“Eu gosto de gente simples, daquela que não tem vergonha de rir andando sozinha se lembrou de algo engraçado, mesmo que a achem maluca. Eu gosto de gente verdadeira, que não forja sentimentos, que transborda. Que sente ciúmes, que emburra, e que desfaz o bico se recebe um dengo. Eu gosto de gente que ri de si mesma quando fala alguma coisa incrivelmente errada. Eu gosto de gente simples, que se dispersa vendo onde aquela formiguinha vai carregando seu grão. De gente que tropeça e sai correndo, fingindo que estava brincando. Gosto de gente meio estranha, que olha dos dois lados para atravessar a rua, mesmo sabendo que ela é de uma mão só. Eu gosto de gente natural, de cabelo bagunçado, de cara de sono, de sorriso largo, de coração grande. Eu gosto de gente”. (Jéssica Doni).

Rigorosamente, ocupo as manhãs de 2ª e 4ª-feiras na prática de aulas de pilates. Estaciono meu carro frente a um prédio e, rigorosamente, sou recepcionado pelo zelador desse prédio que me acolhe com um sorriso simples, bonito e com perguntas típicas de quem procura alguém para conversar. Ele é simples, simplório, humilde, opina e muda sua opinião diante do meu parecer. Quer ficar sempre bem com o interlocutor. Não sei o seu nome, vou passar a chamá-lo de “Amigo anônimo”.

Há dias, nós, barbacenenses sofremos com uma forte onda de calor. Era como se estivéssemos sobre um vulcão prestes a entrar em erupção. Segunda-feira passada estacionei o meu carro e lá veio o amigo Anônimo com uma mangueira na mão para lavar a calçada. O céu estava azulzinho, sem nenhuma nuvem. Ele se aproximou de mim e me fez a seguinte pergunta:

— Bom dia! Será que chove hoje? O céu está meio esquisito!
— Bom dia! Creio que não vai chover. O sol está muito forte, céu azul e sem nuvem.
— É mesmo! O senhor tem razão, não vai chover, mas estamos precisando dela. O solo está muito seco, as plantações morrendo, produtos caros nos supermercados, mercadinhos e no final os prejudicados somos nós. Estou sabendo que os hospitais estão lotados de crianças com problemas respiratórios. Logo elas que não têm como reclamar, é só sentir e chorar.

Na quarta-feira, ao ver-me chegando ele veio trazendo numa das mãos uma lata e na outra uma vassoura e me deu um alvissareiro “bom dia!” Espirrou e teve que fazer um malabarismo para segurar a dentadura que quase saiu de sua boca. Eu me preparei como um goleiro para segurá-la. Passado o incômodo dialogamos. Ele começou.

— Você acha que vão conseguir o “impiti” da Dilma?
— Vão o quê?
— Fazer o “impiti” da Dilma, tirar ela do cargo de Presidente! Deu ontem no Jornal da TV Globo. Você não viu?
— Não vi, mas por que estão querendo o... como se fala mesmo?
— Impiti!
— Isso, “impiti” da Dilma?
— Os Deputados, Senadores, os políticos em geral querem tirar ela do cargo porque ela quer cobrar imposto do “CPF”.
— Imposto do CPF? Como assim?
— É aquele imposto do cheque para ajudar o Brasil pagar suas dívidas. Eles roubam e a gente paga. Isso está errado. Disseram que qualquer movimentação que você fizer no banco vai pagar imposto do CPF.
— Que tipo de movimentação bancária?
— Fiquei sabendo de quando a gente tirar dinheiro do banco, pagar contas, cartão de crédito e o tal boleto. Ainda bem que não uso esses serviços. Eu sempre falo: com Deus não se brinca! Um senhor me disse que Deus é injusto. Só porque estão morrendo muitos artistas e não morre político. Minha mãe dizia que a gente não deve desejar o mal para ninguém senão aquele mal vem para gente.
— Você está bem atualizado! Parabéns!
— Eu gosto de ficar bem informado assistindo o Jornal da TV Globo e poder entender e discutir com as pessoas. Só gosto da TV Globo. De outra não.
— Você está certo a gente precisa saber o que se passa no Brasil e no mundo. Eu estou parando aos poucos de ler jornais, assistir telejornais e visitar a internet. A gente só vê e lê notícias ruins e isso nos faz muito mal.
— Você tem razão. O que você acha da Banda Calypso sem o Chimbinha?
— Quem?
— O Chimbinha que traiu a Joelma?
— Tchau amigo, semana que vem a gente conversa mais.

Aturar o “impiti da Dilma”, a “Lei do CPF” tudo bem, mas falar sobre Banda Calypso, Chimbinha e Joelma, aí não dá.

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Escrito por Francisco de Santana