu sem chuva, mas com o tempo ainda muito fechado. Começamos assim mesmo nossa viagem de volta. Eu dirigia com um olho na estrada e o outro no medidor de combustível, torcendo para que nada nos acontecesse de errado.
Passados alguns quilômetros comentei com o meu companheiro, que a estrada estava muito deserta e se acabasse o combustível eu não sabia o que seria de nós. Quem poderia nos ajudar numa estrada assim?
Passado um tempo vi ao longe um ônibus vindo em sentido contrário. Meu amigo falou:
- Esta estrada não é tão deserta como você pensa, veja aí, um ônibus!

Ao cruzarmos com aquele ônibus, que vinha devagar procurando desviar dos buracos, observamos que era muito velho e caia aos pedaços. Parecia aquelas velhas “jardineiras” antigas. Comentei:
- Como pode um ônibus tão velho estar ainda rodando.

Pensando bem, ninguém põe ônibus novo para trafegar numa estrada tão ruim e cheia de buracos.
Continuamos a viagem. E, eu, de olho no medidor de combustível.
Passados mais ou menos uns dois quilômetros, depois que cruzamos com o velho ônibus, numa curva mais fechada para a esquerda, vi caída na estrada, bem no lado direito, uma mala.

Ao passar por ela, meu amigo disse:
- O que é aquilo, parece uma mala?
Respondi:
- Parece não... é uma mala!
E nessa conversa, se é ou não uma mala, fomos nos distanciando.

Meu amigo chegou a uma conclusão:
- Aquela mala deve ser do ônibus velho. Vamos voltar para apanha-la?
Na mesma hora afirmei com bastante convicção:
- Você quer voltar para apanha-la?! Com o combustível acabando, não senhor! Não volto nem um metro. Este carro só anda para frente. Vê se vou voltar! Estou achando que o combustível não vai dar para chegar a Guanhães! Vai me desculpar, mas essa mala ficará para trás mesmo.

Cap. 3 - O motorista vai ter que parar

A viagem continuou, ficamos um pouco em silêncio. Sei que ambos estávamos pesarosos por não termos recolhido a mala.
Passados uns vinte minutos aconteceu o que eu tanto temia, o motor falhou a primeira vez. Logo em seguida falhou novamente. Pensei: o carro não vai chegar. Foi à conta de andar mais alguns metros e, pronto, apagou.
O carro parou bem no meio da estrada, próximo a uma grande poça d’água. Saímos do carro, o empurramos até um lugar mais seguro.
Então eu disse:
- Ei, amigão, do jeito que as coisas vão, vai custar alguém passar por aqui para nos ajudar.
Ficamos ali parados por um longo tempo. Pedindo a Deus que um só carro parasse, e nada...
Depois de quase duas horas vejo ao longe um carro vindo. Ao vê-lo, pensei: Este motorista vai ter que parar aqui, custe o que custar.
O carro veio chegando e logo me posicionei no meio da estrada, forçando o motorista parar. E ele parou. Identifiquei-me e expliquei a situação. Era um carro da Emater , muito gentilmente o motorista se prontificou a levar-me até o primeiro posto de abastecimento.

Cap. 4 - Logo reconheci

Conversando com ele observei no banco de trás uma mala suja de lama. Logo reconheci e perguntei:
- Esta mala estava perdida no meio da estrada?
Respondeu-me dizendo:
- Sim, você a tinha visto?
Então, expliquei que tinha visto, mas não que pude apanha-la.
Especulei que, provavelmente, ela era do velho ônibus que se dirigia para Virginópolis.
O motorista esclareceu:
- Vou entregá-la na rodoviária de Guanhães e pedir para que avisem a rodoviária de Virginópolis sobre o paradeiro da mala.
Bem, ao chegar no posto de abastecimento desci e agradeci bastante pela oportuna carona. Tratei logo de comprar um galão de 20 litros e o enchi de álcool.

Cap. 5 - Olhei bem para aquela mala e pensei

Logo após, começou outro dilema. Como voltar para o carro parado na estrada?
Conversando com o frentista do posto, ele me disse que lá pelas 17 horas, provavelmente, um caminhão da empresa de manutenção de energia elétrica passaria por aquela estrada.
Pensei, cocei minha cabeça e fiquei por ali mesmo esperando pelo tal caminhão, pois não havia outra solução.
Passados mais ou menos 20 minutos, despretensiosamente, observei um táxi que estava abastecendo. Vi que a placa era de Virginópolis. Aí, surgiu uma nova esperança.
Fui me aproximando, procurei saber quem era o motorista, pois não havia ninguém sentado ao volante, apenas um passageiro. Encontrando o motorista identifiquei-me e contei-lhe que meu carro estava parado na estrada sem combustível e que eu precisava voltar para lá.
O taxista disse que era preciso pedir ao passageiro. Fui até ele que, sem nenhum problema, concedeu-me a tão desejada carona.
Preparamos-nos para sair. Ao sentar-me no banco vi que estavam trazendo aquela mesma mala da estrada. Pus as mãos na cabeça dizendo para mim mesmo:
- Esta mala de novo? Não é possível, pela terceira vez... isso é demais!
Imediatamente perguntei ao passageiro o que estava acontecendo com aquela mala.
Na verdade, o passageiro do táxi, era o trocador do velho ônibus. Ele explicou que ao chegar a Virginöpolis perceberam que o porta malas havia se destrancado e a mala havia caído. A dona estava desesperada por encontrá-la, a ponto de dizer que não iria deixar o ônibus sem que sua mala lhe fosse devolvida.
Vejam só, olhei bem para a mala e pensei:
“Esta é minha mala da sorte. Foi ótimo não tê-la recolhido quando a vi pela primeira vez, pois, se assim fosse, não teria a carona de volta”.
Ao chegar onde estava parado o carro agradeci a todos.
Durante a viagem de volta a casa vim contando esta história ao meu amigo, que ria a valer da mala da sorte.

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Escrito por: Cleiton Ferreira Paratela