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A marcha da história, desde os seus primórdios conhecidos, contendo acontecimentos, fatos e desdobramentos sempre influencia o homem que faz parte dessa marcha.

Como exemplo, descrevo fatos em que personagens históricos influenciaram acontecimentos em que participei.

Primeiro fato: Maestros, caminhos cruzados

Em 1942, fui aluno, no Rio de Janeiro, da 5ª série do antigo curso primário, frequentado no Colégio Público Municipal Estados Unidos.
A escola tinha um largo e longo corredor externo, no qual foram plantados em canteiros circulares arbustos de fícus bem aparados em forma de esferas (bolas). No final do corredor ficava o grande pátio coberto.

No dia 4 de julho, Dia da Independência dos Estados Unidos, houve uma solenidade, estando presentes o embaixador norte-americano e demais autoridades. Todos os alunos se achavam presentes.

Comandava a solenidade, o famoso maestro Heitor Villa-Lobos, grande incentivador do canto coral durante o governo do presidente Getúlio Vargas. O maestro se apresentava com um terno de linho branco, provavelmente com o famoso tecido S – 120 da época.

Foi combinado que a um sinal do maestro, postado à frente de um arbusto de fícus, todos os alunos localizados no pátio deveriam vir correndo, cantando e agitando os braços em sua direção. Aconteceu um fato imprevisto, eram tantos alunos fazendo pressão que forçaram o maestro a rodopiar e cair de costas sobre o fícus, o que amarrotou o seu terno. Foi um fiasco! Ao levantar-se, Villa-Lobos explodiu gritando: — “Os alunos do Colégio Estados Unidos não irão participar mais de nenhuma solenidade”.

O tempo passou. Em 1943, entrei para a antiga Escola Técnica Nacional — ETN para frequentar o Curso Industrial de Aparelhos Elétricos e Telecomunicações em frequência diária integral, tendo pela manhã aulas de Cultura Geral e à tarde Cultura Técnica.

No currículo de Cultura Geral, a primeira aula matinal era Música ministrada pelo famoso maestro Frutuoso Viana. O fato é que, na hora do canto coral, minha voz e de um colega desafinavam por estarem em mutação, assim fomos dispensados para não comprometer o conjunto.
A vantagem que nossas vozes produziram foi a de tomarmos o café da manhã antes dos demais colegas da turma.

Em 1943, a ETN foi inaugurada oficialmente. Para a solenidade inaugural estava prevista a presença do presidente Getúlio Vargas.

Para organizar o evento, na parte do canto coral, compareceu o maestro Heitor Villa-Lobos. No ensaio feito no ginásio esportivo, ficamos perfilados e o maestro ficou, com sua batuta, localizado num palanque que foi armado.

Sob o seu comando começamos a cantar do Hino Nacional. De repente, num gesto brusco, ele mandou interromper o canto e, com sua batuta, apontou e gritou bem alto: — “Tirem esse menino dai!”. O menino era eu, Chelomo Albagli.

Encontrei-me com a história num caminho cruzado por dois maestros famosos e influentes, compositores que deixaram legados importantes para a música clássica brasileira.

Segundo fato: Documento precioso

Em 1950, conclui o Curso Técnico de Eletrotécnica na Escola Técnica Nacional — ETN.
Em 1951, fui convocado para prestar o serviço militar no CPOR-RJ - Curso de Intendência, concluído em 1953, no qual obtive a graduação de Aspirante R-2.

Em dezembro de 1956, fui convocado pelo Exército para um estágio de promoção realizado no Regimento Floriano de Artilharia 105, concluído em março de 1957, pelo qual obtive a promoção para 2º Tenente R-2 de Intendência.

A Carta Patente foi outorgada a 2 de julho de 1957, sendo assinada pelo eminente presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira.
Reencontro-me com a marcha da história ao possuir a assinatura de um presidente que muito fez pelo progresso, foi o responsável pela construção de Brasília, deixou sua marca e obras na história do Brasil do século XX.

Terceiro Fato: 22 de novembro de 1963 — Um tiro abala o mundo

Em 1958, entrei na Companhia Telefônica Brasileira — CTB admitido como técnico de equipamentos lotado na diretoria técnica, na seção responsável pelas centrais telefônicas interurbanas e as do interior do Estado do Rio de Janeiro, incluindo-se PABX de grande porte.
Na época, os escritórios da CTB eram localizados no Prédio Presidente Vargas, no qual havia um PABX de grande porte localizado em salas do 2º andar, o equipamento continha 80 troncos de saída para os usuários.

No dia 21 de novembro de 1963, o chefe de seção, Sr. Neves, passou-me o seguinte serviço e orientação: “— Os departamentos de operação e de tráfego vêm observando que quando ocorre a ocupação de todos os troncos de saída, o PABX não envia o tom de ocupado para as chamadas subsequentes. Amanhã, você vai verificar o que está ocorrendo juntamente com o encarregado do PABX. E, se for necessário, fará o bloqueio manual dos troncos. Essa atividade só será possível após as 18 horas, quando declinar o expediente dos escritórios”.

No dia 22 de novembro, prevendo a complexidade dos eventos, pedi autorização para entrar na sala às 13 horas, conforme as normas da época. Juntamente com o encarregado passei a estudar os circuitos e esquemas envolvidos.

Por volta das 15 horas, observamos o aumento da ocupação dos troncos de saída chegando momentaneamente à ocupação total indicada pelas lâmpadas de sinalização. Eu disse: — “Estamos com sorte!” Pois, as luzes facilitavam o exame. O encarregado, com sua longa experiência observou: “— A essa hora? Isso não está normal. Vamos verificar o que está ocorrendo”.

Abrimos a porta e ouvimos um burburinho, funcionários movimentavam-se no corredor. Então, perguntamos: “— O que está ocorrendo?” A resposta veio em forma de indagação e surpresa: “— Vocês não sabem?! As rádios estão noticiando que o presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, foi mortalmente atingido por um tiro na cidade de Dallas”.

Reencontro a história, o assassinato de um importante personagem do cenário político internacional da época afetou e acelerou as observações necessárias para o reparo de um defeito na central telefônica localizada muito longe da tragédia.

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Escrito por Chelomo Albagli