Todo aquele que teve uma empregada há, no mínimo, um caso interessante para contar. Pela minha casa passaram várias, mas uma foi especial no que tange ao atendimento telefônico e cantoria. Regina quando canta, só lá pela décima vez é que você consegue descobrir a música. Ela mistura as letras e canta em ritmo de samba, valsa, rumba, reggae, rock ou inventa um. É uma salada de sons e palavras. Para se ter uma ideia semana passada ela cantou as seguintes músicas num fôlego só:

“Vinha voando no meu carro/ quando vi pela frente/ na beira da calçada um broto/por isso eu corro demais/corro demais/ só pra te ver meu bem./ Essa é a última canção/ que eu faço pra você/ já cansei de viver iludido/ só pensando em você/ se amanhã você me encontrar/de braços dados com outro alguém/ faça de contas que pra você não sou ninguém./ Sentada na porta/ em sua cadeira de rodas ficava/seus olhos tão lindos sem ter alegria/ tão triste chorava/ mas quando eu passava/ a sua tristeza chegava ao fim/ sua boca pequena no mesmo instante/ sorria pra mim./ Noventa milhões em ação/pra frente Brasil, do meu coração/todos juntos, vamos, pra frente Brasil/salve a seleção./ Moro num país tropical/abençoado por Deus e bonito por natureza/ em fevereiro/ em carnaval/tenho um fusca e um violão/sou flamengo e tenho uma nega chamada Teresa./ Hoje é um novo dia/de um novo tempo que começou/Nesses novos dias/as alegrias serão de todos, é só querer/ todos nossos sonhos serão verdades/o futuro já começou”.

O meu ouvido estava tão acostumado com esta sequência musical que quando saio me pego cantando todas elas. Parece mentira, mas a brincadeira é contagiosa. Dificilmente ela escuta o telefone tocar e quando acontece, perceba:

— Regina! Pode desligar é o Santana! Já atendi!

— O Santana não está, eu não estou vendo ele aqui, acho que ele foi lá em cima e não deve

demorar.

— Regina, já atendi. Pode desligar! – retruquei.

— Me desculpe, sr. Santana, era um homem querendo falar com o senhor. Acho que o nome dele é Santana também.

Na outra vez eu estava na rua e liguei para ela:

— Regina! É o Santana.

— Ele não está, ele deu uma saidinha pra comprar jornal e não deve demorar!

Um dia cheguei em casa e lhe perguntei:

— Regina, alguém ligou para mim?

— Ligou sim, senhor?

— Quem era? Você anotou o nome, número do telefone e o recado?

— Esqueci! Eu só sei que ele tinha voz de homem?

Não dava para ficar com raiva e ela continuava sua cantoria como se não tivesse acontecido nada:

“Há soldados armados, amados ou não/quase todos perdidos de armas na mão/nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição/de morrer pela pátria e viver sem razão/ vem vamos embora esperar não é saber/ quem sabe faz a hora não espera acontecer/ vem vamos embora/ que esperar não é saber/ quem sabe faz a hora não espera acontecer”.

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Escrito por Francisco de Santana