Sistel-ilustra-novo

Em 11 de novembro 1927 houve a maior enchente em Blumenau, Santa Catarina. Meu pai encostou um barco no primeiro andar para levar minha mãe para a maternidade a fim de dar luz à minha vida.

Na Alemanha

Em 1937, a família viajou à Alemanha para visitar os parentes. Infelizmente, Hitler não permitiu nosso retorno para Brasil, porque o meu pai tinha sido oficial na Primeira Guerra e, por isso, foi novamente convocado para o exército. E, eu, com 17 anos fui chamado para a aeronáutica, recebendo instrução de Flakvierling (bateria antiaérea).

A Flakvierling foi instalada no último vagão de um trem que levava suprimentos ao front para protegê-lo de ataques. Ao chegarmos próximos à linha de combate três aviões alemães em poder dos aliados atacaram, em voo rasante, o nosso trem e destruíram a locomotiva, não houve chance de atirar.

Em seguida, fui recrutado para uma unidade de infantaria que deveria impedir o avanço dos russos, cansado desmaiei na trincheira. Quando acordei estava sozinho, não havia mais nem um companheiro. Escutei barulho de motores, quando fui ver eram tanques russos. Consegui sair da trincheira e corri até encontrar os companheiros. Eles disseram que me tocaram, mas não reagi. Pensaram que eu tinha morrido.

Prisioneiro dos ingleses

Dois dias depois, quando os russos já estavam perto, consegui atravessar um rio para ser prisioneiro dos ingleses. Fui levado para um campo de prisioneiros no qual fomos alojados em tendas. A alimentação era uma ração do soldado inglês dividida para quatro prisioneiros. O almoço era uma sopa batizada de “sopa submarina” porque era água com umas verduras nadando no fundo da panela.

Foram procurados voluntários para trabalhar, apresentei-me e fui aceito. O trabalho era esvaziar um depósito do exército alemão e carregar o que lá havia em vagões de trem cujo destino era Hamburgo. Isso foi feito para que o material não ficasse com os russos quando houvesse a divisão da Alemanha.

Chegando a Hamburgo fomos levados para outro campo de prisioneiros e, em seguida, para a Inglaterra, com a finalidade de reconstruir as cidades.

A fuga

Consegui fugir escondido num caminhão. Fui para a estação de trem de carga e verifiquei o destino dos vagões, alojei-me em um dos vagões com destino a uma cidade da fronteira. Chegando lá, fui informado que era impossível atravessar a fronteira, muitos que tentaram tinham sido fuzilados pelos russos.

Avistei um grupo de pessoas em conversa, fui lá e ouvi um homem combinar a hora em que iriam passar para o lado russo. Na hora combinada segui as pessoas, atravessei a fronteira até chegar na estação do lado russo. Comprei passagem e viajei até Erfurt, aonde cheguei às vinte e quatro horas.

De uniforme e com a bagagem que restou fui a pé para a casa. Toquei a campainha, minha mãe abriu a porta e quase desmaiou. Ela me perguntou se eu não vira os russos, porque havia toque de recolher às dez horas e as pessoas encontradas após esse horário eram presas. Eu havia cruzado com soldados russos e não entendi porque ninguém me parou.

Dias depois peguei minha certidão de nascimento e fui à delegacia para solicitar o passe livre para atravessar a fronteira a fim de me apresentar no consulado brasileiro em Frankfurt.

No consulado fui muito bem atendido e informado que o documento ia chegar. Após quatorze dias recebi a notícia de que tudo estava bem e minha família poderia ser repatriada para o Brasil.

Os quatorze dias de espera foram difíceis, sem dinheiro residi numa ruína dormindo no chão e me alimentando de batata cortada em fatias que eram fritadas sem óleo numa chapa.

Depois o consulado encaminhou nossa família para um campo de espera onde fui internado em um hospital por estar desnutrido, recuperei-me com sopa de aveia.

De volta ao Brasil

Em outubro 1948 voltei para Brasil sem bens materiais, somente com uma veste no corpo. Toda minha família morou de favor numa garagem, dormindo em cima de papelão. Com dinheiro emprestado para pagar a condução procuramos emprego: meu pai, meu irmão e eu. Nós todos fomos empregados. Com os primeiros salários pagamos as dívidas e alugamos uma casa.

Meu irmão formado em telecomunicações conseguiu um emprego fácil. A firma onde ele trabalhava necessitava de técnicos, então deixei meu emprego para ser aprendiz de telecomunicação.

Depois a Ericson abriu uma filial em São Paulo, para onde nos mudamos. Eu passei a trabalhar como ajudante de montador de cabos telefônicos e motorista.

Certo dia, meu chefe me mandou para uma fábrica de celulose no Paraná para fazer emendas em cabo de jumbo. Chegando lá, o motorista me levou diretamente para o hotel.

Às 22 horas ele veio para me levar ao local onde eu faria o reparo. Deixou-me na empresa e avisou que tinha um compromisso, por isso deixou o número do telefone para que eu ligasse quando tivesse terminado o trabalho.

Era preciso aumentar os troncos da mesa telefônica, mas eu nunca tinha visto uma mesa por dentro. Por essa razão, depois que abri fiquei olhando e pensando:

— Eu preciso resolver o problema!

Aí surgiu a ideia, já existem dois troncos instalados então é só copiar. E deu certo!
Telefonei e logo o funcionário veio e testou, tudo estava funcionando bem.
O motorista me levou ao hotel e no dia seguinte ao aeroporto.

Chegando a são Paulo fui diretamente para ERICSON e meu chefe perguntou se as emendas tinham ficado boas. Respondi que elas já haviam sido feitas antes da minha ida, foi preciso, no entanto, aumentar a quantidade de troncos da mesa telefônica, então eu os aumentei.

O meu chefe ficou vermelho como pimentão e telefonou para verificar e recebeu a resposta de que tudo estava certo.

Formação em técnico de telecomunicações

A partir daquele momento as portas se abriram para mim. Meu chefe me mandou fazer todos os cursos que existiam a respeito de mesas e centrais. Tornei-me um técnico em telecomunicações.

Engenheiros vieram da Suécia para interligar São Paulo/Santos e São Paulo/Campinas, como falavam alemão fiquei trabalhando com eles e aprendi muito.

Meu último serviço pela Ericsson foi instalar um ZAA8 entre São Paulo e Campo Grande, MS, usando linhas físicas de São Paulo até Bauru e de lá até em diante utilizando linhas de telegrafia da Noroeste. A inauguração foi realizada em 1963.

A Ericsson fechou o setor de transmissão e recebi uma proposta da Teleoeste para trabalhar na manutenção do sistema e para interligar as cidades de Campo Grande, Aquidauana, Corumbá, Maracaju, Dourados e Ponta Porã.

Sou um dos primeiros a entrar na SISTEL.
Em 1988 fui convidado a me aposentar, o que aconteceu em maio daquele ano.
Eu não saberia sobreviver sem a SISTEL.
Um abraço à SISTEL e a todos os aposentados.

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Escrito por Jorge Schoeps
Ilustração: Silvino