Resolvi homenagear minha rua - justa e merecida. Ela se chama Virgílio de Melo Franco. Uma moradora disse-me uma vez que até a casa dela é considerado bairro centro e o “resto” boa morte. Perguntei-lhe: então deveríamos ter dois CEPs e não apenas um que é 36200-112? Não obtive resposta.

Quem foi Virgílio de Melo Franco?

Foi um cidadão que nasceu em Ouro Preto, no dia 12 de julho de 1897. Era filho de Afrânio de Melo Franco e irmão de Afonso Arinos de Melo Franco que foi ministro das Relações Exteriores na década de 1960. Formou-se pela Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro em 1918. Em 1922, foi eleito Deputado Estadual por Minas Gerais pela legenda do Partido Republicano Mineiro (PRM), depois foi Deputado Federal e constituinte de 1933. Apoiou a Aliança Liberal e a Revolução de 1930. Treze anos depois, foi um dos signatários do Manifesto dos Mineiros contra a ditadura Vargas e um dos fundadores da União Democrática Nacional (UDN) na redemocratização em 1945, partido que presidiu. Ele morreu assassinado no Rio de Janeiro em 1948. O crime foi cometido por um ex-empregado que também foi morto na luta corporal travada com Virgílio. As causas nunca foram esclarecidas.

A rua que leva o seu nome é bastante sossegada, boa para se morar e ótima para criar filhos. Fica perto de tudo: bares, supermercados, farmácias, correio, padarias, quitandas, autoescola, grupos escolares, colégio e até do cemitério. Nela residem advogados, estudantes, enfermeira, militares, tatuador, massagista, médicos, jornalistas, promotora de justiça, ex-combatente, radialista, nutricionista, filósofo, dentistas, funcionários públicos municipais, estaduais, federais, aposentados, professores, empresários, administradores, psicólogas, estudantes, engenheiro, publicitária, contador, radiologista e comerciantes. A dificuldade de se estacionar no centro da cidade fez com que os motoristas optassem por nossa rua. No primeiro quarteirão, o movimento é intenso. Nos demais, é restrito aos moradores. É comum ver senhoras e senhores passeando com seus cachorros de estimação das raças labrador, beagle, cocker, yorkshire, chow-chow, dachshund, schnauzer, chihuahua, poodle e vira-lata, todas comportadas com saquinhos plásticos nas mãos para recolher as fezes dos animais. Temos dois salões de barbeiros, dois salões de cabeleireiras, uma pensão, uma creche e uma Igreja Batista. A maioria das casas é antiga, contrastando com um prédio de estilo moderno.

Ela possui algumas características chamativas que a torna especial. São coisas simples, mas marcantes:

- Temos o famoso Lima, que é o barbeiro mais antigo em atividade em Barbacena, são 60 anos de trabalhos ininterruptos.
- E por chamar Santana procuram-me pensando que sou natural de Santana do Garambéu, terra dos vizinhos da tradicional família Baumgratz.
- Outros procuram pelo Sr. Tarcísio, que deixa dúvidas, mas quando se diz “Zé Rural” todos conhecem.
- Aqui é reduto de tradicionais famílias de Ibertioga, Desterro do Melo, Santana do Garambéu e de Santa Rita de Ibitipoca.
- Outro dia apareceu na minha residência uma senhora procurando pela Cobucci, nome da minha esposa. Depois de alguns minutos de diálogo e informações descobri que a Cobucci procurada era outra, a Sheila – que também é Doumith.
- É comum morrer um morador e a vizinhança só tomar conhecimento na hora do enterro ou na missa de sétimo dia. Talvez se acredite que o momento é reservado apenas aos familiares.

De vez em quando, alguns buracos ou crateras aparecerem sempre nos mesmos lugares. Nós que moramos há tempos os conhecemos bem e sabemos como nos desvencilhar deles. E, quem não os conhecem estão propensos a sofrer acidentes. À noite, piora com a escuridão. E quando chove? Atenção redobrada e perigo constante. Inúmeros carros foram danificados e muitos xingamentos foram ouvidos. De longe, não os enxergamos e quando nos aproximam deles, já estamos dentro. Testemunhei uma vez marmitas voarem da traseira de uma moto que freou bruscamente diante de um.

Uma vez um colega queria vir à minha casa e não sabendo onde eu moro solicitou-me referências. Pensei e falei: Igreja Batista, casa de fulana, beltrana, creche e ele retrucou:

“Já sei onde você mora, perto de uma cratera!” Sorrimos. Ainda bem que a cratera foi tampada e a paz reina em nossa rua.

“De todas as escolas que frequentei, a da rua foi a que me pareceu melhor” (Anatole France). Sendo assim, moramos numa das maiores e melhores universidades do mundo.

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Escrito por Francisco de Santana