O Rio Paraíba tem sua nascente na Serra da Bocaina e, além do estado de São Paulo, percorre Minas Gerais e Rio de Janeiro. Atravessa a região socioeconômica denominada Vale do Paraíba abastecendo várias cidades nesse percurso. Depois de transposto para o rio Guandu abastece a Região Metropolitana da cidade do Rio de Janeiro.

O Paraíba vivenciou o caminho do ouro das Minas Gerais, os casarões dos coronéis do café e seus escravos, a lei áurea que aboliu a escravidão, a chegada dos imigrantes italianos, a cavalgada de Dom Pedro I à São Paulo para proclamar a independência do Brasil e se fez milagre nas mãos dos três pescadores que encontraram a imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Pegado a Via Dutra, que une as duas maiores metrópoles do país, São Paulo e Rio, testemunhou a vinda da tecnologia, do desenvolvimento e das riquezas. Entretanto, a ganância de maus gestores dessa modernidade gera uma descontrolada poluição que diariamente despeja dejetos no seu leito destruindo a natureza, isso sem contar a descomedida extração de areia.

Hoje, devido à crise hídrica causada pela falta de chuvas que esvazia as represas, autoridades querem mais uma transposição, processo questionado por ambientalistas temerosos quanto aos prejuízos desse procedimento.

Não são remotos os bons tempos, quando na época das chuvas vinham as enchentes que alagavam suas várzeas e desalojavam os “piraquaras”, como são chamados os ribeirinhos. Naquela hora de aflição, a vizinhança unida numa ação voluntária de cidadania caipira transportava nos seus barcos os desabrigados para casas de parentes e amigos.

Depois de acudidos, os ribeirinhos e a vizinhança se reuniam para se valerem de um bem da enchente, que era mariscar piquiras (pequenos peixes da desova, que transbordavam junto com as águas).

Era inusitado e divertido observar, quando as mulheres com as suas saias levantadas balançavam com sincronismo as peneiras de bambu pra lá e pra cá, parecia uma dança ensaiada. Mas, de vez em quando, uma delas se desequilibrava, perdia a cadência, escorregava e virava com a bunda pra cima. Ah, era só risada, uma farra.

Depois do mariscar, enquanto a criançada e a mulherada comiam as piquiras fritas, os homens tomavam cachaça e tocavam viola.

Esses moradores tinham por hábito a pescaria, um exemplo era o senhor João Silva, sua esposa Belinha e a sua sogra Ofélia que pescavam rotineiramente enchendo as suas panelas com um delicioso pirão de caldo de peixe cozido.

Dona Ofélia adorava contar histórias das pescarias, principalmente de assombrações. Numa dessas, contou que certa vez pescando debaixo de um pé de ingá, por volta das 18 horas (o povo dizia que nesse horário não se podia pescar por causa das almas penadas que perambulavam pelo rio) ela fisgou um peixe parecendo grande. Fazendo força para puxar, deslizou pelo barranco afora e tchibum pra dentro d’água. Apavorada, agarrou num galho seco e saiu do rio ligeiramente molhada. No topo do barranco olhou pra trás e viu uma túnica branca fisgada no anzol, e no céu (cruz credo! ) envolto em rodomoinho o tal do “coisa ruim”.

Desse dia em diante, nunca mais teve coragem de pescar nessa hora. Jurando ser verdade a história, mostrava como prova, igual a um troféu, a túnica branca pendurada num cepo de árvore no quintal até o dia em que criou coragem para desovar “aquilo” no cemitério.

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Escrito por Osmar Antônio Ferreira