Compareci à agência da Caixa Econômica Federal para fazer minha prova de vida. Nada mais justo num país que procuradores fraudam a Previdência Social recebendo pagamentos de beneficiários já falecidos e de cidades, verdadeiros currais eleitorais onde vacas, porcos, cavalos e cabritos votam. Lamentável. Era princípio de mês e a Caixa estava lotada. Ouvi meu nome ser gritado e naquela multidão localizei o amigo Rei, meu colega do Colégio Estadual que há tempos não via. Ele estava ali, estressadíssimo, para receber o seu pagamento. Depois de abraços e elogios recíprocos, dialogamos:

— Santana, meu amigo, foi Deus quem o trouxe aqui nesse momento. Estou todo enrolado tentando sacar meu pagamento e não consigo. Essa modernidade acaba comigo. Não entendo nada de celular, internet e muito menos de caixas eletrônicos. Pedi uma estagiária para ajudar-me e quando estávamos concluindo o serviço ela me largou e foi atender outra pessoa. Quando olhei para a tela percebi que o serviço estava todo perdido. Imediatamente, chamei outra estagiária que repetiu o mesmo gesto da primeira me deixando sozinho diante da operação. Eu só não fui reclamar na gerência para não prejudicar as meninas que precisam trabalhar. Santana, você pode ajudar-me?

— Rei, juro que também não sou um especialista em operações bancárias, mas nós dois juntos vamos tentar sacar o seu dinheiro, combinado? Primeiramente coloque o seu cartão nessa fenda. Depois vão aparecer perguntas até chegar o momento de o dinheiro sair por essa abertura.

— E se não sair? E se sair a quantia errada? Juro que meto um processo nessa Caixa!

— Fica calmo que tudo vai dar certo. Coloque o cartão e vamos fazer o que a tela pedir. Você colocou o cartão do lado contrário. Coloque sempre nessa posição, entendeu? Agora sim! Preste bastante atenção nessa posição que é o inicial de toda operação.

— Santana, apareceu na tela “esse cartão é de chip. Insira-o novamente”. Santana, o que é chip?

— Chip é chip. Entendeu?

— Entendi.

— Olhe para a tela e preste atenção na palavra “saque”. Ela significa que você fará um saque de dinheiro depositado na sua conta. Encoste seu dedo na palavra saque que a tela, sendo autoexplicativa, vai nos levar para a próxima operação.

— Santana, espera um pouco porque estou lendo as outras opções. Puta merda, sô! Apagou tudo! Fiz alguma besteira?

— Rei, tem que ser rápido, não se pode perder tempo que a tela retorna lá do início. Como teremos que fazer tudo novamente então, faça sozinho. Isso mesmo. A senha solicitada é segredo seu. Não a conte para ninguém. Cadê a sua? Está na sua carteira? Rei! Não repita as letras nesse tom de voz, todos estão ouvindo. Só você é quem deve saber. A tela está pedindo para você colocar o valor a ser retirado. Leu?

— Li, Santana, mas estou na dúvida no valor que vou retirar. Puta merda, caiu de novo!

— Eu falei: tem que ser rápido. Quando fizer uma operação tem que estar com tudo resolvido. Anote antes de fazê-la. Vamos começar tudo novamente. Agora você já sabe o caminho a seguir.

— Agora sei, Santana. Vou repetir em voz alta para gravar na mente. Primeiramente vou enfiar meu cartão nesse buraco do caixa. Enfiei. Pediram para enfiar de novo porque meu cartão é de chip. Se você não sabe o que é chip, eu não tenho obrigação de saber. Estão me perguntado a senha. A minha senha é: Ga Lo Bi. Uai! Como eles adivinharam que sou torcedor do Clube Atlético Mineiro? Como sabem que seremos bicampeões da Copa Libertadores das Américas? Pronto! O próximo passo é: clicar na opção “saque” que é para sacar meu dinheiro. Pronto! Santana! Fodeu tudo. Estão perguntando a data do meu aniversário?

— Responde!

— Julho!

— Não fala, clica!

— Agora querem saber o ano do meu nascimento? 1950. Agora querem saber os três primeiros números do meu CPF? Porra! Agora querem saber o primeiro nome da minha mãe! Agora querem saber a quantia a ser retirada!

— Já resolveu quanto vai retirar?

— Já vou retirar R$ 1.200,00 embora precise de apenas R$ 1.000,00. Uai Santana, estão dizendo que só posso retirar R$ 1.000,00! O dinheiro é meu e retiro o quanto quiser. Então vou clicar na palavra corrige, colocar os mil que eu quero e só esperar que o dinheiro saia nesse buraco maior. Pronto! Santana, meu amigo, muito obrigado pela paciência. Se não fosse você eu estaria até agora mexendo nessas teclas.

Rei me abraçou forte e continuou:

— Santana, eu continuo um romântico. Adoro ouvir Roberto Carlos, Sílvio Caldas, Altemar Dutra, Nelson Ned, Clara Nunes, Blues, Jazz e música clássica. Meus filhos me chamam de dinossauro e de careta. Tenho guardado muitos discos de vinil e uma vitrola cheia de estilo, Philips Anos 40, que não vendo por dinheiro nenhum desse mundo. Em toda casa, você vê nas garagens um, dois ou três carrões. Cada membro tem um diferente. Na minha garagem mantenho o meu Fusca velho de guerra. Tudo nele é original. Comprei um computador para meus filhos e continuo usando a minha velha e incansável máquina de datilografia Olivetti. Ela me quebra um galho... Sou avesso a tudo aquilo que chamam de modernidade. Lá em casa só se fala em Instagram, iPad, iPod. Com essa gastança de dinheiro e mudanças diárias de tecnologias só resta agora inventarem o UAI-FODE a gente.

— Rei, você tem razão sobre essa tal modernidade.

Esse diálogo lembrou-me um texto escrito pelo Ivan Sanches no seu blog: http://www.blogdoescritoramador.blogspot.com/ com muita propriedade:

“Nem tudo que é novo é moderno. Nem tudo que é velho é antigo. Moda é passageira. Tendência é passageira. Estilo é duradouro. Há novidade no passado. Há repetições no futuro. Eu costumo dizer que um livro que eu nunca li é um livro novo, não importa quando foi escrito”.

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Escrito por Francisco de Santana