Pela manhã, fui buscar meu carro na garagem, um pouco distante da minha casa. Ela acomoda outros três carros. Um deles estava estrategicamente num local obstruindo a passagem do meu. Fiz malabarismos para sair sem bater. Depois de muitos esforços, exclamei: que droga!

Na rua trafegava na minha frente, lentamente, um Fiat 147, amarelo, em péssimas condições de conservação. A lataria estava enferrujada, os pneus carecas, as rodas giravam cambaleantes, o cano de descarga furado fazia um barulho ensurdecedor e lançava pelos ares uma fumaça fedorenta. Exclamei: que droga!

Diante de um grupo escolar, parei para dar passagem a alguns alunos, que quase foram atropelados por um motoqueiro irresponsável que não respeitou a faixa do pedestre que estava quase na sua totalidade apagada. Seria pela ação do tempo ou pela péssima qualidade da tinta usada? Exclamei: que droga!

Por momentos meu carro trafegou ziguezagueando para fugir das fendas, buracos e crateras do asfalto. Seria desgaste causado pelo tempo? Omissão das autoridades ou uso de materiais de qualidade duvidosa? Exclamei: que droga!

Liguei o rádio. O comunicador dizia: “Obrigado pela sua audiência. Você está ouvindo o melhor do Sertanejo Universitário”. Num pequeno percurso no trânsito, duas músicas foram ouvidas e em ambas os tais universitários usaram o mesmo refrão: “Solte a garganta galeeeeraaaaa!!! Bate na palma da mão e dá um grito! Vamos pular e sair do chão, bate o pé levanta a mão! Solte a garganta, solte a garganta e bate na palma da mão”. Fiquei envergonhado com nossas instituições de ensino. Se universitários são assim, imagine quando fizerem uma pós, mestrado e doutorado. Exclamei: quanta droga!

Fui acalmar-me assistindo jogos dos meus times de coração. Percebi que a defesa do Fluminense é uma droga, o time do Cruzeiro tirando Montijo e Fábio é uma droga e o São Paulo é uma droga por completo.

Nos telejornais uma cachoeira de notícias de corrupção onde políticos inescrupulosos desviam o dinheiro público e nada acontece com eles. Como são caras de pau! Eles mentem tão bem que acreditamos que os marginais somos nós. Como somos bobos, palhaços, otários e hipócritas, pois sempre reelegemos os mesmos. O Brasil vive momentos de impunidade, desrespeito aos direitos dos cidadãos e nossos poderes desacreditados. Exclamei: esses políticos são todos eles umas drogas!

Ao sair de uma agência bancária encontrei-me com um conhecido que me saudou efusivamente. Estranhei tal atitude. Ele sempre me evitou. Sorridente, abraçou-me e disse contar com o meu apoio nas eleições vindouras, pois é candidato a vereador. Exclamei: fulano, você é uma droga!

Estacionei meu carro na Rua Presidente Kennedy, pertinho da loja Cour Art, num espaço de no máximo 15 cm de uma garagem. Quando retornei deparei com uma moto ocupando esse mínimo espaço que mal cabia uma bicicleta e uma parte encostada no carro. Eu me vi num beco sem saída, pois atrás estava estacionado um caminhão de carretos. Por instantes fiquei pensando no que fazer. Pedi socorro a três rapazes que passavam pelo local. De comum acordo resolvemos pegar a moto à força. O projeto foi desfeito diante da afirmação de um dos colaboradores. A moto tinha um dispositivo de alarme sofisticado e moderno que num leve toque soava um barulho que se fazia ouvir em Capela Nova e que também acionava uma firma de seguro e rastreamento. Diante dessas afirmações, os outros dois saíram em disparada. Recebi de pedestres inúmeras sugestões: “derruba essa moto!”, “chame o guincho!”, “quebra o pedal!”, “arranhe-a!”, “chame a polícia para rebocar!”. Por falar em polícia, eis que aparece uma viatura dela. Fiz sinal para eles pararem. Para meu desaponto, eles foram embora fazendo para mim um sinal de positivo, pensando que eu os estava cumprimentando. Sem solução fiz uma caminhada forçada, compras e depois de duas horas o caminhão que obstruíra a minha ré saíra e pude ir embora. Exclamei: o dono dessa moto é uma droga!

Diante do entrave com o meu carro, fui a um mercadinho próximo para comprar algumas coisas. Total dos gastos: R$ 11,15. Dei para pagar uma nota de 50,00 para espanto da atendente. O olhar dela foi assustador e me perguntou: “O senhor não tem uma nota menor?”. Diante do meu não ela balbuciou: “Pqp vai acabar com o meu troco”. Ela perguntou à colega do lado se trocava 50,00 e recebera outro não e liberou outro “pqp” baixinho. Visivelmente irritada ela foi num compartimento e voltou entregando-me algumas notas e vários pacotes de pratinhas no valor de 1,00 cada, em
moedas de cinco, dez, vinte e cinco e cinquenta centavos. Contei até um para não brigar. Exclamei: essa atendente é uma droga!

Depois de envolver-me com essas drogas variadas tive medo de me viciar. O que fiz? Fui relaxar e meditar. Sob o som da música Moonlight, sonata de Beethoven, tentei desenvolver a minha intuição, buscar a plenitude escondida dentro de mim, o meu equilíbrio, a saúde perfeita entre corpo e mente, tentei aceitar as pessoas como elas são, transformei o meu julgamento em amor, tranquilizei minha mente e relaxei meu corpo, aliviando minhas dores físicas e fortalecendo meu sistema imunológico contra o vampirismo.

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Escrito por Francisco de Santana