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Vou contar uma passagem vivida lá por volta de 1972 ou 74, não tenho muita certeza da data, mas está gravado na minha mente como se fosse recentemente o ocorrido.

Admitido pela CTB e, posteriormente, pela TELESP como trabalhador de linhas, eu tinha contato com o pessoal da instalação, do reparo e com os famosos guarda-fios, aqueles trabalhadores que corriam os circuitos na beira das estradas, nos pastos e muitas vezes no meio do mato.

Nesse convívio conheci um senhor – meu Deus quantas saudades deixou! Mas, vamos aos fatos, ele era de uma simplicidade que até comovia. Analfabeto e de idade bem avançada era admirado por todos, porque tinha um amor imenso pela natureza.

Aquele homem simples era um dos queridos do chefe e, por sua experiência e dedicação, trabalhava como guarda-fios.

Certo dia, seu chefe mandou que fosse correr um circuito que estava dando muitos estalos, apresentava baixa isolação e frequentes interrupções, recomendou que fosse o mais rápido possível para resolver o problema.

Lá se foi ele e seu ajudante, motorista, para o determinado circuito. Este em certos trechos cruzava brejo e capoeira onde era impossível chegar com o veiculo, então ele mandou que seu motorista fosse na frente e que esperasse por ele na curva da estrada, um km à frente.

Destemido foi ele em baixo do circuito verificando, muito atento a qualquer empecilho que pudesse estar causando o mau funcionamento, como por exemplo, galhos de árvores, cipós ou casinha de João de Barro. Feito o seu serviço e já cansados pararam em uma cidade próxima e, como já era hora, nada melhor que uma boa marmita para recuperar as energias.

Estavam descansando quando aparece o supervisor de surpresa. Qual seria o motivo? Depois de alguns minutos de conversa, o superior explicou que estava indo a uma central logo à frente e tinha que passar por ali. Passado um momento veio a temida pergunta:
- Eu não pedi para correr o circuito com muita atenção para retirar galhos, cipós e casinhas de João de Barro, e que tudo fosse cortado ou derrubado?

De prontidão, o trabalhador responde que fizera exatamente como fora recomendo.

Mas o supervisor retrucou na hora:
- Mas, vindo para cá eu avistei duas casas de João de Barro?!

Com a sua simplicidade e bom jeito respondeu:
Mas patrão, eu derrubei todas... só se eles fizeram mutirão e nesse intervalo foram construídas novamente.

Recebeu um tapinha nas costas e se retirou com um sorriso maroto no canto da boca.

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Escrito por Antonio Corniani
Ilustrador: Dado Bongo