No dia 12 de março de 1993, recebi do INSS a confirmação da minha aposentadoria. Foi proporcional, uma vez que corria rumores que o governo estava articulando uma reforma na previdência. Mesmo aposentado, continuei trabalhando na Telpa, empresa de Telecomunicações da Paraíba.

Em 30 de junho de 1998, ao completar 57 anos de estrada na vida, é que tive direito a suplementação da minha aposentadoria por meio da Fundação Sistel. Agora sim, estava aposentado. Graças a Deus, numa época em que se falava em privatização das Telecomunicações. Entre a aposentadoria do INSS e da SISTEL, participei de diversas reuniões que o DRH organizava sobre a preparação da aposentadoria. Diversos aposentados dissertaram sobre suas expediências, diversas psicólogas enunciaram seus conhecimentos sobre a nossa futura vida nova.

Assim, com o diploma na mão de aposentado e com as dicas e os ensinamentos adquiridos, mergulhei na vida dos desocupados. Lembro-me que o presidente Fernando Henrique em um pronunciamento disse que éramos vagabundos. Respeito o seu ponto de vista, uma vez que ele também está inserido na nossa classe. Agora que estou aposentado vou me organizar. Além do INSS, tenho uma previdência complementar e plano de saúde pela Fundação Sistel que, graças a Deus, ajuda manter a família.

Não preciso mais acordar cedo, pois não tenho mais obrigação de horário. Vou dormir após o almoço, aquela soneca mais demorada. Posso arrumar meu guarda-roupa só com camisetas, bermudas, um terno para as ocasiões solenes, chinelos, alpargatas e um sapato social que usarei quando for convidado para um casamento, batizado, formatura etc.

Passei uns dias sem me ocupar em nada. Sentia uma coisa estranha, me sentia ocioso. Passei 38 anos trabalhando a semana toda, às vezes nos fins de semana, até nos feriados e de repente sinto-me sem fazer nada. Saí atrás de um novo bico e fui trabalhar na TIM como terceirizado. Passei mais um ano. Como o mercado de trabalho estava difícil, após minha saída da TIM, resolvi me dedicar a AAPT (Associação dos Aposentados e Pensionistas das Empresas de Telecomunicações) a qual fui com muito orgulho seu fundador. Agora minha administração era sem remuneração. Aí foi que coloquei em prática aquelas aulas da pré-aposentadoria. Lembro-me que a psicóloga falou que poderíamos trabalhar como voluntários, que ajudar ao próximo faz bem ao espírito. Eu complemento dizendo que o corpo também participa, pois não sei o que é doença. Graças a Deus, nem gripe que me era costumeira tive mais. Iniciei meu trabalho com 25 abnegados colegas e atualmente contamos com 280 associados, sem contar com uns 70 que eram sócios e já estão na Telecéu. Sim! Consegui outro emprego sem carteira assinada e sem direito a aposentadoria, foi na minha casa. Essa empresa colocou todos meus planos por água abaixo.

Todos os dias, tive que acordar cedo para levar os meninos ao colégio, tive que fazer café, comprar pão, buscar marmita, levar a madame à universidade, enfim passei a ser Auxiliar do Lar e Motorista, isto é, função dupla. Antes, tinha direitos agora tenho deveres. Faço tudo com satisfação, não me canso, faço com carinho e amor. Esse sacrifício tenho certeza que me dará bons frutos em breve. Uma enfermeira titulada, um doutor em Biologia, outro em Administração ou outra qualquer função. Um dia eles serão aposentados, vagabundos como eu, só não desejo que não sejam defasados do INSS como eu.

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Escrito por José Marinaldo Lula Leite