Eu estava assentado no sofá e um olhar inquietante incomodou-me. Era do Léo, nosso cachorro de estimação. Ele parecia querer conversar comigo. Sua sensibilidade, franqueza e lealdade impressionaram-me.

— Tudo bem, Léo? Que olhar estranho é esse? Quer conversar? Sou todo ouvido.

— Santana, conheço você há 11 anos e a palavra “diálogo” entre nós nunca existiu.

Você não me deixa falar, reclamar e nem desabafar.

— Que braveza! Liberte-se dos problemas que incomodam você e vamos conversar.

— Não preciso libertar nada, sou um “animal irracional”. Dentro de mim só habita bondade, amor, alegria, lealdade, companheirismo e felicidade. Eu estou aqui latindo, pulando, lambendo seus pés, trazendo na boca uma meia da Carol para brincarmos e você simplesmente me ignora, optando pela televisão, internet ou whatsapp. A minha vida é curta, já demonstro deficiências físicas pela idade e quando eu morrer, você vai chorar. Aí, será tarde demais.

— Que é isso, Léo? Assim você me arrasa! Eu gosto de você, adoro você e amo você. Verdade!

— Você se lembra da última vez que caminhamos juntos? Não tente se lembrar porque isso nunca aconteceu. Eu me transformei num bibelô. Você ouve sons estridentes e fica bravo comigo quando dou uns latidos jamais interpretados. Às vezes eles pedem carinho, socorro, companhia, podem significar carências de afeto, de comida e água. Você me repreende só por querer ficar pertinho de você, em cima dos seus pés.

— Você tem razão, Léo, há exageros, mas admito que esteja correto nas observações.

— Vocês humanos são dotados de razão, emoção e não sabem ser felizes. Brigam por insignificâncias e perdem esse precioso tempo para enaltecer o amor, a paz e a felicidade. O animal irracional não sorri. Por dentro gargalhamos de vocês que se entregam a futilidades e mesmices. Discutem políticas e futebol de segunda à domingo como se eles fossem resolver os problemas do mundo.

— Por falar em futebol, Léo, desconheço no Brasil um time que tenha o cachorro como seu símbolo. Vamos relembrar alguns: coelho, América FC (MG); galo, Clube Atlético Mineiro (MG); leão, Sport Clube Recife (PE); macaca, Ponte Preta (SP); peixe, Santos FC (SP); raposa, Cruzeiro EC (MG); tubarão, Ferroviário AC (CE) e porco, Palmeiras (SP).

— Santana, isso para nós é irrelevante. Infelizmente, o nosso nome é citado para definir o que há de mais sórdido, nojento e imundo no país – políticos. Quer coisa pior? Se eu tiver que torcer por algum time no Brasil, eu escolheria o N ÁU TICO, de Pernambuco, por motivos óbvios.

— Gostei do seu apurado humor. O que você menos gosta dos humanos?

— Eu não gosto da humanização exagerada. A continuar esse exagero vai aparecer algum político aloprado solicitando a legalização do casamento entre homens e animais. Eu me chamo Léo, nome de humano! Tenho conhecidos que vão à creche de Van, passeiam pelo shopping com roupas de humanos, praticam natação, esteira rolante e de sessões de spa. Outro dia, Santana, eu estava no seu colo prestando atenção numa entrevista concedida pelo Dr. Pet, Alexandre Rossi, que disse com muita sabedoria: “As necessidades naturais do bichinho são muito diferentes das nossas. Às vezes, a boa intenção não basta para dar qualidade de vida aos animais. Por exemplo, cães muito mimados, que não conhecem limites, costumam não gostar de serem contrariados e podem passar a manifestar agressividade, inclusive com os donos, que não entendem o motivo desse comportamento. Cães nasceram programados para ocupar uma posição dentro do grupo em que vivem, se não receberem limites começarão a impor suas próprias condições. Como tudo na vida, quando há exageros demais, pode ser prejudicial tanto para o animal como para a pessoa”.

— Você é muito observador. Eu tenho notado você rebelde com o Rodrigo, esposo da Carol, sua proprietária. Por quê?

— O Rodrigo é um homem que mede 1,95 e eu, 15 cm. Ele por ser grande se acha no direito de me chamar de “pitoco”. Já tentei morder nele e só alcanço o seu tornozelo.

— Já que está desabafando, me fale sobre sua alimentação.

— Como ração há 11 anos. Não nego que é de excelente qualidade. Essa rotina só é quebrada quando adoeço e vocês me servem carne de franco, frutas, biscoito polvilho e quando me curo, ração. Reconheço que sou mais um alérgico da família COBUCCI.

— Mais alguma reclamação?

— Por favor, deixem-me urinar aonde eu quiser e tiver vontade. Vocês têm o banheiro e nós o espaço. Parem de jogar aquele repelente fedorento que me faz chorar. Ele se assemelha ao spray de pimenta. Eu não sou bandido, baderneiro ou marginal. Se não quero comer, não insistam. Quando a fome chegar eu como. Santana, para provar nossa lealdade existe uma piada que comprova se seu cachorro ama você mais que sua esposa. Para saber é simples, tranque os dois por uma hora no porta malas do carro e, quando abrir, quem vai ficar feliz em lhe ver?

— Léo, você é um cachorro especial, talentoso, leal e meu confidente. Mais alguma coisa a dizer?

— Santana, eu amo você.

(Fonte: site Cão Cidadão Dr. Pet “Humanizar” gera problemas).

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Escrito por Francisco de Santana