Às 15 horas da Sexta-Feira Santa, enquanto os católicos se apinham na Igreja Matriz da padroeira do bairro, o menino Bertinho corre até o seu Tio Tonho, apressadamente segura em sua mão e todo assanhado diz:
- Tio, vamos descer o morrinho da vila para irmos até à casa da Dona Rosa para começar a fazer o boneco do Judas? Vamos! Vamos, tio!

É no Sábado de Aleluia que tradicionalmente acontece a malhação do Judas. Tio Tonho comanda a brincadeira realizada de maneira especial para a criançada.

Na casa da Dona Rosa, o boneco é comunitáriamente confeccionado. Chegando lá, Bertinho abre o portão da garagem convertida em “ateliê de Judas”. E depressa pergunta:
- Eu quero saber quem vai ser o Judas desta vez?

Mais que prontamente, a garotinha Aninha, entretida entre potinhos de tinta guache e papéis amassados, responde convicta:
- Vai ser o motorista bêbado. A minha avó Rosa disse que a minha mãe falou que motorista bêbado é muito perigoso. Ele pode provocar um desastre, atropelando principalmente as crianças, as vovozinhas e os vovozinhos.

Todos os anos, uma semana antes da malhação, Tio Tonho saía caminhando pelas ruas do bairro pesquisando junto aos moradores. Perguntava daqui e dali, para o seu Zé Paraíba, para Dona Nair do bolinho, para Dona Esmeralda: “diz pra mim, o que vamos malhar este ano?”.

O boneco do Judas no bairro nunca representava uma pessoa, mas, sim, um fato que estava prejudicando a comunidade. Já malhamos bonecos representando, entre outros, a poluição do Rio Paraíba; uma valetona de esgoto a céu aberto; um lixão e o mosquito da dengue. Desta vez, numa referência a campanha pública “Se Beber não Dirija”, como já adiantou Aninha, o Judas vai ser o motorista bêbado.

Na casa da Dona Rosa o trabalho vai acelerado. Enquanto alguns pequenos criam cartazes com frases de efeito, outros, para rechear o boneco, misturam papéis amassados com balas e pirulitos doados pela comunidade.

A professora Morena costura retalhos de pano e formata a roupa do Judas. Já o Breninho, seu filhote, como diz a professora, fica só na observância. Talvez, por ser a primeira vez que ele participa.

Quem chega chegando é o Tiozão Auau, célebre por costumes populares. Carregando uma garrafa de cachaça temperada com folhas de guiné, vai dizendo que na sexta-feira da paixão é dia de fechar o corpo. Em seguida, espontaneamente, compartilha a iguaria terapêutica, que vai passando de mão em mão e de boca em boca.

O dia seguinte já é o Sábado de Aleluia, o dia da malhação. Seu Zezé do Mercadinho prepara os foguetes de treze tiros e começa o barulho! Então, em cortejo, o boneco do Judas é levado para a praça central do bairro. A criançada vai atrás segurando cartazes e gritando “Se beber não dirija! Se beber não dirija!”.

Exatamente ao meio-dia, o boneco de Judas é arremessado para a algazarra. Simultaneamente, os adultos participantes promovem uma festiva aleluia de balas.

O menino Bertinho, sentindo pena do boneco assolado, corre pra junto do seu Tio Tonho e, todo choroso, pede:
- Tio, eu quero outro Judas, só pra mim.

Como tio é tio, ele aciona Dona Rosa que prontamente e de improviso adéqua um boneco novo e menorzinho. Cheio de alegria e felicidade, o menino agarra o seu “Judinha” e sai correndo pela praça afora, gritando com todo entusiasmo:
- Se beber não dirija! Se beber não dirija! Se beber não dirija...

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Escrito por Osmar Antônio Ferreira