Prestar atenção e rezar eram as únicas coisas que poderia fazer.

Na sua frente estava a arma. Um tresoitão, como eles gostavam de dizer. Engatilhado.

Podia ver as pontas negras das balas no tambor da arma e o cão no ar. Qualquer decisão poderia ser errada. Aquele dia foi o marco divisionário da sua vida. Todos têm pelo menos um marco divisionário em sua vida. Ele também teve e aquele dia foi o seu. Eram dois caminhos diversos e ele teria que tomar uma decisão. Quantas coisas poderiam acontecer ou deixar de acontecer por causa de uma simples decisão.

Entregar o jornal manchado de sangue. Entregar a carne desembrulhada. Entregar o pão após a hora do café. Entregar a alma a Deus. A Deus ou ao Diabo, naquela hora era tudo a mesma coisa.

O pior seria o sobretudo. Entregar o sobretudo. Sobretudo, o sobretudo. O sobretudo ele não iria entregar.

O revólver continuava apontado para o seu olho esquerdo. Diretamente para o seu olho esquerdo. Os olhos são as janelas da alma. O olho esquerdo é a janela do coração. Ficou parado. Parado e mudo. Qualquer coisa que falasse poderia ser utilizada contra ele, conforme informação de todos os tiras americanos a todos os presos americanos, em todos os filmes americanos.

Ficou parado. Parado e mudo durante algum tempo que a ele pareceu uma eternidade, mas que para o outro foi apenas o suficiente para informar:

— Você fica parado. Parado e mudo. Qualquer coisa que fale será utilizada contra você, conforme informação de todos os tiras americanos a todos os presos americanos, em todos os filmes americanos. Entregue o jornal manchado de sangue. Entregue a carne desembrulhada. Sobretudo, o sobretudo. Dê-me o sobretudo. Não mexa nenhum músculo. Olhe para arma. É um tresoitão como gostamos de dizer. Está apontado para o seu olho esquerdo. Os olhos são as janelas da alma. O olho esquerdo é a janela do coração. Veja as balas no tambor. Repare suas pontas negras. Observe o cão no ar. Posso atirar. Atirar e apagar você. É como se soprasse uma vela: Puf, apagou. Fique parado. Parado e mudo!

Entregou a carne embrulhada no jornal manchado de sangue. O sobretudo, não! O sobretudo ele não ia entregar. Só morto e aí nada mais importava.

O outro continuou:
— Fique parado. Parado e mudo. Escute bem, quero seu relógio. Não me importo se foi presente de mãe, amante, mulher ou filha. Quero o relógio e já!

Bairro do Andaraí. Morro do Andaraí. Hospital do Andaraí. Luiza lhe dissera: — Melhor bairro do mundo.

E agora o desgraçado queria o relógio. Será que queria ver as horas? O relógio tudo bem. O sobretudo não entregava. Sobretudo o sobretudo. Talvez ele tivesse esquecido o sobretudo.

O revólver continuava apontado para o seu olho esquerdo. Diretamente para o seu olho esquerdo. Tirou o relógio do braço como quem tira um dente estragado da boca e ficou parado. Parado e mudo.

— Não quero ver as horas porra nenhuma, quero o sobretudo, sobretudo o sobretudo!

Ah, o maldito não esquecera. Queria o sobretudo. Sobretudo, o sobretudo. O sobretudo não entregava.

Luíza lhe dissera: — Venha morar comigo. Seremos felizes no Andaraí.

O Andaraí era o melhor bairro do mundo. Era. Depois que eles tomaram conta de tudo, desde a Flor da Mina do Andarai até o Hospital do Andaraí, ficou uma merda.

O revólver continuava apontado para o seu olho esquerdo. Diretamente para o seu olho esquerdo.

— Merda não! O bairro ficou muito melhor. Você já viu alguma coisa que tem dono ser pior do que outra sem dono? Agora me dá o seu sobretudo. Quero o sobretudo, sobretudo o sobretudo!

Bosta, o desgraçado vai mesmo me matar.

Domingos felizes foram aqueles no Andaraí. De manhã cedo iam à Igreja de São Cosme e Damião assistir a missa. Depois à feira comprar o peixe. Uma preguiçosa soneca depois do almoço. Amavam-se debaixo do chuveiro e então tomavam o ônibus 217 - Carioca/Andaraí - para pegar um cineminha na Praça Saens Peña. Maravilhosa rotina!

— Maravilhosa pra você que é um corno safado! Pra Luíza era um martírio. Você não é homem para ela. Você é apenas uma boca aberta. Comigo ela é realmente feliz. Não se faça de desentendido. Quero o sobretudo, sobretudo o sobretudo!

O revólver continuava apontado para o seu olho esquerdo. Diretamente para o seu olho esquerdo. Podia ver as pontas negras das balas no tambor da arma e o cão no ar. Tiraram-lhe tudo. O bairro, o Hospital, o Morro, o jornal manchado de sangue, a carne desembrulhada e amada Luíza.

Despiu o sobretudo como quem tira a própria pele e, virando as costas para a arma engatilhada, caminhou vagarosamente em direção a Rua Dona Amélia.

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Escrito por Francisco de Assis Menezes