As cenas, os locais e os protagonistas do livro Holocausto Brasileiro, escrito pela jornalista Daniela Arbex, confirmaram o que sempre ouvi sobre os hospícios de Barbacena. O farto material e as histórias macabras são dignas de um longa-metragem de horror, barbárie e suspense dirigido por Steven Spielberg. Difícil é saber quantos Oscar, Globos e Palmas de Ouro o filme iria ganhar. A trilha sonora já está decidida. Ele começaria com a música “Maluco Beleza”, interpretada por Raul Seixas e, no final, os mais de 60 mil internos mortos levantariam de suas covas rasas, caminhariam por toda Barbacena sob o som de “Thriller”, na voz de Michael Jackson.

Pelos nossos hospícios, campo de concentração, campo de extermínio, colônia, casa da loucura, assistência, sucursal do inferno passaram milhares de seres humanos com problemas de alcoolismo, epilepsia, prostituição, homossexualismo, mulheres confinadas pelos maridos, gravidez indesejada, vingança e muitos outros. Aproximadamente 60 mil deixaram lá suas vidas e os que ficaram, perderam a dignidade, nome, respeito e a condição de humano.

Barbacena é conhecida como “terra dos loucos”. Eu já briguei muito quando alguém me insultava, retrucava dizendo: os loucos internados não são de Barbacena e sim de outras cidades. Hoje percebo como foi infantil a minha defesa. Ela não tinha embasamento diante dos fatos. Eu confundi causa e efeito. A nossa cidade está parada no tempo, sem progresso, estagnada, tudo que se tenta fazer aqui não dá certo. Uma nuvem de pessimismo e uma vibração espiritual negativa pairam sobre nossa cidade. Imaginem que o nosso principal hospício foi construído sobre o terreno da antiga Fazenda da Caveira, que pertenceu a Joaquim Silvério dos Reis, traidor dos Inconfidentes. Ele ganhou as terras pela delação do movimento e antes de ser Colônia, a Caveira foi um sanatório para tuberculosos. Barbacena é uma herança maldita.

As narrativas, depoimentos e confissões chegam a enojar e enraivecer-me diante dos acontecimentos e conivência da classe médica e política. Vou usar pareceres do livro para que tudo seja fiel.

“Homens, mulheres e crianças, às vezes comiam ratos, bebiam esgoto ou urina, dormiam sobre capim, eram espancados e violados. Nas noites geladas da Serra da Mantiqueira, eram atirados ao relento nus ou cobertos apenas por trapos. Instintivamente faziam um círculo compacto, alternando os que ficavam no lado de fora e do lado de dentro, na tentativa de sobreviver. Alguns não alcançavam as manhãs.

Os pacientes do Hospital Colônia morriam de frio, fome e doença. Morriam também de choque. Em alguns dias, os eletrochoques eram tantos e tão fortes, que a sobrecarga derrubava a rede do município. Entre 1969 e 1980, 1853 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para dezessete faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos foram decompostos em ácido, no pátio do Colônia, na frente dos pacientes, para que as ossadas pudessem ser comercializadas. Nada se perdia, exceto a vida. Pelo menos trinta bebês foram roubados de suas mães. As pacientes conseguiam proteger suas gravidezes passando fezes sobre a barriga para não serem tocadas”.

Palavras do psiquiatra italiano Franco Basaglia: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como esta”.

Palavras do médico Ronaldo Simões Coelho: “O que acontece no Hospital Colônia é a desumanidade, a crueldade planejada. No hospício tira-se o caráter humano de uma pessoa e ela deixa de ser gente. É permitido andar nu e comer bosta, mas é proibido o protesto qualquer que seja a sua forma”.

Palavras do fotógrafo da revista O Cruzeiro, Luiz Alfredo: “Aquilo não é um acidente, mas um assassinato em massa”.

Eu me lembro de um caso na década de 1960 quando meu pai, João Pedro Santana, militar do 9º Batalhão de Polícia Militar, trabalhava numa área da guarnição que divisava com o hospício ou Casa de Terror. Muita gente o procurava para pedir ajuda para internar parentes suspeitos de alguma doença mental ou mesmo a procura de informações.

Um casal de São João Del Rei o procurou para internar sua filha. Era uma jovem muito bonita, vinte e poucos anos, alta, cabelos pretos, lisos, compridos, olhos negros enormes, de nome Verônica. Meu pai pediu-me que o acompanhasse até o Hospital Colônia para internar a jovem que durante o trajeto não falou uma palavra sequer. Cheguei a pensar que ela fosse muda. Passamos na casa de um senhor que nos deu um documento para ser apresentado na portaria. Lá chegando, meu pai desceu do carro juntamente com o pai da jovem. Eu e sua mãe ficamos no carro com ela que foi intimada a descer do carro.

Dois guardas ou vigilantes ou enfermeiros ou voluntários ou aprendizes vieram para buscar a jovem que começou a se debater, a gritar dizendo que não queria ser internada, que não era doida, que não era maluca e que iria morrer se fosse internada. Choro total. Aplicaram nela uma injeção que a acalmou. Recomendaram aos pais que não a procurasse por um período de sete dias, pois ela ficaria incomunicável e que isso faz parte do tratamento.

Passados os sete dias, o casal retornou e fomos visitá-la. Percebi muita ansiedade no ar. Eles trouxeram de São João Del Rei, laranjas, biscoito polvilho, bolinho de feijão miúdo, broa de fubá, broa de canjica, cartucho de amendoim, cartucho de coco, rapadura e melado que ela gostava muito. Dessa vez, preferi ficar no carro. Pela janela, percebi meu pai sério, carrancudo, testa franzida. O pai de Verônica estava cabisbaixo, pensativo e a mãe chorava muito. Motivo das reações: Verônica falecera naquela semana. Não sei o que fizeram com o corpo. O motivo da internação chocou-me. Em determinados dias do mês, Verônica se trancava no quarto, não gostava de conversar, chorava sem motivo aparente, ficava agressiva quando importunada, depressiva, ansiosa, tensa, excitada, triste, irritadiça, cansada, inchada, não comia ou comia demais, reclamava de insônia e de dores pelo corpo. Por esses sintomas, ela foi considerada pelos familiares e pelos profissionais como louca. No Hospital Colônia, Verônica deixou sonhos, desejos, sua juventude, sua história e sua vida. A ela e aos 60 mil que morreram, minhas homenagens.

(Textos extraídos do livro HOLOCAUSTO BRASILEIRO de Daniela Arbex)