telefonista4

Eu era engenheiro recém-formado quando, com muito orgulho, comecei a trabalhar na antiga Teleceará. Tudo me fascinava, as maravilhosas e bem cuidadas instalações, o trabalho com a tecnologia “de ponta” e principalmente as pessoas, os colegas e os chefes mais incríveis que já tive em toda minha vida profissional. Tudo e todos me ensinaram muito!

Depois de passar pelo Departamento de Engenharia de Redes, onde trabalhei primeiramente na Construção e depois na Manutenção, estava em certa ocasião lotado no Departamento de Operações da Capital, que abrigava as antigas telefonistas, que faziam parte do Setor de Atendimento, hoje “Call Center”, onde estavam inclusos os serviços de Reclamações e Reparos (códigos de três números 103 e 104), dentre outros.

No prédio vizinho funcionavam os serviços de Auxílio à Lista -102 e Telefonista Interurbano-101, este último ainda bastante procurado naqueles tempos do início dos anos 90, apesar das facilidades do DDD e DDI já serem bem disseminadas. É que muitas pessoas ainda conservavam o hábito antigo de pedir à telefonista da Teleceará para intermediar e completar a ligação telefônica, até que o destinatário correto atendesse a chamada.

Procurando me inteirar do serviço das telefonistas, costumava conversar informalmente com elas e adquirir um pouco da interessante cultura daquelas valorosas mulheres, de todas as idades. Havia desde garotas no meio da adolescência até “vovós” renitentes, extremamente eficientes e que adoravam narrar proezas do cotidiano.

Com todas elas valia a pena conversar, quer fosse para trocar experiências profissionais ou simplesmente para ouvir as estórias e histórias deliciosas, principalmente das telefonistas do “IU”, como era chamado o Setor de Interurbano. Quando uma delas começava a contar suas aventuras e desventuras, as outras chegavam perto e animadamente surgiam fatos hilariantes, dignos de serem registrados para não caírem no esquecimento...

Em certa ocasião, uma delas mencionou que no início de sua vida profissional recebeu uma ligação do Norte do País, na qual a telefonista distante, ao completar a ligação pela Mesa de Telefonista, gritava do outro lado da linha, procurando se fazer escutar: “— Você é de Fortaleza? IU para você... IIIIÍ-UUUUÚ para você!”. A telefonista novata de Fortaleza achou que estava recebendo uma vaia e correspondeu à provocação dizendo: “— Mas é só o que me faltava, pois IUUUUÚ prá você também, sua desaforada. Vá vaiar a sua mãe!”.

Buscando prestar um bom serviço aos usuários do Serviço Interurbano, muitos deles idosos, havia uma orientação técnica que era repassada para as telefonistas, verificar o completamento da chamada antes de se desconectar, assegurando que a conversa entre as partes estava inteligível e de boa qualidade. Caso a ligação estivesse muito ruim, a telefonista poderia até mesmo ajudar os interlocutores com seu ouvido treinado e sua prática em conversar ao telefone.

Pois bem, outro fato diz respeito a uma jovem que solicitou uma ligação interurbana para um tio distante, na qual insistia em pedir ao senhor idoso que mandasse mais dinheiro emprestado para ela. O homem, muito esperto, fingia não estar escutando direito e dizia: “— A ligação está ruim, tá muito distante, ligue depois, pois não consigo lhe ouvir, ligue depois...”. A telefonista muito bem intencionada e que atentamente acompanhava o início da conversa interveio e disse: “— Posso ajudar senhor? Ela está dizendo que precisa de mais dinheiro emprestado”. Então, com muita presença de espírito o homem falou: “— Pode ajudar sim sua metida, empreste você o dinheiro a ela!”.

Assim como o estado do Paraná tem uma cidade chamada Cascavel, temos também no Ceará uma cidade com aquele nome. Certa feita a telefonista do Posto de Serviço de Cascavel solicitou um interurbano para Fortaleza, sendo atendida por uma telefonista novata, que ao colocar o fone de ouvido, no início da manhã, foi surpreendida com a colega de Cascavel dizendo em alto e bom tom: “— Fala Cascavel!”. Como a jovem ainda não estava totalmente familiarizada com os termos, os palavreados e nem sequer conhecia a cidade de Cascavel, acreditou que estava sendo xingada, ao que respondeu: “— Cascavel é você sua jararaca!”.

Muitos outros episódios me marcaram a memória, mas eles serão contados oportunamente. Apesar de ainda trabalhar no setor de telecomunicações, muitas vezes me pego pensando nos antigos e bons tempos, tão mágicos e plenos de lembranças felizes. Tempos distantes, em que havia telefonistas agregando às ligações telefônicas o calor humano de suas vozes e de suas presenças, tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas de nós.

-
Escrito por: Gilberto Studart