Quem nunca espichou um barbante ou uma linha amarrada a duas latas ou caixas de fósforos para imitar um telefone? Se você disser “não” é porque nasceu com 15 anos ou não teve infância. Os diálogos não eram do tipo: “Mr. Watson, preciso falar contigo!” Fato que aconteceu no dia 10 de março de 1876 e quem falava era Alexander Graham Bell, jovem inventor escocês. Na outra extremidade da linha, estava o seu assistente, Thomas Watson, que ouviu as primeiras palavras inteligíveis transmitidas por telefone. Em 7 de março de 1876, patenteou a invenção do telefone sob o número 174.465 nos Estados Unidos. Esse evento evoluiu e no dia 3 de abril de 1973, em Nova Iorque, ocorreu a histórica primeira ligação de um celular, realizada por Martin Cooper, gerente da empresa Motorola. O aparelho tinha 25 cm de comprimento e 7 cm de largura e pesava aproximadamente 1 kg. No Brasil, ele foi apelidado de tijolo.

Hoje em dia, os aparelhos de celular são bem mais finos e leves. As pessoas os levam para todos os lugares e é possível atendê-los em qualquer lugar. Às vezes, nos vimos em situações indiscretas como o que aconteceu comigo algumas vezes. O número do meu assento era 17, bem no centro do ônibus que saiu de Barbacena, às 7h30, rumo a Juiz de Fora, numa quinta feira de tempo bom. Poucos passageiros e muito silêncio. Em Santos Dumont, ele ficou superlotado, os assentos foram todos tomados e vários passageiros ficaram de pé no corredor. Os que não puderam embarcar protestaram chutando, socando a lataria e endereçaram palavrões ao motorista e trocador, que ficaram perplexos. O silêncio e a monotonia da viagem só foram quebrados quando chegamos em Benfica. Uma jovem senhora resolveu ligar o celular para alegria dos passageiros. Pelo tom de sua voz, ela ou com quem conversava era surda. Como falava alto!

“Patrícia, já estou em Benfica, daqui a 15 minutos chegarei na rodoviária. A viagem está tranquila, graças a Deus. Você vai me apanhar lá? Já está me esperando! O meu exame está marcado para 10h numa clínica lá no bairro Alto dos Passos. Antes, vou ter que levar o pedido na UNIMED da Rio Branco para validá-lo! Muita burocracia né! Quando eu chegar aí lhe conto tudo. Passei um susto danado, menina. Eu estava tomando banho e notei um caroço no seio esquerdo, dois dedos abaixo do mamilo, apalpei várias vezes para certificar. Assustada, pedi ao Arnaldo para verificar e ele confirmou um caroço realmente. No mesmo dia marquei uma consulta com o meu ginecologista de Santos Dumont e ele achou melhor eu fazer uma mamografia em Juiz de Fora. Ele me disse que o nódulo é pequeno e está numa fase inicial. Para tirar minha cisma, vou fazer a mamografia e ver se vai ser preciso operar. Estou tranquila e muito esperançosa para que não seja ´aquela doença`. Menina, entreguei tudo nas mãos de Deus, Jesus Cristo, Mãe Divina, Espírito Santo e Irmã Dulce. Esse bendito caroço apareceu de repente, olha que eu faço exame periodicamente, uma vez por ano. Em Santos Dumont, eu conheço umas três que já operaram e estão bem. Oooohhh! já estamos chegando na rodoviária e estou vendo você pela janela do ônibus. No carro, eu lhe conto mais detalhes. Até já! Beijos!”

Todos ouviram, atentamente, o relato a respeito (desculpe o trocadilho) do nódulo que apareceu no seio da Patrícia e ninguém esboçou um sorriso sequer. Condoídos, deixamos que ela fosse a primeira a descer do ônibus. Apressada, ela não percebeu a gentileza. Ao passar entre a fila humana percebi os olhares, não maliciosos, para o seu seio esquerdo, o meu olhar inclusive. Que Deus lhe proteja, Patrícia.

Passei o dia e a noite em Juiz de Fora na residência da minha filha. Chegou a sexta-feira e bem cedinho eu já estava na rodoviária esperando o ônibus das 7h, que me traria de volta a Barbacena. Pelo horário, ele estava bem cheio e pelas características dos passageiros todos pareciam estudantes. Muitos se acomodavam nas poltronas para tirar um cochilo, outros preferiam a leitura e a maioria ouvia música com o fone no ouvido que saía dos mp da vida. Próximo a Santos Dumont o silêncio foi quebrado e muitos que dormiam acordaram assustados pensando num possível acidente. Era o toque altíssimo do celular de um jovem carrancudo que assentava do meu lado. Todos despertaram ouvindo o rock pauleira do Iron Maiden. Eis o diálogo:

“Bão uma ova! Bão uma porra! Estou indo para Barbacena porque a Samanta me ligou de madrugada para dizer que não quer me ver nem pintado de ouro e que vai jogar na minha cara a aliança de noivado. A culpa é sua Agnaldo! Escute bem, você me sacaneou! Eu acho que você está interessado nela, já me disseram isso, pediram para eu ter cuidado com você e ficar de olhos bem arregalados. Faltou da sua parte amizade, companheirismo, coleguismo e sobrou sacanagem, maldade e fofoca. Porra! Você não tinha nada de ligar para minha noiva e dizer que tentou se comunicar comigo pelo telefone até duas da madrugada e que ninguém atendeu. A Samanta não é boba não, Agnaldo! Ela sacou e ligou também para o meu celular. Eu lhe disse que não atendi porque estava cansado, que fui dormir cedo e deixei o celular no silencioso. A ‘coisa’ morreria aí se você não tivesse ligado para o Marcelo para saber do meu paradeiro.Você não tinha nada de retornar a ligação para a Samanta e dizer que eu estava no Joquei Clube na festa do peão. Que maldade, cara! Ela não precisava saber. Quem nunca contou uma mentirinha? Você tinha que ter malícia! Eu só quero lhe dizer que se meu noivado terminar a culpa é toda sua, ouviu bem? A culpa é toda sua! Você me sacaneou, Agnaldo! VOCÊ ME SACANEOU, AGNALDO! TCHAUUUUUUUUUUU!!!!!!!!!!!!!”

Todos levantaram a cabeça das poltronas para conhecer o dono daquela voz e riram ao vê-lo, menos eu que não podia fazer nada, afinal, ele estava assentado do meu lado. Será que o noivado terminou mesmo? Será que a Samanta teve a coragem de jogar na cara dele a aliança de noivado? Será que o Agnaldo queria mesmo ficar com a Samanta?

Esse Agnaldo é terrível!

Para reflexão: o telefone já foi um instrumento de tortura no Brasil ou ainda é? O eletrochoque é dado por um telefone de campanha do Exército que possuía dois fios longos que são ligados ao corpo, normalmente nas partes sexuais, além dos ouvidos, dentes, língua e dedos. (Extraído do livro “Brasil Nunca Mais”, Dom Paulo Evaristo Arns, página 35)

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Escrito por Francisco de Santana