Na minha adolescência passei uma temporada como barraqueiro (*) na fazenda Paraíso, interior da Paraíba. O local compunha-se de casa grande, curral de um lado, moradia do administrador do outro, em frente o barracão e alguns casebres nos quais residiam os serviçais e os vaqueiros. Não havia luz elétrica e as noites eram bastante monótonas. Essa monotonia acabava nos fins de semana quando aparecia uma dupla de cantadores. Eles chegavam na sexta feira e viajavam na segunda, mas só cantavam nas noites de sábado e domingo. Foi nessas circunstâncias que comecei a apreciá-los.

Eles ofereciam um repertório bem variado quando se apresentavam, iniciavam a cantoria elogiando o dono da casa e as pessoas influentes. Em seguida, dependendo do gosto dos mais velhos, eles se maltratavam e contavam vantagens cantando “repentes” acompanhados pelas violas que, além de dedilhadas, eram tamboriladas para manter o ritmo da cantoria. Então pude constatar que eles são educados, sensíveis, observadores e raciocinam muito rápido.

Naquela noite, a sala estava repleta de moradores, todas as cadeiras e tamboretes estavam ocupados. Um dos cantadores chamava-se Antônio Ceguinho, o nome do parceiro era Zé Preto. Ambos estavam sentados num canto da sala perto de uma janela que dava para rua. Na frente deles havia um tamborete com uma bandeja de alumínio para colher as minguadas moedas que pingavam uma vez ou outra, a fim de reforçar o pagamento que não devia ser grande coisa. Lá pelas tantas, um gato apareceu na janela e, assustado com toda aquela gente, pulou na bandeja e se mandou pela alcova, no momento exato em que o ceguinho devia cantar. Ele ouviu o ruído da passagem do bichano e perguntou ao guia:
— Que foi isso?

O guia respondeu:
— Um gato.

E ele começou:

— Por aqui passou um gato
Pareceu vir do terreiro
Pulou em cima do prato
Não derramou o dinheiro
Dos animais pequeninos
O gato é o mais ligeiro.

A reação daquela plateia rude foi incrível, todos bateram palmas. Dei-me por satisfeito e fui para casa dormir.

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Nota: Os meus agradecimentos a D. Geralda, minha fada madrinha, irmã do patrão, pela cobertura que me deu durante o período que lá estive.
(*) Nome dado a quem cuida de barracão: espécie de mercearia.

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Escrito por: Geraldo Gois