Pouco depois de inaugurado o prédio tijolado à vista da Rua Rio de Janeiro, anos 80, no andar térreo começou a funcionar um bonito e funcional “PS” (Posto de Serviço), com diversas cabines telefônicas para ligações locais, interurbanas, estaduais, nacionais e internacionais. No andar de cima passou a funcionar o Departamento Comercial da Telecomunicações de Minas Gerais — Telemig, para os atendimentos empresariais do estado. Lá, havia diversos consultores de negócios, eu era um deles, assim como diversos outros, inclusive um colega que se chamava Salvador.

Por ser um prédio no coração da cidade e por não existir DDD, o movimento ali era intenso, ao ponto de deixar qualquer atendente biruta. Certo dia chegou um senhor, bigodudo, mulato e engravatado, voz mansa e ao dirigir-se ao balcão foi logo dizendo:

– Quero falar com Salvador.

Muito gentil a mocinha que o atendeu, vendo o estilo do usuário, disse-lhe:

– Acompanhe-me por gentileza.

Lá foram os dois subindo as escadas e, ao chegar a uma sala toda apoltronada, pediu-lhe que sentasse e aguardasse. Passou as divisórias e foi lá comunicar ao Salvador que havia um cliente na sala VIP a sua espera.

O usuário sentiu-se muito à vontade, bem acomodado naquelas maciotas poltronas azuis. Foleou as revistas “Sinos”, os jornais da Sintell, Telemed, Teleamiguinhos e tudo mais que havia ali nos portas-revistas. Começou a ficar inquieto e sozinho naquele enorme salão, e não havia ninguém que viesse atendê-lo. A moça que o acompanhou, não mais apareceu para dar-lhe uma satisfação ao seu desejo de falar com a capital baiana.

O tempo passou. Decidiu ele a ir embora e procurar novamente a balconista na parte térrea, mas ao levantar-se, de repente aparece um rapaz, também engravatado, comendo chocolate e se apresenta:

– Pois não, eu sou o Salvador! O senhor aceita chocolate? Peço-lhe desculpas pela demora, eu estava falando com um cliente e ele me prendeu muito ao telefone. O que o senhor deseja falar comigo?

Ele com aquela voz mansa e baiana, paulatinamente foi lhe respondendo:

– Seu Salvador, eu já estou aqui há mais de meia hora, e o meu desejo é falar com “Salvador” a capital da Bahia, onde se produz o cacau que fez esse chocolate que o senhor está comendo. Eu não desejo falar com o senhor, mas com a capital do meu querido estado. Agora você aparece aqui depois de eu esperar uma vida, dizendo que se chama Salvador e perguntando o que eu quero?

– Passar bem São Salvador!

Indignado disse-lhe em alto e bom tom:

- Eu perdi o meu tempo até agora!

Deu-lhe as costas e desceu as escadas cuspindo marimbondos!

Salvador ficou sem saber o que estava acontecendo. Internamente foi uma manhã de muitas risadas e gozações.

--
Escrito por Aluísio Veloso da Cunha (Ex-Telemig)