Imagine uma pessoa tímida. Imaginou? O João Bosco é muito mais. Ele conversa sem olhar nos olhos das pessoas, fala baixo para não ser notado, usa sempre roupas de cores neutras (preto, branco, cinza), nada de extravagâncias para não atrair atenção, olhar fixo para baixo, fica vermelho quando ouve um palavrão, gagueja muito ao ser interpelado, cumprimenta a gente pegando na pontinha dos dedos, não faz amigos com facilidade, tem dificuldade de se comunicar, tem medo de falar em público, quando vê uma máquina fotográfica ele desaparece e se sente desconfortável em uma sala cheia de estranhos.

Eu o entendo e reconheço que modificar o seu comportamento não é uma tarefa fácil. Ele reconhece sua timidez e não se importa de ser chamado de tímido e introvertido. Quando o encontro, o cumprimento com entusiasmo e recebo um sorriso maroto, um tchau com os dedos ou simplesmente um balançar de cabeça.

Num final de semana fui ao hospital visitar um familiar enfermo. A gente conversava descontraidamente quando ouvimos naquela ala vozes, risos, som de sanfona e de pandeiro. Abri a porta do apartamento e fui ao corredor para verificar aquela algazarra. Era um grupo formado por um palhaço; um sanfoneiro; uma enfermeira, tocando um violão sem corda; uma bailarina, que não parava de dançar e um médico, sério e compenetrado. Era contagiante, muita alegria e dança. O palhaço era o mais eufórico, falante e representativo. Entraram num quarto e fui atrás deles. Acamada estava uma idosa que foi acordada pelo som do grupo. Ela não se assustou e até dançou e bateu palmas de alegria. Algumas lágrimas rolaram dos seus olhos, molhando sua face enrugada. O quarto era um misto de sorrisos e lágrimas.

O palhaço era o mais engraçado e extravagante. Ele revezava momentos de lirismo, inocência, ingenuidade, exibicionismo, debochado, brincalhão, surpreendente e provocador. Em nenhum momento perdeu a pose. Era um anarquista desajeitado e desastrado. Sua roupa era larga, extravagante e multicolorida com tons de vermelho, amarelo, azul, verde, roxo, banco, preto ou, simplesmente, todas. O rosto era maquiado de branco e vermelho. O nariz era uma bolota vermelha, a voz impostada e calçava sapatos enormes com o pé direito no sapato esquerdo e o esquerdo no direito. Na lapela ele trazia uma flor, uma margarida que ao ser olhada de perto jorrava água molhando o rosto dos curiosos. E haja gargalhada. Nas mãos, o inseparável baralho que ele fez mágicas, muitas mágicas. Uma carta desapareceu e ela foi encontrada sob o travesseiro da enferma que não se continha de alegria. Acompanhei o grupo ao outro quarto onde estava internada uma jovem. Mesmas alegrias, descontrações, risos e lágrimas. Final do show. Ele agradeceu a presença de todos e deu um abraço no pai da jovem enferma. Percebi que ele apertara algo que estava no seu bolso. Nesse momento ouviu-se o som de um pum tão alto que deve ter ultrapassado os 90 decibéis. Muitas gargalhadas e todos taparam o nariz pelo forte cheiro exalado, de brincadeirinha. Outros quartos foram visitados e muitos puns foram ouvidos pelo corredor.

Fiquei sabendo que esse grupo era formado por vários profissionais de áreas específicas, voluntários e não remunerados. Um dos focos é diminuir a dor das pessoas que se encontram num leito de hospital ou vivendo em creches ou asilos. A proposta é levar uma mensagem de alegria, carinho e otimismo a quem, muitas vezes, já perdeu as esperanças, ajudando-os a lidar com sua própria dor, bem como mostrar que é possível conviver com isso e que as dificuldades e adversidades da vida podem ser superadas. As visitas são agendadas respeitando as decisões das entidades em aceitar ou não sua presença, especialmente em hospitais. Nesses ambientes, eles levam em consideração o estado geral de cada paciente, e com isso buscam formas de comunicação pelo improviso das brincadeiras, histórias, músicas, mágicas e outras atividades, trazendo o riso e a alegria ao ambiente.

É bonito ver entidades, associações, ONGs e grupos de pessoas engajados na fraternidade e altruísmo. Eles recolhem gêneros de primeira necessidade, como leite, fraldas descartáveis (adulto e infantil) e kits de higiene contendo sabonete, pasta e escova de dente, pente e toalha. Em datas especiais como Páscoa, Dia das Mães, festas juninas, Dia dos Pais, das Crianças e Natal realizam festas para distribuir brinquedos, chocolates, material escolar, roupas de inverno, cobertores e outros presentes.

Final da minha visita. Ao deixar o hospital, vi no estacionamento os “artistas circenses” se preparando para irem embora. Alguns ainda caracterizados e outros nem tanto. O palhaço estava sem o chapéu, sem maquiagem e sem a bolota no nariz. Uma exclamação ficou presa na minha garganta. Percebi que o palhaço era na verdade o meu amigo João Bosco. Olhei para ele, sorri e lhe parabenizei com um sinal de positivo e de aplausos. Ele retribuiu o meu cumprimento com um sorriso maroto, um tchau com os dedos e com um balançar de cabeça, timidamente. Fiquei muito feliz em ver sua metamorfose em nome do bem, da solidariedade, altruísmo e amor ao próximo.

(Fontes: Internet/Sites – Dados de alegria e Clínica da alegria).

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Escrito por Francisco de Santana