Antes era assim. Quando crescer quero trabalhar no Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Receita Federal, INPS – hoje INSS –, Varig, Banco Central e BNDS.

E agora? Quero ser médico. Vislumbro uma placa linda na porta do meu consultório: Dr. Silicone – Cirurgião Plástico. Vou aumentar as bundas, os peitos, diminuir nariz, orelha, tirar barriga, rugas, culotes e aquelas gordurinhas localizadas. Vou esculpir a mulherada. Enquanto emagreço as pessoas, engordo minhas contas bancárias. Vou comprar um haras e criar cavalos. Que charme! O que atrapalha na profissão são os plantões. Além de passar noites em claro, eles vão atrapalhar meus encontros como os amigos nos finais de semana. Adeus peladas, churrascos, cervejas e papos furados. E se eu for um dermatologista? Outro detalhe: só pensar em atender pelo SUS levo um baita SUSto. Médico não.

Vou ser advogado. Farei um curso de oratória e aprenderei palavras bonitas como: data vênia, de cujus, in dubio pro reo, habeas corpus, onus probandi, persona grata. Todos vão dizer que sou inteligente. Vou ser um sucesso. Mas tem tanto advogado na praça! Cada casa tem um. Não quero ser advogado.

Então, eu quero ser dentista. Vou propagar o meu nome na mídia. Serei chamado de Dr. Sorriso. Dentista, não. Vou ser militar. Vou andar com garbo ostentando uma farda lindona, armado, distribuindo temor e dizendo: “Você está preso! Conhece os seus direitos?” Não vai adiantar nada eu ter a força e o poder e ser o alvo da bandidagem. Que tal ser cantor? Vou cantar o amor perdido, amor bandido, traição, dor de cotovelo. Nas minhas apresentações estarão comigo três bailarinas popozudas, peitudas, uma loira, uma ruiva e outra negra, assim agradarei a massa e a mídia. Cantor também não.

Vou ser político. É fácil ser político, não precisa saber ler nem escrever. Com o meu poder de persuasão, conseguirei facilmente um diploma do primário, primeiro grau, segundo grau e universitário. Vou me especializar na arte de bem falar, enrolar, prometer e não cumprir. Adorarei pegar as crianças no colo, mesmo catarrentas e choronas. Vou sorrir para os idosos, aposentados e dar ao povo pão e diversão. Quero ser um político renomado. No mínimo, um Deputado Estadual, Deputado Federal, Senador, Ministro de Estado e Presidente da República. Se o Lula conseguiu eu também consigo. Se precisar corto dois dedos. Vou trabalhar pouco e ganhar muito dinheiro. Política não me agrada. De repente o povo revoltado, cheio de promessas não cumpridas vai jogar em mim o que jogaram na Geni.

Vou ser professor. Tá louco, Santana! Professor trabalha muito, ensina, se mata, dá aulas em vários colégios, aguenta alunos rabugentos, violentos, pais despreparados, não tem valor e nem dinheiro para gastar. Resolvido! Vou trabalhar na Petrobrás com a Graça Foster. Viu que chique? Que moral? O meu futuro e o da minha família estarão garantidos. O que me desagrada trabalhar na Petrobrás é o olhar desconfiado do Nestor Cerveró. Que olhar sinistro! Macabro! Parece olhar de peixe frito. Não quero trabalhar na Petrobrás.

Resolvido: vou ser jogador de futebol. Aí sim! Na assinatura do meu primeiro contrato vou comprar uma BMW só para impressionar e uma casa de praia de fundo para o mar para minha família. Ainda não sei o local. Pode ser no Rio de Janeiro, Santos, Santa Catarina, Ubatuba, São Vicente, Região dos Lagos, Búzios – de preferência – e Espírito Santo. Tudo vai depender de onde vou jogar. Pode ser na França, Inglaterra, Itália, Espanha, Holanda e na Alemanha. Já pensou na dupla: eu e Messi? Eu e Ibrahimovic? Eu e Yaya Touré? Eu e Schweinsteiger? Eu e Cristiano Ronaldo? Eu e Rooney? Ou Eu e Robben? Aparecerei como destaque na mídia mundial. Vou ganhar muito dinheiro e muita mulher. Esta é a vida que pedi a Deus. Vou comer do bom e do melhor, serei um atleta saudável, vou aprender a falar inglês, espanhol, francês e italiano. Nem que seja bom dia! Boa tarde! Boa noite!

Estou feliz e realizado! Amo esse país! Amo esse povo! De repente...

— Chiquinho!

— Que foi mãe?

— Pare de brincar e vai estudar senão vai acabar se transformando num jogador de futebol!

— Será que a mãe leu meu pensamento?

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Escrito por Francisco de Santana