Depois de nos encantar e emocionar com programas como A feiticeira, Jornadas nas estrelas, Tele Catch, National Kid, Túnel do Tempo, Bonanza, Batman, Jeannie é um gênio, Guilherme Tell, Terra dos gigantes, Rin tin tin, Lassie, A ilha da fantasia, Maverick, Zorro, Bat Masterson, Ivanoé, Futebol e Festivais da Canção, a nossa velha Telekunen deu sinais de cansaço. O brilho já não era o mesmo, às vezes precisava de um tapa para melhorar o som ou a imagem e as válvulas cansadas demoravam mais tempo para se aquecerem.

Numa noite assistíamos ao programa Tele Catch. Lotação esgotada. Os gritos, comandados pelo meu pai João Pedro, eram tantos que nem percebemos que lá fora caía um temporal regado a trovões e relâmpagos. Para nossa tristeza, a televisão apagou totalmente. Precisamos consertá-la! Dizíamos. Vamos procurar um técnico que não cobre tão caro. Que tal o Otacílio Jeoffroy? Wilson Paraíso? Odilon? Édson Furtado? Adilson Prado? Ou então o nosso vizinho, o senhor Aguinaldo Ferreira Guimarães? Esse último era mais acessível porque, além de vizinho, éramos amigos dos seus familiares Miracy, sua esposa, Marileuse, José Aguinaldo, Cosme e o Ricardo, seus filhos. Por excesso de serviço ele não pôde nos atender. Conversando com os amigos alguém citou o nome de outro vizinho José Rocha que fizera um curso de eletrônica por correspondência pelo Instituto Universal Brasileiro. O seu nome ganhou força.

Procurado, expliquei o que ocorrera com a nossa televisão e ele prometeu ir à nossa casa para reparar o defeito. Ele pensou alto: “Pela sua explicação, Chiquinho, pode ser um mau contato, solda solta, condensador, resistor, fusível, placa, capacitor, válvula e vamos torcer para que não tenha queimado o tubo de imagem que custa o preço de uma televisão nova”. Nesse momento fiz figa. Solícito, ele foi num horário em que só a minha mãe estava em casa. Educadamente, ele a cumprimentou e pediu para ver o aparelho defeituoso que o Chiquinho havia lhe falado. Ela falou numa rapidez tão absurda (normal para ela) deixando o coitado do José Rocha, atônico e sem graça. Sem entender nada ele foi embora, deixando também sem graça minha mãe que se questionou: “Por que ele foi embora sem verificar a televisão? ” Mais tarde ele me procurou e fez o seguinte comentário:

— Virgem Maria! Que idioma é aquele que a sua mãe fala, Chiquinho? Esperanto? Latim? Grego? Russo? Romanês? Javanês? Mandarim? Espanhol? Árabe? Bengalês? Francês? Japonês? Chinês? Português eu garanto que não é. Tá doido, sô! Ela falava e eu parecia ouvir uma metralhadora atirando para todos os lados. Pensando bem, ela seria uma ótima dubladora de filmes de guerra e ação. Eu só volto lá com um tradutor ou quando alguém da casa estiver presente.

Ele retornou à nossa casa num momento em que todos estavam presentes. Os defeitos foram detectados. Uma resistência foi trocada e algumas válvulas foram apertadas. Dessa vez, não deixamos nossa querida mãe, Maria José, abrir a boca. Coitadinha!

Minha mãe, Maria José, nasceu na localidade do Rio das Mortes, município de São João Del, ela, meu pai, meus irmãos minhas irmãs e a Senhora Francisca de Paula de Jesus (1810/1895) “Santa Nhá Chica”. Quanto orgulho! Só quem conviveu com minha mãe conheceu a rapidez de sua fala. Para uns, parecia uma metralhadora, para outros, mais veloz que o som ou mesmo que a luz. Quando se estressava suas palavras eram incompreensíveis e ficava nervosa quando ríamos ou a questionávamos: “O que a senhora falou? Pode repetir?” Ela pensava muito rápido e queria que as palavras tivessem a mesma velocidade.

A sua habilidade vocal chegava a ser um talento. Os amigos perguntavam-me por que ela não se candidatava a uma vaga de narradora de corrida de cavalos no hipódromo da Gávea. Quanta maldade! Dizem que sou tal e qual. Será? Como dizem, "quem puxa aos seus não degenera" (ditado popular).

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Escrito por Francisco de Santana