Manhã de sábado do dia 14 de março de 2015. Rumei para o terminal rodoviário de Barbacena esperar pela minha filha, Marina, que chegaria de Belo Horizonte às 9h30. Como bom mineiro, 9h eu já estava lá. O ônibus chegou às 10h. Não foi uma espera em vão, aproveitei o tempo disponível para analisar comportamentos dos passageiros. Perambulei pela área na busca de um assento confortável. A maioria era de cimento armado. Entre assentos de cimento armado e madeira, optei pelo primeiro que já não ostentava propagandas pela quantidade de bundas e costas que passaram por ele.

O terminal estava superlotado. Fiz um giro e contei 72 pessoas, umas para embarcar e outras para receber familiares e amigos. Na volta do giro, encontrei dificuldades para reencontrar um lugar para assentar. Vislumbrei muitos pombos arrulhando e apressados na busca de migalhas de alimentos. O banco ao lado era todo ocupado por uma família. Assentado nele estava uma senhora cochilando segurando firme algumas bolsas e do seu lado haviam vários travesseiros. Era a família do Sr. Hely, que ostentava uma camisa amarela da seleção brasileira personalizada com o seu nome nas costas.

Próxima deles, a filha jovem ostentando um aparelho musical nos ouvidos. Foi um show. Ela dançava, requebrava, pulava e cantava como se estivesse se apresentando num palco, auditório ou diante de câmeras de TV. Além dela, tinham mais quatro crianças brincando de uma maneira diferente que não entendi. Eles ficavam em círculo de mãos postas cantando uma canção ininteligível, olhos fechados e de repente três corriam e o quarto depois de algum tempo corria para encontrá-los. Esse encontro gerava gritos, abraços e vibrações. Detalhe: eles não se escondiam. Para vibração dos filhos, o Sr. Hely entrou na brincadeira. Pai presente. Eles gritavam e corriam perigosamente pela pista onde chegavam e saíam os ônibus. Continuei não entendo a brincadeira.

Das dezenas de pessoas apenas uma jovem senhora, que se assentava do meu lado, utilizava o celular. De soslaio percebi como eram ágeis suas mãos ao teclar. Do seu celular, ouvi alguns gritinhos. Com agilidade ela os abafou apertando uma tecla. Abriu a bolsa, tirou um fone e o colocou nos ouvidos. Ela ria e parecia entorpecida pelo que via e ouvia. O terminal já estava lotado. Passou por mim um jovem de cabelos multicoloridos. Não tenho dúvidas que o apelido dele era: cocota, papagaio, maritaca, arara ou arco íris. Cabelos estranhos. Outro passageiro carregava nas costas uma mochila grande e no peito outra grande também. Ele parecia o fiel de uma balança e andava totalmente ereto. Quatro passageiros usavam camisas do Clube Atlético Mineiro. Ninguém usava a do Fluminense. Que injustiça!

Um ônibus da viação Pássaro Verde parou na plataforma “D” e me trouxe grandes recordações. Ele era oriundo da cidade de Ubá onde estudei, me formei em jornalismo e viajei muito nesse horário. Quanta saudade! Quanta recordação! Os primeiros passageiros a descerem do ônibus foi um casal e um filho elegantemente vestido, de no máximo três anos. Ele já desceu coçando o saco. A mãe, enquanto o pai esperava a entrega das malas, perguntou ao filho se ele queria fazer xixi. Ele truncou a cara querendo dizer “não” e continuou coçando o saco. A mãe voltou a lhe perguntar se ele queria fazer “pipi”. Com caras de poucos amigos e não respondeu. Já com as malas nas mãos o pai se juntou à esposa e filho que continuava coçando o saco. “Filhinho! Você está se segurando! Isso faz mal! Você quer mijar?” Ele num ato de rebeldia pueril colocou as mãos no bolso e saiu andando sozinho.

O ônibus de Anápolis/GO chegou e levou toda a família do Sr. Hely. Família alegre, divertida e brincalhona. E os pombos continuavam disputando espaço entre os humanos sem se importarem, na busca de alimentos. Nesse momento cantei baixinho a música do cantor Zé Geraldo: “Isso tudo acontecendo /E eu aqui na praça/Dando milho aos pombos”.

Dez horas. Chegou o ônibus de Belo Horizonte trazendo minha filha. Fomos para casa, olhei para trás deixando passageiros que se abraçavam, beijavam, choravam, acenando e dando adeus. Como sou movido à música lembrei-me imediatamente de uma música do Milton Nascimento que fala em encontros e despedidas.

“Mande notícias do mundo de lá/Diz quem fica/Me dê um abraço venha me apertar/Tô chegando/Coisa que gosto é poder partir sem ter planos/Melhor ainda é poder voltar quando quero/Todos os dias é um vai-e- vem/A vida se repete na estação/Tem gente que chega pra ficar/Tem gente que vai pra nunca mais/Tem gente que vem e quer voltar

Tem gente que vai e quer ficar/Tem gente que veio só olhar/Tem gente a sorrir e a chorar/E assim chegar e partir/São só dois lados da mesma viagem/O trem que chega/É o mesmo trem da partida/A hora do encontro é também despedida/A plataforma dessa estação/É a vida desse meu lugar”

E assim chegar e partir... são só dois lados da mesma viagem.

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Escrito por Francisco de Santana