Parecia ser uma segunda-feira como outra qualquer, quando já haviam terminados os comentários sobre o final de semana, os resultados dos jogos de futebol e outros assuntos corriqueiros. Era década de oitenta e eu ocupava o cargo de supervisor da rede na cidade de Limeira, no estado de São Paulo. Os funcionários já haviam saído para suas respectivas tarefas e eu estava ocupando-me da parte que me cabia nos tramites normais da época.

Qual não foi a minha surpresa quando adentra à “minha sala” aquela figura toda vestida com sua negra batina, ninguém menos que Padre Rossi. Assemelhava-se a um gigante de ébano, tal a sua imponência, mas, só mesmo quem o conhecia, sabia que dentro daquele peito altivo como um militar alemão, pulsava a humildade de um coração, próprio daqueles que fazem do sacerdócio o seu voto de amor.

Nós, Padre Rossi e eu, discordávamos apenas em duas questões: religião e futebol.

Ele lógico católico e eu espírita, ele palmeirense e eu são-paulino, porém concordávamos em outros assuntos.

Voltando ao fato em si, indaguei sobre a honra de sua presença.

Ele então me disse que estava em apuros e indignado com o que havia ocorrido no domingo durante a missa, pois os fiéis ficaram desorientados quando ouviram o tilintar de uma campainha e não sabiam se ajoelhavam, levantavam ou sentavam, pensando que se tratava do som da campainha que o coroinha acionava na hora da consagração.

Passada a confusão, o padre saiu da igreja depois da missa e verificou que havia sido instalada uma campainha externa no ponto de táxi, que se situava na rua que ladeava a igreja.

A solicitação da “dita cuja” atendeu a um pedido de um dos taxistas que tinha um problema auditivo.
Por toda lei o padre queria que a campainha fosse removida, então eu fiquei entre a cruz e a espada literalmente.

Argumentei tentando convencê-lo a mudar de ideia, mas ele estava irredutível quanto aos seus direitos e solicitou que eu fosse com ele ouvir e ver o problema no local.

Conversei com os taxistas, inclusive o surdo, mas não conseguimos chegar a um denominador comum.

O sacristão, que estava atento ao nosso dilema, humildemente perguntou se poderia dar uma sugestão. Olhei para o padre e para o taxista e nessa troca de olhares pareceu consenso ouvir a sugestão do sacristão. Durante a missa do próximo domingo a porta lateral da igreja permaneceria fechada e somente se ouviria o tilintar da campainha acionada pelo coroinha.

Continuamos todos amigos e pensativos nas bem-aventuranças.

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Escrito por Mario Foresti