Ele media 1,68. Compleição física invejável, fortíssimo, um amontoado de músculos.Fisicamente lembrava-me a figura do marinheiro Popeye e das obras rotundas do artista Fernando Botero. Os canos de suas meias perdiam a elasticidade para acomodar suas panturrilhas musculosas. Era comum ele tirar as tampinhas das garrafas com os dedos e depois as amassava como se elas fossem feitas de algodão. Nada de exibicionismo. Brinquei algumas vezes com ele de queda de braço e venci algumas, ele deixou. Não era um homem bonito, mas a sua beleza interior, alegria de viver, gargalhadas constantes e virtuosidades transformavam ele num homem lindo, charmoso e encantador. Era comum nas festividades natalinas do 9º Batalhão da Policia Militar de Barbacena ele se vestir garbosamente de Papai Noel. Ele se oferecia para desempenhar esse papel e no final da festa chorava de alegria ao ver as crianças felizes e satisfeitas. Isso era tudo para ele.

Sua alegria era contagiante e suas gargalhadas se ouviam a muitos metros de distância. Estava sempre de bem com a vida, mesmo se equilibrando sobre o fio afiado de uma navalha ou caminhando em terreno movediço para trabalhar e sustentar a esposa e seus oito filhos. “Ele tinha a cabeça de um homem, o coração de um jovem e o espírito de uma criança” (Eugênio Mussak). Era um ser feliz e estar ao seu lado era sinal de alegria e contentamento. Na sua vivência, a tristeza não tinha vez. Ele brincava consigo, inventando piadas para tornar o ambiente descontraído e alegre.

Pela manhã ele me perguntava: “Chico, quem jogou ontem e que time ganhou?”. Com o tempo, descobri que ele torcia sempre para o time vencedor. Isso fazia parte do jogo de sua felicidade. Numa tarde ensolarada assentado no sofá da sala ele tirou o sapato e percebemos o dedão do seu pé direito com uma mancha roxa. Mesmo não gostando, ele foi ao médico que nos pediu para perceber a evolução da mancha. A mancha se desenvolveu rapidamente. Ele reclamava de desequilíbrio ao andar e o diagnóstico foi cruel para aquele homem que passou a vida caminhando e correndo. As veias de sua perna direita estavam entupidas, circulação sanguínea deficiente e a amputaram na altura do joelho.

Ele só ficou sabendo do ocorrido quando acordou no CTI do Hospital Ibiapaba, ficando revoltado com os filhos. Sorrisos e gargalhadas cederam seus lugares a lamentações, tristezas, silêncio e lágrimas. Ele renunciou viver, pouco conversava e rechaçou a ideia de muletas, cadeira de rodas e prótese. Só falava em morrer. Aprendi a fazer massagens e praticava nele diariamente usando talco e óleos. Ele gostava do que era feito de arnica. Sua barba eu fazia de dois em dois dias. Nunca me aventurei a cortar o seu cabelo que era feito pelo barbeiro Luiz, um contador de histórias que o fazia, às vezes sorrir e gargalhar.

Numa tarde, quase noite, fui à sua casa para lhe dar o banho, fazer sua barba, aparar suas sobrancelhas, tirar os pelos das narinas e dos ouvidos. Temi pela notícia que iria lhe dar, que eu estava viajando naquela noite para passar alguns dias na cidade de Suzano/SP na casa de meu irmão e que aqueles cuidados de higiene pessoal ficariam sob a responsabilidade de minha mãe e irmãs. Criei coragem e lhe contei. Na hora de me despedir eu lhe abracei, lhe beijei a testa e lhe disse timidamente no ouvido: “Eu amo você, pai!”. Apertei sua mão, afaguei seus cabelos e me despedi. Ele, com os olhos cheios de lágrimas me disse algumas frases não entendidas. Cheguei perto de sua boca e as compreendi. Ele me falou: “Chico, não vou mais precisar de sua ajuda. Obrigado! Essa é a última vez que você faz a minha barba, me massageia e me dá banho. Eu vou morrer e você não vai me ver nunca mais". Vi seu choro, enxuguei suas lágrimas e ouvi seu pranto. Viajei para Suzano com minha esposa e meu filho durante toda a noite. Chegamos de madrugada. Ainda não tínhamos nos acomodado e nem tirado as roupas das malas quando um vizinho do meu irmão veio nos avisar que o meu querido pai João Pedro de Santana, acabara de morrer. Retornamos a Barbacena imediatamente para o seu funeral. O tempo passou rapidamente e quando se aproxima o dia de comemoramos os mortos me vêm à mente essa passagem dolorosa e dolorida física e espiritualmente.

Meu pai sempre foi gente de bem. Ele praticava a lei da justiça, do amor e da caridade. Tinha uma fé inabalável em Deus. Fazia o bem sem esperar recompensa. Homem bom, honrado, ético, prudente, digno e benevolente para com todos. Não fomentava ódio nem rancor, nem desejos de vingança. Perdoava a todos.  Fiquei feliz por cuidar dele e ter aprendido lições de paciência, tolerância e amor. Aprendi que não devemos esconder sentimentos, fiquei feliz por ter dito a ele em vida que o amava e me sentia orgulhoso de tê-lo como meu pai. Que na terra somos passageiros e como tal devemos viver sem ódio, rancor, egoísmo, ciúmes, desentendimentos por causas fúteis e trocar tudo isso por uma vida de paz, amor, sabedoria e amando o próximo como a nós mesmo. O saldo foi positivo, descobri forças internas que eu desconhecia. “Aprendi demais sobre paciência, compaixão, a importância de me colocar no lugar do outro e que é o amor que nos une e nos faz seguir em frente” (Angélica Weiss – Jornalista).

“A ciência proclama que há três estados para a água: sólido, líquido e gasoso. Hoje descobri um quarto estado que tem características dos outros três. É sólido, por ser tátil, tem peso e arestas que arranham e machucam. É liquido por escorrer e passa a sensação que está causando uma grande erosão. É gasoso porque evapora e ocupa rapidamente o ambiente, nos deixando sem ar. Este estado da água chama-se LÁGRIMA”. (Sérgio Quirino).

(Fontes: Revista Vida Simples edições 163 e 164).

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Escrito por Francisco de Santana