Década de 60, a sala de nossa casa situada à Rua Major João Manoel, número 90, bairro São José, ostentava uma mesa de madeira coberta por uma linda toalha branca rendada.

Estávamos aflitos à espera do nosso primeiro aparelho de televisão.

— Pai, que dia ela vai chegar?

— Prometeram trazê-la sexta-feira sem falta.

Chegou a esperada sexta-feira. Passaram manhã e tarde. A noite chegou trazendo escuridão e decepção. Quando as esperanças se esgotavam um carro parou frente à nossa casa e um rapaz perguntou se ali morava o senhor João Pedro de Santana. Uma alegria juvenil tomou conta de mim. Após a resposta afirmativa, o rapaz e seu ajudante tiraram de dentro do carro um aparelho de televisão Telefunken e a transportaram para o interior da casa.

— Onde a coloco?

Quase que em coro respondemos:

— Em cima daquela mesa.

Os rapazes foram embora sem ligar a televisão. Momentos frustrantes. Eles alegaram escuridão e telhado sem laje. Mesmo assim a ligamos várias vezes e assistimos chuviscos. Na segunda-feira lá estava a antena erguida sobre um longo cano de ferro galvanizado. Dessa vez ao dedilhar o seletor as imagens apareceram na tela.

A nossa casa se transformou num cinema. Meninos e meninas da nossa rua e adjacências apareciam lá para assistir seus programas favoritos. Era comum meu pai mandar fazer café e servir aos ilustres penetras. Até broa de fubá foi servida. Eles se assentavam no chão e sabiam de cor toda a programação semanal. Alguns programas não tinham grande aceitação, a casa ficava vazia. Em compensação, Terra de Gigantes, National Kid e Tele Catch, a lotação era esgotada. O programa Tele Catch, que exibia combates de luta livre com encenações teatrais e circenses, era especial. Delirávamos com o desempenho do lutador Ted Boy Marino e das peripécias do árbitro Crispim.

Meu pai, João Pedro, morreu há tempos acreditando na veracidade das lutas. Ele xingava, chorava, socava o sofá e por várias vezes queria esmurrar e chutar a televisão.

Eu apreciava três seriados. O primeiro é National Kid. Quem não se lembra do início da série? Mais rápido que os aviões a jato, mais forte que o aço! Super-herói invencível, cavaleiro da paz e da justiça... National Kid!

Dizem que a série só parou de passar na TV porque o então Ministro da Justiça da ditadura militar, Alfredo Buzaid, censurou todas as séries que tinham super-heróis voadores. O decreto-lei 1077, de 26 de janeiro de 1970, institui a censura a tudo que pudesse atentar contra a moral e os bons costumes. Alguém teria pensado que super-heróis voando atentavam aos bons costumes. Será verdade?

O segundo é Terra dos gigantes e o terceiro Túnel do Tempo.

Com o passar dos dias a casa foi se esvaziando dos penetras simpáticos porque suas famílias também adquiriram aparelhos de televisão. Essa fase me traz saudades de muitos entes que hoje não se encontram mais entre nós. A eles minha eterna lembrança e admiração.

A título de curiosidade, a televisão no Brasil começou em 18 de setembro de 1950, trazida por Assis Chateaubriand, que fundou o primeiro canal de televisão no país, a TV Tupi. Nos anos 1950, a TV teve no Brasil um caráter de aventura, sendo os primeiros anos marcados pela aprendizagem, com improvisos ao vivo (não havia ainda o videoteipe). O alto custo do aparelho televisor, que era importado, restringia o seu acesso às classes mais abastadas. Os recursos técnicos eram primários, dispondo as emissoras apenas do suficiente para manter as estações no ar.

Você se lembra da sua?

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Escrito por Francisco de Santana