Estava eu a pensar na vida... (parece introito de novela portuguesa) enquanto não chegava algum cliente para ver os automóveis seminovos da loja do meu amigo Inácio, nesses tempos de vacas, ou melhor, “antas magras”. Quando me aparece o Reinaldo, um ser simples, morador de rua que limpa os matinhos da calçada — que meu pai, fluminense, insistia em chamar de passeio — perguntando se havia algum resto de comida de alguma "quentinha" ou um trocadinho para calibrar uma “marvada”.

Resolvi bater papo e perguntar de sua família, ele respondeu meio triste que a mulher tinha morrido (o grande amor da vida dele), as duas filhas trabalhavam em uma cidade próxima. Disse, ainda, que não gostava de pedir para os parentes (deve ter suas razões), gostava de “se virar”. Explicou que o amor de sua vida gostava de afirmar que ele tinha os dois mundos no mesmo dia — o céu e o inferno! No final do dia sempre estava menos carrancudo e mais falante, por isso naquele momento deveria imperar o céu. Ou seria o Inferno, já que estava “calibrado”?

Esticando um pouco mais o papo fiquei sabendo que, desde que o seu amor morreu, Reinaldo não dorme em colchão e, sim, no chão. Perguntei se era alguma promessa ou penitência, mas respondeu que não. Para mim, seria uma forma de protesto ou de lembrar-se dos outros tempos!

Para entender mais o que acontece com certas pessoas e famílias, pois a irmã dele é andarilha, fiz essa especulação. Conclui que ele não quer ir para albergue tomar banho, colocar água de cheiro e tomar aquela sopinha rala que dão, muitas vezes em troca de uma sessão de martírio. Na qual é preciso ouvir histórias sobre os anjos, Jesus, o Céu, o demônio etc., assuntos que não domina e pelos quais nem se interessa muito! Prefere continuar com sua liberdade, sua despreocupação em pagar contas como aluguel, água, luz, telefone celular, etc.

Tudo tem seu preço, mas ele paga e prefere continuar com sua liberdade ao invés de assumir compromissos, que os outros gostam de arranjar em nome de “uma vida melhor”. Para quem?!

P.S. Há dois dias encontrei a irmã andarilha do Reinaldo na porta de um banco pedindo um trocado para matar a fome. Perguntei-lhe sobre o irmão e ela respondeu que não sabia. Quinze minutos depois, encontro o “próprio” com um carrinho improvisado, catando garrafas PET na sarjeta para vender. Ele não me viu passar de carro. Já pensaram?!

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Escrito por: Augusto Cesar Medeiros