Hoje amanheci com uma música na cabeça que me aprisionou todo o dia. Ela se chama: Je t`aime moi non plus, sucesso de 1969 nas vozes de Serge Gainsbourg e Jane Birkin. São suspiros, gemidos de amor físico intenso e sem controle.

Li que quando isso acontece é porque sua mensagem tem algo a ver conosco e que precisamos analisá-la e refleti-la. O seu conteúdo pode ser originário de fatos ocorridos num passado recente. Je t`aime moi non plus é uma música francesa. Quem sou eu para entender a letra... Uma colega a traduziu e me senti extasiado diante dessa música escandalosa, bela e gostosa de ouvir.

Esse domínio mental faz sentido. Eu acabara de ler pela segunda vez o livro 1968: o ano que não terminou, escrito por Zuenir Ventura, um belo presente da amiga jornalista e cantora Miúcha. Ele descreve, com exatidão, um período da dominação militar no Brasil. Nessa época, eu deixava o Quartel General em Juiz de Fora, onde fiquei exatamente nove meses. Testemunhei prisões, passeatas, provocações estudantis contra o regime, propagandas contra o comunismo, sindicatos cobrando direitos e um serviço de censura em todos os níveis de trabalhos.

Em 1969, eu trabalhava numa emissora radiofônica de Barbacena nas funções de discotecário, programador e locutor. Na época, tínhamos um convênio com a Embaixada Francesa, que nos enviava periodicamente discos de vinil para divulgações de seus artistas e músicas. Programei: Charles Aznavour, Edith Piaf, Gilbert Bécaud,
Adamo, Dalida, Sacha Distel, Paul Mauriat, Yves Montand, Françoise Hardy, Alain Barriere, Christophe dentre inúmeros outros. Num desses discos, encontrei a musica Je t`aime moi non plus. Ela estourou em todas as paradas musicais do mundo. Eu tive o prazer de lançá-la em Barbacena e só não esperava a repercussão popular. Ao ouvir os gemidos naquele transe erótico, a população pensava em obscenidade e erotismo. Protesto geral. A emissora recebeu inúmeras ligações telefônicas e cartas solicitando o impedimento de sua programação. Um padre solicitou da direção da emissora, demissão sumaria do locutor que a tocasse. Eles venceram. A Polícia Federal nos enviou um relatório contendo nomes de músicas censuradas, que não poderiam ser tocadas, entre elas, Je t`aime moi non plus, com pena de lacrar os transmissores da emissora.

Alguns locutores criativos, ao anunciá-la, diziam: “A melô do bordel”, “A melô do Motel”, “Melô da zona”, “A música do geme, geme” e inúmeras outras. Eu me vi entre o sagrado e o profano, sentindo a fúria popular sem rumo definido. Havia quem gostasse. As emissoras radiofônicas censuradas alertavam sobre o perigo da incursão comunista no Brasil, bombas explodiam e artistas eram exilados. O povo caminhava sem lenço e sem documentos, não podia dar Opinião, pois era Proibido Proibir vivendo numa Sociedade Alternativa ou numa Roda Viva. Desesperar jamais. Carolina enfim, saiu da janela e se encontrou com Geni, toda suja, e ambas foram ver a Banda passar cantando coisas de amor. Deram uma passada na igreja da Candelária que estava em Construção e se encantaram com o discurso do Padre Cícero ao ouvi-lo dizer: “Pai, afaste de mim esse cálice, de vinho tinto e de sangue!” Geni chorou ao se lembrar do Pai que vivia como um Bêbedo e Equilibrista e por amá-lo o chamava de Meu Caro amigo. Lembranças. Aparências e nada mais. Ambas disseram: Tristeza, por favor, vai embora e de mãos dadas saíram cantarolando:

“Caminhando e cantando/e seguindo a canção/somos todos iguais/braços dados ou não/nas escolas, nas ruas/campos, construções/caminhando e cantando/e seguindo a canção/vem, vamos embora que esperar não é saber/quem sabe faz a hora/não espera acontecer”.

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Escrito por Francisco de Santana