Compilei das saudosas lembranças da minha meninice em Sapucaia de Minas, durante o ledo conviver sabático com meus avós maternos, entre tantas alegrias e folguedos, histórias como esta que a seguir relato.

O meu avô contava que, na época da Maria Fumaça, um feitor*(português bem apessoado) para ter melhor visão da linha férrea, enquanto a inspecionava, rotineiramente se acomodava em um vagão denominado prancha, que em vez de ser puxado era empurrado lentamente pela locomotiva.

Certo dia, o serviço transcorria sem alteração, quando em dado momento, acidentalmente o vagão se desengatou da locomotiva. E lá se foi o feitor na prancha sem comando. Era uma bólide trilhando a linha férrea descendente, no final da Serra de Miguel Pereira.

A prancha chucra, indômita passou duas ou mais estações. Até que na última, já galgando a planície, o chefe da estação teve a luminosa inspiração de telegrafar à próxima parada. Relatou o fato e pediu que se armasse o desvio, o que se fez imediatamente.

A prancha, finalmente em menor velocidade, chocou-se com uma carga estacionada no providencial desvio.

Ainda me recordo das palavras de meu avô:
- E lá ficou o infeliz feitor, atordoado, com apenas alguns arranhões, cercado por uma carga de dormentes, como se estivesse em um paliteiro.

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Escrito por Ivo da Rocha Vieira

 

*Feitor de Linha: chefe direto de uma turma de trabalhadores incumbida de determinado serviço. Fonte: Glossário dos Termos Ferroviários do DNIT.