Ela esteve conosco por treze anos nos divertindo, emocionando, limpando e arrumando a casa, cantando muito e se transformou num membro da família. R. era simplória, amiga, leal, responsável e muitíssimo franca. Motivo alegado para nos abandonar: marido doente clamando pela sua presença. Muito justo. Hoje, sexta-feira, ela não veio se despedir. Ainda bem, sou emotivo e com certeza iria chorar.

Eu estava redigindo um trabalho e não podia parar. O telefone tocou e eu estressado como sempre, dei um grito:

— Estou fazendo um serviço e não posso parar. Fala que não estou!

Ela muito obediente disse:

— Alô! O Sr. Santana mandou dizer que não está. Quer deixar algum recado?

Mais tarde, o colega me ligou e a gente riu muito do ocorrido. Ela tem um palavreado diferente e próprio. Relutei muito para não ser seduzido por elas. Vamos a algumas: estômago = estamo, tireoide = tiroide; Câncer = aquela doença; TV Globo = TV Grobo; Tábua = táuba; conjuntivite = inframação nos zói; Rocambole = rocambol; Problema = pobrema; Dilma = Dirma, dentre inúmeras outras.

— Sr. Santana, onti eu estava vendo um programa na Grobo e lembrei do senhor. O programa falava sobre os gordos. Eles mostraram um que eu acho que é o seu caso. É um nome difícil e não guardei. Eu acho que o senhor tem esse pobrema.

— Por acaso seria obeso ou sobrepeso?

— Né nenhum desses que o senhor falô.

— Por acaso seria obesidade mórbida?

— Isso! Eu acho que o senhor está com essa doença.

R. é forte fisicamente e não aparenta. Eu a chamei para ajudar-me a transportar uma estante de um cômodo para outro. Solícita como sempre, atendeu-me. Sorrindo, eu disse a ela que dividiríamos o peso. Foi um pega daqui, pega dali, um, dois e já! E nada resolvia. Estávamos em desarmonia. De repente ela me disse:

— Sr. Santana, abra a porta do outro cômodo.

Inacreditável, ela pegou a estante sozinha e a levou para o outro cômodo e esnobou-me dizendo que eu a estava “estrovando”.

Hoje senti falta de sua cantoria. Ela escolhia o ritmo de uma música e colocava nela várias letras e até inventava. Eu anotei o que ela cantou na semana passada. Foi assim:

“O maior golpe do mundo/Que eu tive na minha vida/Foi quando com nove anos/Perdi minha mãe querida/Morreu queimada no fogo/Morte triste, dolorida/Que fez a minha mãezinha/Dar o adeus da despedida – Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo eu estou aqui – debaixo dos caracóis dos seus cabelos - E te chamavas Maria/ Maria de Nazaré/E te chamavam Maria/ Maria do bom José – As andorinhas voltaram/E eu também voltei/Pousar, no velho ninho/Que um dia aqui deixei”.

Isso era uma praga eu andava pela rua assoviando essas músicas. Houve quem perguntasse:

— Que música é essa Santana?

— Sr. Santana ligaram para o senhor.

— Homem ou mulher? Deixou recado?

— Pela voz não deu para saber se era homem ou mulher. É um nome diferente.

— Souza?

— Isso mesmo, Coisa!

Adoro a simplicidade dela.

— Sr. Santana o senhor não aparenta a idade que tem. O senhor parece bem mais veio. Deve ser porque o senhor é gordo e careca.

Eu nunca corrigi o seu palavreado, eu me divertia ouvindo e aprendendo as novas palavras.

Era uma mulher esperta. Eu lhe disse:

— R. hoje comprei sardinha, quando você for fazer o seu almoço aproveite e coma sardinha à vontade.

— Sr. Santana eu não posso comer sardinha que me dá dor no estamo.

— Que pena! Eu iria lhe oferecer atum e vou desistir.

— Sr. Santana, atum eu posso comer. Atum não me faz male, só a sardinha que faz.

— Sr. Santana o arroz e a carne de frango que estavam na geladeira estão sem sal.

— R. você comeu o almoço do cachorro!

Semana passada ela conversou o tempo todo com o nosso cachorro.

— Leozinho! Ó Leozinho! Tô indo embora, cê vai senti minha farta? Vai fiinho? Eu vou senti farta docê. Num fica triste não! Depois eu vorto aqui prá vê cumé que tá ocê. Num chora não, viu!

— Au! Au! Au!

— Que bunitin! Ele respondeu!

Eu abri a boca ao ouvir esse diálogo.

Amanhã vou colocar um anúncio procurando outra com as mesmas características da R.

Enquanto isso não acontece vou cantando uma música que ela me ensinou:

“Vinha voando no meu carro/ quando vi pela frente/ na beira da calçada um broto/por isso eu corro demais/corro demais/ só pra te ver meu bem. Essa é a última canção/ que eu faço pra você/ já cansei de viver iludido/ só pensando em você/ se amanhã você me encontrar/de braços dados com outro alguém/ faça de contas que pra você não sou ninguém. Sentada na porta/ em sua cadeira de rodas ficava/seus olhos tão lindos sem ter alegria/ tão triste chorava/ mas quando eu passava/ a sua tristeza chegava ao fim/ sua boca pequena no mesmo instante/ sorria pra mim. Hoje é um novo dia/de um novo tempo que começou/Nesses novos dias/as alegrias serão de todos, é só querer/ todos nossos sonhos serão verdades/o futuro já começou”.

--
Escrito por Francisco de Santana