Cresci ouvindo minha mãe dizer: “É de menino que se torce o pepino” e “A noz, o burro, o sino e o preguiçoso sem pancada, nenhum faz seu oficio”. Precedia às falas, broncas, tamancadas, puxões de orelhas e varadas. Por muito tempo eu não entendia o significado do ditado: “A noz, o burro, o sino e o preguiçoso sem pancada, nenhum faz seu oficio”. Curioso, resolvi lhe perguntar como se escrevia a palavra “noz”. Sem cerimônias ela me respondeu: “Noz se escreve com tamanco, corrião e vara”. Coitadinha! Não entendeu o espírito da pergunta. Ao pronunciar “noz”- substantivo, eu entendia “nós”- pronome. Realmente “noz” só mesmo com pancada.

O Brasil vive momentos de turbulência social. Passeatas e manifestações de protestos ratificam a democracia. A juventude que parecia alienada despertou e hoje está à frente desse manifesto justo, perfeito e legal. Ela relata a insatisfação da impunidade que reina no país. O aumento dos preços de passagens de ônibus, barcas e metrôs foi o nível máximo que a paciência suportou. Os preços dos alimentos estão subindo na proporção da inflação. O governo nega e diz que a economia está controlada.

Os impostos abusivos não estão sendo revertidos na saúde, transporte, moradia e educação. Afinal, a Constituição nos assegura como direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância bem como a assistência aos desamparados. A mídia noticia diariamente as mordomias no Legislativo, Judiciário e Executivo. A farra continua.

Assusta-nos a quantidade de dinheiro gasta pelo governo para reformar e construir estádios de futebol para a copa de 2014. São obras faraônicas ou elefantes brancos construídos em algumas cidades que depois da copa perdem a razão de existir porque o futebol lá não possui força e nem torcedores para justificá-las. O ex Presidente Lula “arrumou” um jeitinho e presenteou o Corinthians, seu clube de coração com um estádio denominado: Arena Corinthians. Como pode um país com tantos problemas sociais gastar tanto dinheiro em prol do futebol? A história do pão e circo se repete.

Esperamos que os protestos continuem de forma pacífica e ordeira sempre que nossos direitos forem aviltados. A violência nos iguala àqueles que nos roubam a paz, a razão e cerceiam nossos direitos constitucionais. A Constituição assegura que todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustre outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente.

O momento é propício para refletirmos sobre um erro que cometemos quando lhes demos uma procuração através do voto elegendo-os aos cargos de vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal, senador e presidente da república (tudo em letra minúscula mesmo). É sabido que todos nós somos iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.

As palavras de minha mãe não saem da minha mente:

“A noz, o burro, o sino e o preguiçoso,
Sem pancada, nenhum faz seu ofício:
Esta é fechada, aquele vagaroso,
Um cala, o outro jaz sem exercício;
Mas tanto que o ferro, ou o pau nodoso,
A duros golpes lhes sacode o vício,
O fruto abre, o animal pés amiúda,
O metal clama, o preguiçoso estuda”.

Enquanto isso, nas ruas os manifestantes cantam o Hino Nacional do Brasil.

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Escrito por: Francisco Santana