Eu tenho um cachorro da raça Yorkshire. Quer dizer: ele é da minha filha, mas, bem ou mal, quem cuida sou eu. Se quem cuida e cria é o pai ou a mãe, deduz-se que ele é meu. Ele tem nove anos e se chama Leonardo Cobucci. O Cobucci dele é com dois cês. Ele não é Santana. Cobucci é mais charmoso, mais bonito e mais chique. Nós o chamamos carinhosamente de Leozinho. Ao ouvi-lo ser chamado assim, o pintor que prestava serviços em minha casa franziu a testa e exclamou: Leozinho! Percebi um sorriso maroto no seu rosto e li na sua testa: “Leozinho? Nome de cão gay”. Eu lhe respondi: se você quiser eu vou soltá-lo. Ele vai avançar em você e morderá exatamente na região do “aposentado” ou “morto”. Foi um diálogo telepático.

Léo é divertido, amigo, leal, brincalhão, mas possui dois defeitos: late demais e urina muito. O latido dele incomoda, é grave, constante e haja tímpano, estribo, martelo, labirinto e bigorna e ouvido inteiro. Ouvi-lo latir é um martírio, suplício e tortura. Outro dia ele urinou na cozinha. Chamei sua atenção dizendo que ele não poderia urinar na lá. Parecendo sorrir ele concordou e foi na sala e urinou ali mesmo. Eu disse: seu filho da mãe não pode urinar na sala! Ele pareceu me responder: “Cê tá doido, Santana! Você me disse que eu não poderia urinar na cozinha, portanto, urinar na copa, sala e quartos eu posso!”

Léo é vergonhoso e quando se suja de fezes fica acuado, rabo entre as pernas, trêmulo, todo envergonhado. Ninguém pode chegar perto. Quem se atreve está sujeito a levar uma mordida. Quando isso acontece chamamos o Quinteto Fantástico, gabaritado na arte de acalmá-lo e lhe devolver a autoestima perdida por instantes. São eles: Gaby Liguori e Felipe Assis Braz, veterinários e seus eficientes colaboradores Elton, Dé e Juliana. O que seria de mim sem eles? Nada.

Há dias a temperatura de Barbacena caiu acentuadamente. Léo sente mais frio que qualquer outro ser vivente. Fui assistir ao telejornal da Globo News com ele no colo. A faxineira varria o cômodo. A comunicadora Heloiza Gomide leu a seguinte manchete: “A Presidente Dilma cai no Ibope!”. A faxineira se assustou e me perguntou: “Sr. Santana, será que a Dirma se machucou?”. Dei um pulo do sofá e o Leozinho caiu ficando irritado estatelado no chão. A dor do tombo foi tão grande que ele me xingou no idioma canino e, não satisfeito, mordeu o meu calcanhar.

Léo não é o Puffy do filme Quem vai ficar com Mary, nem Verdell do filme Melhor impossível, nem o Milo do filme O Máscara, nem o Franck do filme, Homens de Preto, nem o K9 do filme Um policial bom pra cachorro, nem o Marley do filme Marley & Eu, nem o Hoock do filme Uma dupla quase perfeita, nem o Einstein do filme De volta para o futuro, nem o Totó do filme O mágico de Oz, nem o Rin, tin, tin, o Scooby, o Beethoven, ou o Vagabundo – do filme A Dama e o Vagabundo – e nem do meu preferido entre todos: Muttley protagonista da série A corrida maluca. Léo é, para mim, superior a todos eles.

Há meses, num sábado pela manhã, uma residência vizinha foi assaltada e os moradores ficaram à mercê dos bandidos sob a mira de armas e ameaças psicológicas. Roubaram muito. Na rua, muitos curiosos e carros da polícia. Um policial veio à minha casa e perguntou-me se eu havia visto alguém estranho ou suspeito próximo à minha residência. Eu lhe disse apenas que por volta das 9h o meu cachorro latiu muito e muito alto. Eu, de dentro da casa, competia com ele gritando mais alto pedindo-o para parar de latir. Como ele não parou o xinguei muito e o coloquei para dentro de casa. Pensa que ele parou de latir? Continuou e dessa vez pulando na porta agressivamente. Retornei à rua e vi um carro preto estacionado a poucos metros da minha casa e uma moto. Para mim tudo normal, a minha rua é muito movimentada. O policial continuou perguntado como era a moto, o carro, se me lembrava dos números das placas. Eu lhe disse que para mim era tudo normal, como iria duvidar de uma moto e de um carro estacionados perto da minha casa? A inquisição continuou, dessa vez falando sobre o cachorro que não parava de latir ao ver as “visitas importunas” perto da casa. Reafirmei que o cachorro late muito, muito alto para tudo que ele vê mexer, até para uma folha que cai da planta do vizinho. Ele sacudiu a cabeça aprovando. O Léo latia tanto que o policial fazia as mesmas perguntas várias vezes e eu lhe dava as mesmas respostas várias vezes.

Esse é o Léo, formamos uma dupla quase perfeita.

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Escrito por Francisco de Santana