Paulo era um amigo, casado com Tânia, torcedor do América do Rio e muito questionador. Conhecemo-nos há uns 15 anos, quando eu e minha esposa fomos ser coordenadores de uma equipe de casais no Encontro de Casais com Cristo da igreja católica.

Após este encontro, havia uma dinâmica de encontros mensais entre os casais da equipe. A cada mês, ocorreria uma reunião na casa de um dos casais. Como coordenadores, éramos vistos como as pessoas que poderiam responder a todas as perguntas sobre religião e família. Mas nem sempre tínhamos respostas para tudo, por isso respondíamos tudo de acordo com a filosofia de Jesus.

Perguntávamos, antes de responder: “Vocês acham que Jesus faria isso dessa forma?” Mas Paulo era questionador, trazia histórias que leu ou escutou sobre Jesus que, segundo a sua argumentação, sempre colocavam em dúvida a veracidade contada no Novo Testamento. Muitas vezes, tínhamos sérias discordâncias e alguns aborrecimentos. Em outros momentos, ele não aceitava o que se discutia e achava um absurdo o que era afirmado na Bíblia.

Vários debates foram mantidos nesses encontros de estudos, e em alguns sobravam dedos em riste. Jamais seguimos uma direção de descontinuidade, pois, como coordenadores, nos dedicávamos a ser conciliadores.

Em um encontro de casais no qual trabalhamos na mesma equipe eu, minha esposa, Margarida, Paulo e Tânia, sua esposa, Paulo teve uma desavença comigo e foi tão incisivo que ameaçou me agredir, dizendo que, se eu não parasse de falar com ele, iria me atacar. Tomei na mesma hora uma decisão profundamente cristã: calei-me, recolhi-me ao fundo da sala onde estávamos, abri a Bíblia e passei a orar por Paulo. A esposa, com a sua generosidade e inteligência, resolveu ir para casa a fim de evitar qualquer contratempo.

Essa atitude e o acontecimento me trouxeram uma profunda tristeza e tive então a confirmação do quanto gostava do Paulo, ele realmente era muito especial. Mas naquele momento foi o melhor a ser feito.

Alguns meses depois, Paulo foi diagnosticado com câncer de estômago e internado em Copacabana. Eu trabalhava em Botafogo e, durante todos os meses em que ele ficou internado, fui todos os dias, sem falta, visitá-lo no hospital na hora do meu almoço. Cumprimentava-o com um boa-tarde e a saudação cristã “a paz de Cristo esteja convosco”. Quando eu saía, fazia o sinal da cruz em sua testa e postava a mão em sua cabeça, orando por ele.

Paulo melhorou espetacularmente. Em uma tarde em que lá estive, ele me disse que, em determinado momento do tratamento, viu a luz de Jesus Cristo e se sentiu muito confortado e amado pelo Senhor. Isso, para mim, foi uma vitória, pois, antes do nosso primeiro encontro, Paulo não era cristão.

Ele teve alta do hospital e voltou a trabalhar em sua empresa de informática. Mais de um ano depois, os sintomas do câncer voltaram a atacá-lo, e ele teve que ser novamente internado, agora em um hospital na Barra da Tijuca. Mesmo com certa dificuldade, voltei a visitá-lo sempre no hospital.

Em uma das visitas, não o cumprimentei com a saudação cristã, não fiz o sinal da cruz e não postei a mão sobre a sua cabeça, para experimentá-lo. Antes que eu saísse do quarto, ele me chamou e me cobrou: “Não está faltando nada?” Eu respondi: “O quê?” Ele retrucou: “Você não me saudou, não me abençoou com o sinal da cruz e não rezou sobre a minha cabeça.”

Neste momento, pude perceber o incondicional amor de Jesus por nós e que a missão minha e da minha esposa havia se consumado. Paulo, agora, realmente era um cristão! Imaginem a alegria de Jesus com esse fato!

Poucos dos participantes da nossa equipe tinham tamanha fé e amor pelo próximo. Poucos dias depois, Paulo faleceu, mas antes da sua passagem ele pôde orar com uma oração de agradecimento ao Senhor. Para nós ficou uma clara lição: nem sempre os que não concordam conosco devem deixar de merecer o nosso amor. Amar o próximo de quem gostamos é fácil, difícil é amar aquele que nos põe à prova. Paulo foi essa pessoa em nossa vida, e nós conseguimos perceber muito antes desse fato que ele era o irmão a ser amado. E foi!

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Escrito por José Antônio Dias