Você pode conhecer milhares de Marias, mas igual a nossa faxineira, lhe asseguro que não. Ela tem 54 anos num corpinho de 80. Fuma e solta baforadas semelhantes a uma “Maria Fumaça”. É cardíaca, hipertensa e confessou-me que fica sem água, comida, sono, sexo, mas não fica sem o cigarro. Que seja de papel, chuchu, jornal ou algo que solte fumaça. Ela está conosco há mais de oito anos e a cada terça e sexta-feira descubro nela um desempenho diferente.

Outro dia ela se rebelou, com a cumplicidade da minha esposa e da filha, resolveu não mais fazer almoço e nem café para mim. Esposa e filha almoçam em restaurante. Disse que antes fazia para me agradar e que isso atrapalha a sua faxina e que por várias vezes perdeu o ônibus por sair tarde de nossa casa. Sobrou para mim. Hoje, terça-feira, preparei a mesa pela manhã, fiz o café e comprei pão na padaria do Geraldo, próxima a minha casa. Ela chegou, guardou seus pertences e me perguntou:

— Sr. Santana qual é o pão de ontem?

— Aquele lá! Estes eu comprei agora.

— Eu não gosto de comer pão fresco porque me dá azia e dói meu "estamo", mas o pão que o sr. comprou agora está tão bonito que vou comê-lo. Azar, se meu “estamo” doer não vou ligar, é só hoje. Que queijo é esse que o senhor está comendo?

— Ele se chama queijo tipo cottage.

— É “bão” para o coração e colesterol?

— Os médicos e os nutricionistas dizem que sim! Ele não contém glúten e possui pouca taxa de carboidrato.

— “Intão” é bom mesmo, senhor Santana? Faça ideia o preço!

O almoço se transforma numa festa. Preparo tudo e ela diz que vai comer um miojo com ovo. Quando vê a comida que faço, o miojo já era. Fico ruborizado de tantos elogios à minha comida – cheirosa, gostosa, saudável e etc. A gente sempre se rende aos elogios. Eu lhe digo: Maria, tem frutas na mesa e doces na geladeira.

— Senhor Santana, eu adoro comer um doce depois que almoço. Laranja não gosto porque me dá azia, maçã me faz ranger os dentes e melancia é água pura. Vou comer um doce. Esse é de laranja?

— É.

— Hummmm que gostoso! De onde é esse doce?

— De Montes Claros, um amigo trouxe de lá semana passada.

— Os outros eu já experimentei, goiabada cascão e doce de manga. Vou preferir um pouco de sorvete de chocolate, eu vi o senhor tomando e me deu vontade. Nossa! Estou comendo tanto que vou virar uma baleia.

— Maria, eu fiz um suco de laranja com cenoura, pode tomar que depois eu tomo.

Quando fui tomar não tinha sobrado nada. Fui à geladeira, nada. Foi então que percebi que ela tomara o suco todinho. O jarrão e o copo estavam lavadinhos sobre a pia. Ela é muito esperta. Bobos somos nós. Se deixar ela é capaz de dar rasteira em cobra, nó em pingo d`água e negocia terreno na lua. Quando alguém da casa fala em doações de sapatos para a pechincha, ela aparece reivindicando-os. O tamanho do seu pé é sempre do tamanho do sapato a ser doado. Já foi 34, 35, 36, 37, 38, 39 e 40. Com roupa é a mesma coisa, ela é anã/gigante, gorda/magra. Se perguntarem o seu manequim ela dirá: “vareia” de 36 a 48, todos me vestem bem e fico muito à vontade dentro deles.

Pela sua cantoria, nós é que deveríamos receber dela. Não sei como os vizinhos ainda não reclamaram. Não posso deixar de reconhecer que quando ela canta os cachorros ficam calmos e adormecem. Ela mistura músicas, letras e canta desafinado. Estou escrevendo e ouvindo-a cantar. Vou tentar acompanhá-la para você ter uma noção.

“O meu coração é só de Jesus/a minha alegria é a perereca da vizinha está presa na gaiola, xõ perereca, xô pereca/O maior golpe do mundo que eu tive na minha vida foi quando com nove anos perdi minha mãe querida/você é o tijolinho que faltava na minha construção, é verdade, é verdade/as andorinhas voltaram, e eu também voltei/amigo, por favor, leva essa carta e diga aquela ingrata/fuscão preto, você é feito de aço/olha aqui presta atenção essa é a nossa canção/caminhando contra o vento sem lenço sem documento/atirei o pau no gato-to, mas o gato-to não morreu-reu-reu dona chica-ca/preciso acabar logo com isso, o meu coração é só de Jesus a minha alegria é Santa Cruz/por que você não passa lá, por que você não passa lá, você tem meu endereço/você traz a lenha, ciumenta, pare de ser tão ciumenta, agindo assim ninguém aguenta, só quero que você me aqueça nesse inverno e que tudo mais vá para o inferno/amor, quero que saiba como estou apaixonado, uma vez você falou que era meu seu/amor, há um alguém, na multidão que vai lhe adorar com amor e devoção/eu queria pedir pra você não ir mas a voz não me saiu, eu queria lhe pedir. Pobre menina, não tem ninguém/era um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones/estou guardando o que há de bom em mim, para lhe dar quando você chegar/mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas/vivem pros seus maridos/orgulho e raça de Atenas/quando amadas se perfumam, se banham com leite, se arrumam, suas melena/quando fustigadas não choram, se ajoelham, pedem imploram, mais duras penas, cadenas/já tive mulheres, do tipo atrevida, do tipo acanhada, do tipo vivida, casada, carente, solteira, feliz, já tive donzela e até meretriz/pai, meu herói, meu bandido/Ave Maria!”

— Sr. Santana, o senhor viu pela televisão aquele programa que conta a vida da Dalva de Oliveira? Que marido sem vergonha ela arrumou. Como é mesmo o nome dele?

— Erivelton Martins.

“Risque meu nome do seu caderno/pois não suporto o inferno/do nosso amor fracassado/deixe que eu siga novos caminhos/em busca de outros carinhos/matemos nosso passado/mas se algum dia, talvez/a saudade apertar/não se perturbe/afogue a saudade nos copos de um bar/creia/toda quimera se esfuma/como a beleza da espuma/que se desmancha na areia”.

Perceberam a riqueza de repertório? Ela continua cantando, começou às 13 e vai até 18h. Haja fôlego! O telefone tocou, ela atendeu e me perguntou:

— Sr. Santana, é para o senhor, pela voz é mulher e parece daquela que o senhor diz que ela é chata. Vou dizer que o senhor saiu ou o senhor vai atender?

Pasmem! Quando atendi era homem com voz grave. Ele me disse:

— Não quer me atender Santana?

— Desculpe-me, Marcelus – respondi.

— Sr. Santana, falei com o senhor que eu não tinha medo de morrer e que nem pensava na morte. Depois que sofri aquele ataque de “angina” passei a ter. Lá perto de casa uma senhora de 53 anos morreu de enfarte. Fiquei apavorada e com medo.

Maria é diversão, única, folclórica, alegria e boa de serviço.

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Escrito por Francisco de Santana