I.

Deliciosas apenas, não. Eram também tenras, macias, suculentas, saborosas e, sobretudo, diferentes. À dorê, fritas, assadas, cozidas, ensopadas... Nunca houve, nem haverá, costeletas como aquelas.

A pensão também era diferente de todas as outras da cidade. Não era no segundo andar. Havia apenas um degrau numa espécie de corredor largo, onde estava colocado um pequeno balcão encimado por um retrato de São Jorge Guerreiro. Parecia mais com a entrada de um motel barato da Praça Cruz Vermelha do que uma pensão popular da Rua Uruguai.

Era limpa, impecavelmente limpa. Os pratos eram escaldados e vinham ainda quentes para as mesas. As toalhas eram trocadas todos os dias e, de tão brancas, pareciam alvejadas. Não havia a tradicional sopeira contendo o impagável “restô d`ontê”.

Diferente também era a dona da pensão. Senhora distinta, parecendo saída de um romance de Machado de Assis, com sorriso enigmático de uma Mona Lisa tropical de lábios carnudos, cabelos presos num pequeno coque e seios rijos apontando sob o avental branco. Tratava os fregueses pelo nome, falava com os empregados em voz baixa e jamais se irritava. Quarenta anos, se os tivesse, não parecia. Ela desfilava entre as mesas verificando os conformes e fingindo não ouvir os dissimulados suspiros de um ou outro freguês mais afoito.

O que fazia mesmo a diferença, o que fazia todos os dias formar fila na porta de entrada, eram as costeletas de porco, as deliciosas costeletas de porco da pensão da Rua Uruguai.

II.

Rua do Catete, começo da noite de Natal, lanchonete KTT

Ela, sentada na banqueta, com as pernas ligeiramente abertas, comia com boa boca o tradicional prato número sete: escalopinho, arroz, ovo, molho a campagne e salada russa.

Ele, de pé no canto do balcão, bebia sem pressa a primeira cerveja da noite.

De soslaio visualizou as bordas da calcinha cor de rosa que ela usava.

De soslaio ela percebeu o seu interesse e abriu mais as pernas. Ele sorriu, ela aquiesceu.

Ele pensou: “Arranjei para hoje!”

Ela pensou: “Arranjei o pagador do jantar!”

Do outro lado da Rua tomaram o ônibus 434, Grajaú – Leblon, via Praça Cruz Vermelha, onde saltaram dez minutos depois, sob o olhar complacente do sonolento motorista. O motel tinha o sugestivo nome de MIDWAY.

A portaria estava localizada numa espécie de corredor largo, onde havia um pequeno balcão encimado por um retrato de São Jorge Guerreiro. Parecia mais a entrada de uma pensão popular da Rua Uruguai do que um motel barato da Praça Cruz Vermelha.

Atrás do balcão um mulato forte, com a voz paradoxalmente fina, exigiu pagamento adiantado. No quarto, o forte cheiro de carpete mofado não impediu que eles se engalfinhassem numa luta prazerosa tentando cada um ser menos infeliz que o outro.

Ele, enfim, mais ou menos satisfeito, rolou na cama procurando recuperar o fôlego.

Ela apanhou na mesinha de cabeceira a sua bolsinha, imitação de couro de crocodilo.

De pé sobre a cama tirou da bolsa uma caneta esferográfica, dessas que dão de brinde de Natal nas lojas de quinquilharias.

Na parede esquerda, que é a do coração, escreveu com a mão firme e letrinha redonda de balconista bem treinada:

Neste motel de luxúria,
Foi feliz meu coração,
Fui beijada com doçura
E amada por devoção.

Ceminha 25/12/89

Depois abriu novamente a bolsa, imitação de couro de crocodilo. A mesma mão que guardou a caneta esferográfica, dessas que dão de brinde de Natal nas lojas de quinquilharias, trouxe a navalha, Sollingen como deveria ser.

Golpeou primeiro o pulso esquerdo, que é o do coração, e depois o direito, da letrinha redonda de balconista bem treinada. Então, juntando as mãos como numa prece, pôs-se a rodopiar, fazendo com que aparecesse nas paredes do quarto, desenhados a sangue do tipo B, (provavelmente com síndrome da insuficiência imunológica), figuras de anjos em adoração na manjedoura, dalisticamente surrealistas.

Ela saiu do motel para o Instituto Médico Legal.

Viagem curta, praticamente só atravessar a rua.

Ele saiu algemado, para posteriores averiguações, em direção à 9ª DP, localizada na rua Pedro Américo, bairro do Catete, de onde jamais deveria ter saído. Na portaria o mulato forte, com a voz paradoxalmente fina, apenas murmurou entre os dentes:

— Assassino!

III.

O seu sonho era ser médico. Não deu. Rodou vida afora daqui para ali, de lá para cá até acabar assim: Auxiliar de Serviços Gerais do Instituto Médico Legal. Dado a crise, aquilo até que não podia ser considerado fim de mundo. Tinha gente muito pior. Tinha gente que se desesperava e pulava fora da vida. Ali mesmo, na sua frente, estava a prova disso.
Dezessete anos, no máximo. Corpo bonito aparentemente saudável. Cortar os pulsos, que coisa mais fora de moda!

Ele ali, Auxiliar de Serviços Gerais do Instituto Médico Legal, fazendo o papel de médico legista.
O desgraçado ganhava, ele trabalhava. Até no Natal, ele trabalhava.

O desgraçado descansava da comilança do Natal, ele retalhava cadáveres, inventava laudos que o outro apenas rubricava. Até o carimbo do CRM era ele quem colocava...

Dez anos nessa vida acabariam com qualquer um. Teriam acabado com a dele não fosse o milagre do amor. Sim, amor de verdade. Amor, não chuvas de verão, nuvens passageiras. Não era maremoto era cachoeira que é perene (pelo menos até que algum idiota invente de construir uma hidroelétrica).

Se fosse apenas tesão não duraria cinco anos, essa devoção cega, essa disposição de se entregar totalmente, de fazer qualquer coisa para agradar.

— Qualquer coisa, mas isso não!

Foi o que disse da primeira vez que aquela senhora distinta, parecendo saída de um romance de Machado de Assis, com sorriso enigmático de uma Mona Lisa tropical de lábios carnudos, cabelos presos num pequeno coque e seios rijos apontando sob o avental branco, lhe pedira aquilo.

Ah, sim, ele tinha que fazer para provar que realmente gostava dela! Que diabo de amor era aquele? Ademais se não fizesse, ela teria que fechar a pensão:

— Você vê outros fregueses? Não vê! Sabe por quê? Por que você foi o único. Hoje foi assim, ontem também e amanhã será a mesma coisa.

E eles iriam viver de quê? Com a miséria que ele ganhava no IML iriam acabar passando fome!

O bisturi, como guiado por forças estranhas, divulcionou os ligamentos condro-esternais separando as costelas da coluna. Então, cuidadosamente, acondicionou na bolsa térmica cooler mais quatro quilos de costelas a outros doze quilos, ali colocados anteriormente.

Amor ou loucura isso não fazia nenhuma diferença. O que fazia mesmo a diferença, o que fazia, todos os dias, formar fila na porta de entrada, eram as costeletas de porco, as deliciosas costeletas de porco da pensão da Rua Uruguai...

Finito
Frasme

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Escrito por Francisco de Assis Menezes