Em nosso dia a dia, testemunhamos fatos a toda hora. Alguns não nos causam nenhuma emoção e são esquecidos quase que imediatamente. Outros nos surpreendem pelas suas peculiaridades e ficam presentes em nossas memórias por um bom tempo. Mas temos aqueles que mais nos surpreendem e que nos deixam atônitos e com os olhos molhados.

O fato que vou relatar veio confirmar o quão pequeno é o mundo no qual vivemos e que só com a ajuda divina algo assim pode acontecer. No dia 19 de agosto de 2006, às 16h, estávamos na sala de espera da CVC, no Aeroporto de Cumbica, voltando de uma viagem que fizemos para Porto Seguro. Aguardávamos o ônibus que faria nosso traslado para Bauru. Na mesma sala de espera, estava um casal que, além de suas malas, transportava um tapete típico nordestino.

Nunca fui extrovertido, mas naquele instante algo me impulsionou a conversar com o casal. Perguntei qual era o destino daquele tapete maravilhoso. Eles responderam que eram de Bauru e que estavam aguardando o mesmo ônibus para voltar para casa.

Disse que morava em Bauru já há muito tempo. Perguntei o bairro em que moravam, e aí a coincidência começou a acontecer. Comentaram que residiam na Vila Cárdia. Fui mais a fundo e perguntei o nome da rua. A resposta foi Rua Rio de Janeiro. Fiquei mais emocionado ainda quando falaram o número da casa: era exatamente o mesmo endereço no qual passei a minha infância, até o dia 10 de novembro de 1960.

A confirmação final foi o pé de Santa Bárbara, uma árvore cujos frutos têm formato de azeitona redondinha. Ele permanecia defronte à casa em que morávamos eu, meus pais e quatro irmãos. A casa, construída pelo meu pai, era de madeira, com piso de chão batido na cozinha e na área de serviço, e assoalho suspenso na sala e no único quarto. O WC era externo, de fossa, e tínhamos que caminhar um pouco para usá-lo.

Depois do ocorrido, tive a curiosidade de passar pelo local e constatei que a minha casa não existia mais, dando lugar a uma outra, bem mais moderna, de alvenaria.

Este fato, ocorrido 46 anos depois, me marcou porque reuniu no mesmo aeroporto, na mesma sala de espera, no mesmo horário, chegando de diferentes voos, aguardando o mesmo ônibus para voltar para a mesma cidade pessoas desconhecidas até então, e um casal que voltava para o meu antigo endereço.

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Escrito por Jorge Ferasoli